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Esqueça as legal techs, revolução está dentro dos departamentos jurídicos

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Os escritórios de advocacia que tentam traçar uma estratégia para o futuro se deparam com objetos brilhantes e reluzentes que podem causar distração. Inteligência artificial, robôs advogados e todo tipo de startups de tecnologia de serviços jurídicos são normalmente consideradas a novidade mais recente que coloca os serviços jurídicos em um estado de revolução.

Na verdade, os maiores revolucionários de todos os tempos podem estar bem na sua frente: seus clientes, principalmente as equipes de profissionais dos departamentos jurídicos, cada vez mais influentes e eficazes, que trabalham internamente para as empresas e seus Conselhos Diretivos. Tal revolução ainda é discreta, gradual, não atraindo tantas manchetes. Mas tal tendência ficou bem aparente na última reunião do CLOC Institute (Corporate Legal Operations Consortium).

O CLOC é um consórcio que começou como um grupo de interesse regional em 2009, com apenas 30 membros, no início de 2015, mas conseguiu atrair cerca de mil participantes em um importante e interessante evento este ano, em Las Vegas (EUA). O grupo planeja atrair 2,5 mil participantes no ano que vem. E qual é o segredo? Grande parte está relacionada à mudança de poder na indústria a favor de quem compra, através do uso das ferramentas certas — dados, tecnologia, gestão da cadeia de suprimentos, fluxo de trabalho e gestão do conhecimento — nas mãos das pessoas que realmente sabem usá-las. E a maioria dessas pessoas não são advogados.

As 76 sessões da conferência mencionaram um tipo de lista com estratégias para que as empresas passem a dar menos importância ao conselho externo no qual os departamentos internos devem se reportar diariamente. Não estamos falando de algo hostil ou repentino, mas cada uma das sessões, durante dois dias e meio deixou uma mensagem nas entrelinhas: realizar um trabalho jurídico de forma mais barata, eficiente e rápida — com ou sem a ajuda de escritórios externos.

O gráfico abaixo classifica as várias sessões da conferência em categorias de alto nível. Isso nos dá uma ideia do foco dos membros do CLOC: preços, métricas e análises, tecnologia e gestão do fluxo de trabalho. Nas sessões, os membros compartilharam experiências e, na maioria das vezes, descreveram como eles estão se associando aos escritórios de advocacia para trabalhar todas essas questões. Assim, os escritórios de advocacia não devem se surpreender caso vejam a necessidade de seus próprios colaboradores trabalharem internamente nas empresas que já são suas clientes. Mas, na maior parte dos casos, os membros do CLOC deixam claro que eles estão buscando desenvolver outros recursos que não estão relacionados com os escritórios de advocacia — seus próprios profissionais, profissionais mais baratos e Prestadores Alternativos de Serviços Jurídicos (ALSPs).

Os membros do CLOC e os seus equivalentes dos departamentos jurídicos corporativos têm realmente condições de atuar neste mar de iniciativas? Eles estão em condições de ser a força revolucionária da indústria? Talvez, mas eles estão empoderados.

Uma sessão chave de "Grandes Pensadores" reuniu líderes de todas as partes do sistema jurídico onde começaram a dar forma a "Carta Magna" de princípios fundamentais de acordo com as estratégicas que o CLOC deseja lançar, proporcionando mudanças que visem atender às necessidades e reclamações na indústria jurídica. O painel incluiu:

— Ralph Baxter, Ex-Presidente da Orrick e Presidente do Conselho Diretivo da Thomson Reuters Legal Executive Institute;
— Scott Westfahl, Professor de Direito e Diretor do Corpo Docente da Harvard Law School Executive Education;
— Mark Ross, Head Global de Terceirização de Processos Jurídicos da Integreon;
— Andrew Perlman, Reitor da Suffolk University Law School, e Presidente do Conselho Administrativo da ABA Center for Innovation;
— Lucy Endel Bassli, Assistente de Assuntos Corporativos e Jurídicos do Conselho Diretivo da Microsoft Corp.
— Lisa Damon, Sócia da Seyfarth Shaw.

Este painel cobriu diversos assuntos e apresentou uma visão equilibrada de todo o ecossistema jurídico, visto que havia representantes de todas as partes: corporações, escritórios de advocacia, faculdades de Direito, reguladores, ALSPs e provedores de tecnologia. O que diferenciou tal painel de qualquer outra discussão sobre o estado da indústria foi a ênfase na ação e na convergência em torno dos princípios. Percebemos, acima de tudo, três valores fortes, representados tanto neste painel quanto por todo o Instituto:

Inclusão — Bassli, principalmente, estava muito entusiasmada, abraçando a ideia de que a aliança dos profissionais — analistas, gerentes de processo, designers — e várias outras profissões que não são preenchidas por advogados, mas que são fundamentais para o futuro da indústria, trazem muito valor ao sistema jurídico como um todo.

Ambição — O painel também enfatizou que a missão do CLOC não era apenas melhorar as operações jurídicas internas, mas estender as reformas para todas as partes da indústria, incluindo escritórios de advocacia, educação jurídica e regulamentação da indústria. Bassli mencionou que a maioria dos advogados que trabalham em departamentos jurídicos de empresas vêm de escritórios de advocacia e "nós apenas transferimos nossa conduta de escritório de advocacia para o departamento de uma empresa". Essa visão de mundo centrada nos escritórios de advocacia está claramente ameaçada por uma sociedade engajada de membros do CLOC.

Influência — O painel reconheceu que todas as partes da indústria são necessárias, porém, são os departamentos jurídicos internos que parecem possuir as melhores cartas agora. É um caso simples de "siga o dinheiro". A maior parte do dinheiro na indústria jurídica — o dinheiro que flui para os escritórios de advocacia, faculdades de Direito, provedores de tecnologia e ALSPs — vem dos orçamentos jurídicos corporativos. O CLOC parece estar pronto para começar a exercer esse poder de forma mais assertiva.

David Curle é diretor global de Market Intelligence para a unidade de negócios de Legal da Thomson Reuters.

Revista Consultor Jurídico, 7 de dezembro de 2017, 11h38

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