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Senso Incomum

A prova de que em Direito se prova qualquer coisa!

Por 

Caricatura Lenio Luiz Streck (nova) [Spacca]Em homenagem à Santa Páscoa, publico esta coluna mostrando como há coelhos espalhados por todo o Brasil.

Cena 1. O doutorando coelho saiu de sua toca com o seu lepitopi e pôs-se a trabalhar. Passou por ali a mestranda raposa — que fazia dissertação sobre o tema Interpretação Conforme a Alimentação das Raposas: as obviedades do óbvio na cadeia alimentar — e viu aquele suculento coelhinho “a disposição”. E salivou, curiosa, perguntando:

"— Coelhinho, o que você está fazendo aí tão concentrado?" Estou redigindo a minha tese de doutorado, respondeu o coelho. "Chama-se De como os coelhos são os predadores naturais das raposas. Já tem até banca formada: um jornalista, um juiz e um ministro".

E a raposa: “Ora, isso é ridículo! Nós, raposas, é que somos os predadores dos coelhos! Somos os juízes naturais dos cunniculs. Todos sabem disso”.

E redarguiu o coelho: "— Posso demonstrar o que estou dizendo. Acompanhe-me à minha toca-biblioteca".

O coelho e a raposa entram na toca. Instantes depois, ouvem-se alguns ruídos indecifráveis. Em seguida o coelho volta, sozinho, e retoma os trabalhos da sua tese.

Cena 2. O coelho continua trabalhando. Passa o bacharel lobo, que fazia mestrado sobre Como Aprender a preparar coelhos suculentos – o universo da Globo News em fogo brando. Ao ver o apetitoso coelhinho, salivou e perguntou sobre a tese.

E o coelho respondeu: “Minha tese de doutorado, caro lobo, é demonstrar que nós somos os grandes predadores dos lobos”. "E posso demonstrar. Acompanhe-me". E ambos desaparecem biblioteca a dentro. Ao depois, ouvem-se ruídos. E o coelho retorna sozinho, com seu lepitopi. Agora acende um Partagás. E faz olhar blasé.

Cena 3. Passa o doutorando coiote. Debaixo do braço trazia o livro Resumos simplificados sobre como devorar coelhos, raposas e quejandos. Ao ver o coelho, agradeceu aos céus pelo maná. Mas, antes de trinchar o coelho, indagou-lhe acerca do que fazia.

E o cunniculum respondeu: “estou concluindo minha tese que tem o título Reviravolta culinário-pragmática no ecossistema: a vez dos coelhos devorarem coiotes - análise epistemológica a partir de um predatorium turn provocado pela vontade de poder”.

O coiote rolava de rir. E o coelho, como das vezes anteriores, disse que poderia facilmente provar a sua tese. E lá se foram, coelho e coiote, para a biblioteca. De novo, ruídos e sons estranhos. E o coelho retorna ao trabalho no seu lepitopi.

Cena 4. Em cena fechada — que somente nós podemos ver — dentro da toca-biblioteca vê-se uma enorme pilha de ossos e pelancas de diversas ex-raposas, ex-lobos e ex-coiotes. Ao centro das três pilhas de ossos, charutos e vinho, um enorme Leão, bem alimentado, a palitar os dentes. No seu peito estava pendurado um crachá, com a inscrição (o leitor pode preencher à vontade: Orientador, Relator do processo, Ministro, Juiz, etc.).

Moral da história: — Não importa quão absurda é a tese (ou causa) que você pretende sustentar (na academia ou nos tribunais). Basta ter poder. Ou estar ao lado do poder. E imitar Humpty Dumpty, dando às palavras o sentido que quiser. E, é claro, ter a mídia (especialmente a Globo News) do seu lado. Claro: não devia ser desse modo. Mas, infelizmente, tem sido.

Por isso temos de controlar o poder. Ou seremos devorados. Na toca-biblioteca.

OBS. Como consta nas tarjas dos filmes, sinto-me na obrigação de referir que esta singela coluna foi produzida em ambiente controlado, por profissional habilitado e nenhum coelho, raposa, lobo ou coiote foi maltratado durante a sua realização!

Uma Feliz Páscoa para todos! Inclusive para os haters e os néscios. O ninho deles está guardado para uma outra coluna.

 é jurista, professor de Direito Constitucional e pós-doutor em Direito. Sócio do escritório Streck e Trindade Advogados Associados: www.streckadvogados.com.br.

Revista Consultor Jurídico, 29 de março de 2018, 8h00

Comentários de leitores

17 comentários

Excelente texto

Lino Cunha (Estudante de Direito)

Muitos bons colunistas, mas essa, sem dúvidas, é a melhor coluna desse site. Simplesmente: genial!

Kai Ambos

Ateniense Negro (Outros)

"Wer blind wählet, dem schlägt Opferdampfl in die Augen"

Claro que era mentira, Sr. Observador

SMJ (Procurador Federal)

Com a devida vênia, é muito básico saber que o fascismo tinha como arquiinimigo o movimento socialista. Na variante alemã, o fascismo tinha mais um arquiinimigo, o bode expiatório judeu (tal como os servidores públicos no Brasil nas últimas décadas). O problema é que os fascistas de hoje não querem vestir a carapuça fascista (devido à derrota retumbante na 2a Guerra Mundial) e procuram deturpar a História a ponto de atribuir ao Nazismo a qualidade de socialista, que o Partido Nazista tinha no nome apenas por demagogia significando que não era a favor dos patrões ou empregados e que não havia classes sociais sobre o nazismo e que todos seriam iguais membros da superior pura raça ariana alemã. Esse o sentido de "socialismo" do nazismo: uma mera ideia demagógica para deturpar a realidade, vez que as classes sociais não se acabam por decreto ou por ideias, e sim por sua supressão na esfera das relações econômico-sociais. Aliás, assistamos a O Grande Ditador e vejamos a resposta de Hynkel a Garbisch sobre o problema da inquietação operária: "Mate todos, pois não queremos os operários insatisfeitos". Era bem essa a verdadeira proposta "trabalhista-socialista" dos nazistas, que Chaplin descreveu com sua maestria de sempre. P.S.: quem não quer ser chamado de fascista hoje, não precisa deturpar a História... basta não se comportar como os fascistas de ontem (por exemplo, abstendo-se de impedir pessoas de se manifestarem politicamente, como se fez violentamente na última semana aqui no Sul).

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