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Senso Incomum

Manual do comentarista de site, internet e quejandos

Por 

A coluna de hoje é um pouco diferente das anteriores. Em tempos de direito de exceção, resolvi aproveitar para oferecer um guia “simplificado-passo-a-passo” para alguns objetivos. Ei-lo:

A. Como ser um comentarista
1) Abra uma coluna na ConJur, dessas que são críticas, como "Senso Incomum".

2) Não leia a coluna até o final — afinal, se você é contra “por princípio”, por que ler até o final?

3) Epinafre o articulista (aqui é livre: pode xingar de comunista, kelseniano (sic), defensor de bandido, como queira; o importante é xingar). E, se ler, seja contra, sempre. De preferência, use pseudônimo. Invente algo engraçado, mas épico ou exótico (ou algo como transporte paralelo dos lacetes). Há vários na ConJur. Diga algo como “Kant se equivocou, Heidegger seguiu o caminho torto de Kant, e Gadamer apontou para a solução do problema — a necessidade de uma hermenêutica teológica, que condiciona a jurídica —, mas não soube como fazê-lo, porque não entendeu Hegel, o filósofo que mais chegou perto da Verdade” — e... Pronto: corra para o abraço. Mas permaneça no anonimato. E já aproveite e critique esta coluna de hoje, de forma raivosa. Será uma metacrítica (já aproveite e critique o uso dessa palavra, para não perder a viagem).

4) Você já deve ficar esperando a próxima coluna. Deixe o comentário engatilhado. Para ser um dos primeiros. Não esqueça que, como você não lê a coluna, você pode xingar qualquer coisa. Não fará diferença para o seu onanismo epistêmico. Mas, se ler, aproveite o comentário já feito. Por que desperdiçá-lo?

5) Vaie até minuto de silêncio. É uma metáfora, porque vi gente vaiando até medalha ganha pelo comentarista! Poxa, nem na felicidade...!

6) Fundamentalmente, faça discursos raivosos. Odeie. Sempre deixe explicito ou implícito que você é o “cara”.

B. Como ser um “jurista moderno”
1) Diga que coisas como “lei”, “Constituição” e “verdade” para nada servem e que sequer existem; proclame-se um “cara prático”; diga que é pragmático, é mais chique; diga que o que vale mesmo é “saber” como os juízes decidem (pior é que você pode não ser juiz e então estar ferrado!); guarde uma frase de Nietzsche no bolso e meta Hegel (veja que já teve promotor colocando Hegel no lugar de Engels) em qualquer buraco de fala, até mesmo na discussão sobre o livre convencimento ou do artigo 489 (confunda seus leitores: use motivação em vez de fundamentação, dizendo que isso é a mesma coisa); também quando discutir processo civil, atravesse um “hegelianamente falando...”. Uma pitada de luta de classes vai bem também. E, claro, poste no Facebook. Isso é indispensável. Ah: ironize o colunista, para mostrar como você é o cara que deveria estar no lugar dele.

2) Dedique-se a defender coisas da moda: pode até mesmo citar aquela professora americana que diz que Direito é como baseball — fica muito chique; cool!

3) Para fechar, repita as máximas realistas do século XX com ares de novidade. E não esqueça de dizer que isso já estava claro nas obras de (cite umas cinco tiradas da internet); mas não esqueça de dizer que o que vale é “a prática”. Sempre desdenhe da teoria. E diga que o colunista só critica e não apresenta soluções. Essa frase é xeque-mate! E, de preferência, poste no Face sua façanha.

4) Uma coisa que pode dar certo e ficar cool é dizer coisas como “a sociedade mudou, e que as garantias processuais e trabalhistas são coisas que atravancam o desenvolvimento do país”, e que você faz isso “porque quer emprego para todos”. Você passará por magnânimo. E aproveite para dizer coisas como “quem for contra a reforma trabalhista não quer o progresso”.

5) Não esqueça de dizer, também, que foi a Constituição de 1988 que incentivou a impunidade. Isso pega sempre muito bem na comunidade nescial. E poste no Facebook dizendo que você venceu a discussão. Ah: imite alguém importante e feche o artigo com uma frase ou uma palavra de seu “adversário” (que nem lhe dá bola, mas o gozo é seu, não é?). Feche com “bingo”!

6) Qualquer problema ou dúvidas quanto a sua capacidade de se tornar vitorioso, assuma o Pigeon Factor (Fator Pombo — vai ter que ler a nota de rodapé! Ah, vai!): suje o tabuleiro, espalhe as peças, bique os dedos do adversário e saia com o peito inflado[1].

7) Poste no Facebook que você venceu a discussão. Diga que você derrotou fragorosamente seu adversário.

C. Como aplicar o CPC/2015
1) Faça um ar blasé, um pouco de suspense e anuncie que o “juiz boca da lei” morreu. Isso nunca falha. Isso é indispensável em qualquer discussão. E acrescente: agora é a vez do juiz dos valores; diga isso com ar superior e dramático, esperando que a plateia venha abaixo. E não esqueça de avisar que “qualquer um sabe que interpretação é um ato de vontade”. E não esqueça do postar no Facebook que você venceu a discussão.

2) Incentive o novo: desdenhe as teorias da decisão, dizendo: “Qualquer um sabe que o juiz primeiro decide para só depois fundamentar”. Você deve dizer, também, que “tirar o livre convencimento do novo CPC foi uma bobagem” (e se estiver escrevendo isso no Facebook, a ágora dos néscios, ponha algum potássio nisso, isto é, lasque uma série de kkkkks), concluindo com chave de ouro: “Qualquer um sabe que o juiz tem e sempre terá livre convencimento”. E gize: “E é por isso que, estando o juiz convencido, ele não precisa ouvir o que as partes têm a dizer”. E cite um enunciado do último workshop. Diga: e eu estive lá e ajudei a elaborar! Supimpa. Pronto: você é candidato a ser o jurista do ano.

D. Como se tornar um expert sobre a presunção da inocência
1) Já de cara, entre de sola e diga: presunção da inocência é para proteger bandidos. Isso nunca falha. Diga que, finalmente, os maus estão perdendo. Mesmo sendo da área do Direito, esculhambe com a Constituição.

2) Ou diga que quem defende a presunção da inocência quer proteger corruptos. E corra para o abraço. E poste no Face que você arrasou.

3) Diga que a literalidade da CF resulta em impunidade; mas também pode dizer o contrário. Afinal, você segue a doutrina do humptidumptismo. E, é claro, não esqueça de colocar no Face dizendo que você arrasou.

POST SCRIPTUM: um lamento!

É impressionante o que construímos neste país. Uma geração de pessoas (de)formadas em Direito. Racionalidade zero. Estado de insolvência epistêmica. Tudo virou narrativa. Nada lhes foi ensinado sobre decidir por princípio (com responsabilidade política). Não lhes foi ensinado “o que isto — o direito”. E, engraçado: fizeram o curso de... Direito. Ensina-se uma péssima teoria política do poder. Impressiona o nível de baixa constitucionalidade dos cursos jurídicos e o baixo aprendizado.

Estamos diante de uma tempestade perfeita para qualquer regime autoritário. É o Direito se autodevorando. É o fator acídia (aqui). Vibra-se quando o juiz diz que estamos em tempos de jurisprudência de exceção. Sim, isso mesmo! Diz-se que garantias incentivam a impunidade. E coisas desse baixo quilate.

Claro: quando se sabe pouco de Direito, melhor é transformar tudo em política, moral ou economia. Afinal, são esses os predadores naturais do Direito.

O neojurista que estudou por aí agora pede passagem. Rumo ao abismo. E, pior: o abismo fica no final de uma descida.


[1] Vejam esta pesquisa: 100 estudantes de Direito, professores e profissionais lato sensu da área jurídica foram submetidos a uma pesquisa pelo pool de universidades: Shimer University II , Scheizwald II e Matocagao III. Todos jogaram xadrez durante um dia inteiro com pombos e aprendizes de pombos. Resultado:
– 12% dos pombos e aprendizes de pombos fizeram caca no tabuleiro;
– 17% esculhambaram as peças, espalhando-as com o bico e os pés;
– 36% fizeram caca no tabuleiro, esculhambaram as pedras e bicaram os dedos do adversário;
– 35% fizeram tudo o que os demais fizeram e foram xingar o adversário no Facebook;
Ponto em comum: 100% dos pombos saíram com o peito estufado dizendo que venceram o jogo; e 100% dos aprendizes de pombos saíram de peito estufado, gritando e postando no Facebook o sucesso de suas jogadas, com frases tipo "estrondosa vitória dos pombos e dos aprendizes de pombos no jogo de xadrez do século".
Portanto, como jogar xadrez com pombos e aprendizes de pombos? Impossível. A derrota é certa.

 é jurista, professor de Direito Constitucional e pós-doutor em Direito. Sócio do escritório Streck e Trindade Advogados Associados: www.streckadvogados.com.br.

Revista Consultor Jurídico, 26 de abril de 2018, 8h00

Comentários de leitores

63 comentários

Show!!!

Gilberto Vasco (Advogado Assalariado - Civil)

Parabéns Professor. Magnifica aula de como ser Cool em tempos de exceção. Show!!!

Não há divergência?

Alexandre S. R. Cunha (Economista)

Ornitólogo (Administrador), sua justificativa para aquele comentário autoritário foi arrogante, escapista e "de baixa qualidade".

Aceitemos

O IDEÓLOGO (Outros)

Aceitemos as críticas que veem para aperfeiçoar o pensamento.

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