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Homenagem a Waldir Troncoso Peres, o príncipe dos advogados

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Na serenidade da noite de um domingo de outono, há exatos dez anos, faleceu Waldir Troncoso Peres, o maior tribuno da advocacia criminal que o Brasil conheceu. Mesmo decorrida uma década, tenho certeza que a lembrança de seu talento fenomenal permanece impregnada na alma de todos aqueles que tiveram o privilégio de vê-lo atuar profissionalmente.

O “Espanhol”, como era carinhosamente tratado pelos amigos, estreou no Tribunal do Júri com apenas vinte e um anos de idade, em Casa Branca, interior de São Paulo, quando ainda cursava o terceiro ano na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde se formou em 1946.

No decorrer da carreira estima-se tenha defendido mais de mil acusados perante o tribunal popular, a maior parte gente pobre que recorria à Procuradoria de Assistência Judiciária (PAJ), na qual trabalhou entre 1969 e 1986 como Procurador do Estado.

Homem de uma agilidade mental e de uma perspicácia extraordinárias, sabia traduzir em palavras e frases certeiras aquilo que poucos advogados conseguem sequer projetar com nitidez em seus próprios pensamentos.

Os julgamentos dos quais participava atraiam estudantes, colegas e até mesmo cidadãos comuns, sem qualquer vínculo com o processo ou com o universo do direito, que compareciam aos salões do Tribunal do Júri apenas para apreciar, com indisfarçável encantamento, a arte do velho mestre.

Suas argumentações eram repletas de lições de psicologia, filosofia, literatura e até mesmo de poesias. Mas o que de fato conhecia profundamente e explorava como ninguém, era a alma humana. Era elegante com os adversários e generoso com os colegas menos experientes, sempre tratando todos com simpatia e humildade. Sem dúvida alguma, inspirou muitas carreiras, inclusive a minha.

Atuou até 2004, quando, por ironia do destino, um acidente vascular cerebral lhe cerceou a fala. É realmente uma pena os jovens criminalistas de hoje não terem a oportunidade de conhece-lo e reverencia-lo. Para estes fica, dentre tantas outras pérolas que deixou, a declaração de amor à profissão que prestou em 1989, ao receber da Ordem dos Advogados do Brasil o Prêmio da Espada e da Balança:

“Pedi aos meus filhos, como última vontade, que quando eu morrer me enterrem de beca. Porque se a vida for contingente e eu amanhã tiver apenas que me mineralizar, pelo menos estarei envolto no suor da minha beca, com a qual honradamente ganhei a vida. Mas se o transcendental existe e do outro lado alguma coisa me espera, ainda assim eu quero ser enterrado de beca, porque ela, que me ensinou a abrir a porta da cadeia, haverá de me ensinar a abrir as portas do céu.”

 foi presidente da Associação dos Advogados de São Paulo (Aasp)

Revista Consultor Jurídico, 2 de abril de 2019, 19h49

Comentários de leitores

2 comentários

Advogado Valdir Troncoso Peres

José Fernando Azevedo Minhoto (Juiz Estadual de 1ª. Instância)

Então estudante de Direito nos anos 1980, nunca me esqueço do júri daquele cantor, Lindomar Castilho, realizado no magnifico plenário do Palácio da Justiça, cujo defensor foi o inesquecível Dr. Valdir Troncoso Peres.
Para assistir parte da sessão ao vivo foi preciso pegar longa fila.
Tinha que ir embora e já na faculdade, no intervalo das aulas um professor de processo penal ligou o rádio do seu carro(e compartilhou com alguns alunos) para ouvir a fala do Dr. Valdir.
Fiquei especialmente impressionado quando eu o escutei dizer: "não vim aqui pedir a absolvição do Lindomar, não, ele é confesso, vim pedir uma pena justa a um homem sofrido com ele".
Achei o máximo! Que autoconfiança!
Que pena que não podemos mais ouvir aquela oratória magistral.

Excelente texto.

Rodrigo Zampoli Pereira (Advogado Autônomo - Civil)

A primeira vez que escutei falar no nome do Dr. Waldir Troncoso Peres, foi na cidade de Água Boa - MT, através de um vendedor de livros jurídicos da cidade de Leme - SP. Ele era um entusiasta da pessoa do Dr. Waldir Troncoso Peres. Foi uma prosa inesquecível, isto a mais de 12 anos atrás.
Recomendo também o artigo do Dr. Roberto Delmanto no www.delmanto.com (artigos/ano 2002/ “Mestre Pascoal, reserva moral da classe”), onde o Dr. Raimundo Pascoal dizia sobre o Dr. Waldir Troncoso Peres: "De Waldir Troncoso Peres, costumava dizer, com justiça: “O ‘Espanhol’ é o mais brilhante da minha geração” .

Finaliza o texto do Dr. Roberto Delmanto dizendo: " Com o seu desaparecimento, perdeu a advocacia criminal uma de suas reservas morais.

Mas seu notável exemplo haverá de permanecer incólume para as futuras gerações, pois, como escreveu Guimarães Rosa, “há homens que não morrem, ficam encantados”...

Ouso a acrescentar a homenagem justa do Dr. Roberto Delmanto ao Dr. Raimundo Pascoal, a extensão para o Dr.
Waldir Troncoso Peres, tendo em vista o entusiasmo do vendedor de livros de Leme - SP, onde foi um defensor incansável da pessoa do Dr. Waldir Troncoso Peres.

Atenciosamente,

>Rodrigo Zampoli Pereira
OAB-MT 7198
OAB-SP 302569

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