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Ideias do Milênio

"Mentiras criadas por quem está no poder aumentam relevância do jornalismo"

Reprodução Twitter

Entrevista concedida pela jornalista Hanna Rosin, autora de The End of Men, ao jornalista Marcelo Lins para o Milênio — programa de entrevistas que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura GloboNews às 23h30 de segunda-feira, com reprises às terças (3h30 e 7h30), às sextas (12h30) e aos sábados (5h30).

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A edição 2018 do Festival Piauí GloboNews de Jornalismo teve como mote os especialistas. Entre convidados de quatro países, a jornalista americana Hanna Rosin, com uma longa carreira em vários veículos, várias plataformas. Ela esteve à frente do podcast Double X, de assuntos femininos e feministas na revista Slate, também foi premiada por artigos na revista The Atlantic e no mando do Invisibilia, um outro podcast que fala de temas invisíveis que mexem com a nossa vida, como sensações, sentimentos e ainda crenças. Hanna Rosin foi entrevistada em Washington pelo Luis Fernando Silva Pinto para o Milênio.

Luis Fernando Silva Pinto — Você se sente bem sendo jornalista? Por quê?
Hanna Rosin —
Me sinto, sim. Cada vez mais. Porque há mudanças reais acontecendo, talvez no mundo todo, mas com certeza nos EUA, na relação das pessoas com a verdade, fatos e mentiras. E a habilidade de criar verdades do nada está mais poderosa do que nunca e tem um papel muito mais importante nos EUA do que nunca, então acho que o papel do jornalista é mais importante hoje do que foi em qualquer outro momento da minha vida profissional. Há pessoas no poder criando verdades que não são verdadeiras, mas que se tornam porque vivemos num momento em que imagens, informações e a reputação de algo se espalham rapidamente e se tornam verdade, como um vídeo editado de certa forma para parecer que certa coisa aconteceu, ou o presidente cinicamente dizer que a posse dele foi uma das mais lotadas. Porque, se você repetir muitas vezes e editar imagens, com a internet sendo o que é, aquilo literalmente se torna uma verdade. Acho que precisamos que pessoas que tenham uma relação mais tradicional com a verdade e com os fatos continuem existindo.

Luis Fernando Silva Pinto — É mais importante hoje ser jornalista do que a maioria das pessoas imagina?
Hanna Rosin — Somos os guardiões de uma relação histórica com os fatos, é isso que somos. Não precisa nem ser algo tão nobre. Alguns jornais respeitáveis têm um padrão ético e uma relação com os fatos. Mão de obra de qualidade. Nós somos relevantes porque fato e verdade estão mudando muito rápido. Estão mudando rápido e são manipuláveis. E não estão mudando só porque o presidente está forçando, simplesmente está mudando o que as pessoas acreditam ser verdade, como se agarram a narrativas que já têm na cabeça, então é bom ter uma profissão, por mais detestada que seja, que tem uma relação histórica com os fatos, diferentemente do que está acontecendo no país.

Luis Fernando Silva Pinto — Reportagem é uma atividade fina para Hanna Rosin, seja no rádio, seja na imprensa escrita. E ela fez várias de grande qualidade. E uma história tocante é a de um menino transexual, Brandon. Você escreveu sobre Brandon. Bridget. O que aprendeu com essa reportagem?
Hanna Rosin —
O interessante é que foi uma reportagem sobre uma criança que pôde fazer a transição de menino para menina ainda muito pequena. A política em torno desse assunto mudou tremendamente. Eu não escreveria a reportagem hoje. Foi bem no início da aceitação de pessoas trans mesmo ainda muito jovens, quando começaram a testar hormônios para crianças que queriam trocar de gênero. Foi muito no início, então ainda havia um receio e um espanto em relação à radicalidade daquela decisão que não existem mais. A compreensão e a aceitação da transição de gênero são muito maiores hoje. Já é aceito, pelo menos em centros urbanos e nas grandes cidades, que isso é algo que acontece, que as crianças percebem ainda muito cedo. Sim, é uma decisão difícil para os pais, mas não é mais radical ou surpreendente encontrar uma criança de 7 ou 8 anos com certeza absoluta de que nasceu no corpo errado.

Luis Fernando Silva Pinto — Qual é a sua matéria preferida?
Hanna Rosin — A minha reportagem preferida é uma matéria de rádio, não é algo que escrevi. E tem a ver com homens e mulheres. Foi algo que aconteceu numa plataforma de petróleo, alguns anos atrás. E eu fui atrás. Foi uma experiência, uma experiência para aumentar a segurança. Mas o jeito que eles acharam para aumentar a segurança foi fazer os homens se abrirem emocionalmente uns com os outros. E esse foi um programa extremo de 18 meses para fazê-los...

Luis Fernando Silva Pinto — Numa plataforma de petróleo.
Hanna Rosin —
Numa plataforma de petróleo, para fazer com que se abrissem emocionalmente. A ideia era que se fossem sinceros uns com os outros haveria menos acidentes, porque os homens seriam capazes de trocar informações mais livremente. Seriam capazes de dizer coisas como: 'Não sei como fazer isso'. Ou: 'Minha mulher acabou de me deixar e estou totalmente distraído, alguém pode me ajudar?'. Era ir além de usar um capacete, era partir para uma questão mais profunda: fazer as pessoas serem sinceras sobre o que estava acontecendo em suas vidas. E eu fui atrás deles e achei todos os homens. Eu achei a equipe da época, o grupo, o líder do grupo, o grupo de fora que tinha prestado consultoria, que tinha proposto a coisa toda. E fiz uma matéria sobre essa experiência linda e completamente bem-sucedida.

Luis Fernando Silva Pinto — Bem-sucedida?
Hanna Rosin —
Completamente. Superbem-sucedida, em termos de segurança, em termos de fazê-los operar de forma mais segura.

Luis Fernando Silva Pinto — Você escreveu sobre amamentação. A política envolvendo amamentação, do que se trata?
Hanna Rosin — Há uma tremenda política envolvendo amamentação em algumas comunidades. Não em todas, mas em comunidades de classe alta. Este é um problema da classe alta nos Estados Unidos, não sei no Brasil. Mas há uma tremenda pressão médica e social pela amamentação e em torno da ideia de que se você não amamentar por um determinado período de tempo, você vai prejudicar o seu filho. E isso anda junto com a forma como a comida se tornou uma virtude moral hoje em dia e a mudança de como percebemos produtos químicos. Quando você está num grupo, acaba havendo um julgamento. Você se sente... A pressão é tão pesada atualmente, que você se sente uma derrotada completa se você não pode ou opta por não amamentar. E eu adoro amamentar. Quero dizer: é muito íntimo e bonito. É uma experiência aconchegante. Eu não tive nenhum problema, realmente adorei. Mas acho que nos venderam um monte de mentiras e não necessariamente um monte de mentiras, mas a informação começou a chegar fora de contexto a respeito da vida contemporânea.

Luis Fernando Silva Pinto — Alguns aspectos surpreendentes na vida, não só na carreira de Hanna Rosin... um deles, pular de um avião com a mãe, septuagenária. Por que você pulou de um avião com sua mãe?
Hanna Rosin —
Porque eu não queria que ela pulasse sozinha. Eu estava apavorada. Eu estava apavorada mesmo. Detestei cada segundo. Jamais repetiria a experiência. Meu pai tinha morrido um ano antes. Ele era paraquedista do exército israelense e o luto e a tristeza mais profunda levam sua mente a lugares malucos. E esse lugar, para a minha mãe, foi: 'Quero pular de um avião porque ele pulou e foi a única coisa que não compartilhei com ele e porque talvez eu o veja ou o toque lá de cima'. Depois eu soube que ela não foi a única que pensou isso, que estando no céu ela talvez sentisse alguma parte dele. Então botou na cabeça que pularia de um avião e foi comovente. A matéria que fiz sobre o salto de paraquedas da minha mãe.... Você não sabe o impacto que suas matérias vão ter. Foi para o rádio, e o que as pessoas interpretaram não foi que ela era maluca, imprudente ou corajosa, ou que era uma história de superação ou de luto. Interpretaram como uma história de um amor tremendo. Foi assim que percebi que as pessoas se comoveram, pela forma como ela falava do meu pai, até onde estava disposta a ir para preservar a relação, e se tornou uma história sobre uma grande prova de amor muito mais do que a solução para uma grande perda, que foi como a apresentei.

Luis Fernando Silva Pinto — Quando você fala sobre explorar o homem e a mulher, quero começar perguntando: explorá-los em seus papéis na sociedade ou em todos os papéis?
Hanna Rosin —
Em todos os papéis. O meu livro The End of Men tenta mapear desde mudanças históricas e socioculturais até como essas mudanças afetaram a intimidade. Há capítulos sobre casamento, mas também sobre a economia em geral. E há casos do mundo todo. Um dos capítulos se passa na Coreia e em outros lugares inesperados. A dinâmica entre homens e mulheres está mudando no mundo todo.

Luis Fernando Silva Pinto — Um dos aspectos que, se entendi bem, o livro explora é o fato de que a mudança na relação entre homens e mulheres foi mais do que qualquer outra coisa, em termos econômicos, produto da mudança dos meios de produção da sociedade.
Hanna Rosin — Sim. Começa como uma história econômica. Começa como uma história na qual a economia mudou para se tornar uma economia de serviços de informação, e certos empregos que definiam o que significava ser homem e permitiam que homens, principalmente sem diploma, fossem de classe média, sustentassem a família, se enxergassem de uma certa forma e tivessem um certo papel na sociedade desapareceram rapidamente nos últimos 30 ou 40 anos. E houve uma série de recessões que interromperam violentamente certos ramos, como habitação, construção civil, esses tipos de emprego. Então, de repente, como ser homem entrou em questão. A forma mais simples de ser homem e ter uma vida de classe média desapareceu muito rápido. Ao mesmo tempo, surgiram papéis para as mulheres, num nível menos econômico e mais social. Tornou-se mais aceitável a mulher fazer certas coisas. E foi uma mudança muito rápida. Usar calças foi um exemplo. Depois trabalhar fora e depois trabalhar fora sendo casada. Tudo isso avançou muito rápido. Trabalhar fora casada e com filhos pequenos. Todas essas coisas se tornaram socialmente aceitáveis rapidamente. Então o poder das mulheres aumentava enquanto, simultaneamente, o poder dos homens era desestabilizado em seus papéis.

Luis Fernando Silva Pinto — Então, se o dinheiro é um grande equalizador, nós ainda não somos iguais.
Hanna Rosin — Não é dinheiro, mas identidade. Isso funciona de duas formas. A primeira é através do dinheiro. Num nível íntimo, quem é o principal provedor? Isso mudou muito nos EUA. E, em termos de identidade, não tem nada a ver com dinheiro, mas com o que significa ser homem, se ele tem de ser o provedor, se é preciso haver algum tipo de hierarquia, se o homem deve ser protetor. E se ele cuida das crianças? São questões muito... E quando uma mulher ganha poder? Isso viola nossa noção do que a mulher deve ser? Essas questões são muito mais complexas do que as financeiras.

Luis Fernando Silva Pinto — Acho que as mulheres não foram respeitadas durante muito tempo. Elas não tinham, só para citar os clássicos, o direito ao voto, não tinham uma voz proporcional à sua população. Isso ficou no passado?
Hanna Rosin —
É interessante a forma como você usa a palavra “respeito”. Eu diria poder ou poder público, porque acho que muita gente dirá que as pessoas respeitavam as mulheres, respeitavam seus papéis na sociedade, mas elas não tinham poder, não se expressavam publicamente.

Luis Fernando Silva Pinto — Mesmo se elas fossem mais capazes ou trabalhassem mais, tem razão, não tinham. Isso é falta de respeito, em termos sociais.
Hanna Rosin — É muitas coisas: falta de respeito, de poder, de justiça. E muitas dessas coisas ainda acontecem. Existem muitas expectativas sociais em relação ao papel da mulher e à sua facilidade de cruzar esse limite. Acho que isso ainda acontece.

Luis Fernando Silva Pinto — Eu devo ficar feliz com o fim dos homens, enquanto homem?
Hanna Rosin — O título é bem desagradável, então acho que não deve ficar feliz comigo por ter dado esse título ao livro, mas acho que há uma forma negativa e outra positiva de lidar com isso. No momento, nos EUA, a repercussão negativa é bem violenta. Hoje, sem dúvida, ninguém está feliz. No mundo virtual, estão surgindo uma violência e um ódio tremendos, além de desilusão. Pode-se argumentar que a eleição de Trump foi alimentada pelo fim dos homens de muitas formas: a desilusão e a raiva dos homens brancos com as mudanças de papéis na sociedade, com a imigração, com a sua eliminação genética. Eles têm a sensação de estarem sendo eliminados, de estarem sendo apagados. Passou de uma mudança de identidade quando escrevi o livro para o medo de deixar de existir: 'Essa gente está invadindo nosso código genético, as mulheres estão invadindo'... Esse é o medo que percebemos on-line. Quem ficaria feliz com isso? Mas essa é a única interpretação? Vai acontecer assim ou deve acontecer assim? Não. Há centenas de outras formas, muitas delas positivas.

Luis Fernando Silva Pinto — Só para esclarecer, quem é 'essa gente'?
Hanna Rosin —
Quem está chateado?

Luis Fernando Silva Pinto — Não, não. Você disse que aqueles que temem...
Hanna Rosin —
Brancos da classe trabalhadora.

Luis Fernando Silva Pinto — Dizem: 'Essa gente vem roubar meu espaço'. Quem seria essa gente? Latinos, negros, mulheres?
Hanna Rosin —
Qualquer pessoa que não seja branca, muitas vezes mulheres. Acho que o imaginário popular de quem vai tomar meu lugar é qualquer um que não seja eu mesmo. Ou seja, qualquer um que seja diferente de mim. Às vezes são as mulheres. As mulheres são muito temidas. Vemos isso na política americana. Uma mulher com poder se tornou muito ameaçadora. É muito ameaçador e não deve ser festejado em muitos lugares dos EUA. Qualquer mulher com poder. E homens que não são brancos.

Luis Fernando Silva Pinto — Hillary Clinton seria um exemplo claro disso?
Hanna Rosin —
O exemplo definitivo disso. Não existe exemplo melhor de pessoa que provoca todo tipo de medo de uma mulher poderosa.

Luis Fernando Silva Pinto — Trata-se de um telhado, de vidro, de aço, do que queria. E é uma espécie de contradição em termos. A sociedade põe essas mulheres lá e depois nega. Não é uma espécie de paradoxo?
Hanna Rosin — O fato de a sociedade colocar as mulheres nesses cargos? Não, acho que é a sociedade descobrindo coisas, o quanto tolera mulheres poderosas, o quanto tolera uma violação de certos estereótipos, normas e expectativas. As pessoas têm uma reação visceral. Acham que uma mulher com tanto poder...

Luis Fernando Silva Pinto — Vai fazer o quê?
Hanna Rosin — Há algo antinatural nisso. Acho que as pessoas ainda pensam assim.

Luis Fernando Silva Pinto — Golda Meir era poderosa. Indira Gandhi, Margaret Thatcher.
Hanna Rosin — Às vezes funciona. Às vezes as mulheres escorregam para outros arquétipos, como: 'O país precisa de uma mãe para cuidar dele'. Algumas metáforas funcionam. 'Precisamos de uma figura materna que cuide de nós.' Ou alguém que é parte de uma família importante. Nem todos provam esse medo, mas certas pessoas, sim.

Luis Fernando Silva Pinto — Perguntei se eu deveria ficar feliz com o fim dos homens enquanto homem. Você deveria estar feliz com o fim dos homens como mulher?
Hanna Rosin — Acho que todos deveriam ficar felizes. Nada de bom surgiu de papéis de gênero rígidos. Em nenhum período histórico, a pressão para que os homens se comportassem de certa maneira e as mulheres se comportassem de certa maneira foi positiva. Para mim, um mundo no qual as pessoas sintam menos pressão para se encaixar em certas formas de comportamento é melhor. Isso porque sou americana. Nós acreditamos em ser um pouco mais leves. Mas se você é o tipo de homem que, pelo motivo que for, é mais maternal e quer ficar em casa com os filhos, não seria melhor não precisar pagar um preço altíssimo por ser esse tipo de pessoa? Ou, se você for Nancy Pelosi, Sheryl Sandberg ou Hillary Clinton, podemos tirar isso do caminho e vê-las apenas como políticas? Se você é o tipo de mulher que tem atração pelo poder e que não se sente constrangida e que não quer falar de certa forma, claro. Sim, quanto mais canais de expressão natural, melhor. Então eu acho positivo. Além disso, francamente, como vimos com Trump, não estou defendendo isso, não estou sendo feminista e dizendo que deve ser assim. Existem livros assim; o meu não é um deles. Só estou dizendo que é assim. É uma obra antropológica. É perfeitamente óbvio, e desde que escrevi o livro só ficou mais óbvio, como mostrou o exemplo de Trump. É apenas um fato. E como lidar com esse período? Com um ódio violento on-line? É o que está acontecendo. É o fim da era industrial. Alguém tem de descobrir uma opção melhor. E alguns países conseguiram. Alguém precisa reconhecer e oferecer às pessoas algo além de mentiras. 'As pessoas de cor estão tomando seu emprego.' Isso não é verdade. Alguém precisava abrir nossos olhos para esse fato.

Revista Consultor Jurídico, 19 de fevereiro de 2019, 10h04

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