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Opinião

Síndrome de Jekyll e Hyde: por uma utilização ética das mídias sociais

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Venho acompanhando com imensa preocupação o clima de beligerância e hostilidade que tomou conta das redes sociais. Declarações sarcásticas, jocosas e pretensamente inteligentes rapidamente desenvolvem-se para comentários ofensivos, degradantes e ultrajantes. Recentemente, li um post, desses bem incendiários e invasivos, postado por um amigo e colega de profissão. Fiquei boquiaberta. No trato pessoal, é uma das pessoas mais gentis e educadas que conheço. Como se os teclados tivessem o condão de transformar gentis Dr. Jekyll em monstruosos Mr. Hyde, do romance de Robert Stevenson. Outro amigo postou inocentemente uma viagem paradisíaca com a família. Seguiram-se comentários e posts estarrecedores e agressivos.             

A internet (que somos todos nós) já arruinou vidas e carreiras, levou a condenações judiciais, estragou amizades e relações, para não falar dos casos graves de cyberbullying, que podem levar seus objetos (porque perdem a condição de seres humanos) à depressão e até ao suicídio. Essa atuação aparentemente inocente de postar, curtir e lançar comentários parece ser feita alheia a uma circunstância crucial: os comentários são direcionados a uma pessoa real, e as consequências são também muito reais e ampliadas pelo volume de pessoas que tomam conhecimento da questão, sem falar na perenidade do fato, que se eterniza no tempo.

O agir do outro lado de um teclado parece retirar ou, pelo menos, diminuir sensivelmente a nossa capacidade de alteridade. De reconhecer o outro como um ser assemelhado a nós mesmos: com qualidades e defeitos. E, sobretudo, com capacidade de sentir cada palavra e farpa postada. Dentro de um contexto rápido e um exame superficial, as pessoas parecem ganhar uma feição bidimensional. São anjos ou demônios, julgados por aquele fato específico, por dezenas, centenas ou até milhares de pessoas, em sentenças de não mais que 140 caracteres.

Esse contexto nos chama a um agir ético no uso da internet: de maneira civilizatória, e não predatória. Atenção e cuidado com o que se curte e posta. Se os riscos já são grandes para qualquer cidadão, imagine para nós, magistrados, pessoas públicas, julgados muito mais duramente pela sociedade, em face da profissão que exercemos.

Algumas reflexões antes de postar são válidas e sempre atuais. Acredite. Elas vão livrar você de muita dor de cabeça. Antes de postar, pense se você quer ser lembrado eternamente por essa declaração. Se ela é engrandecedora ou, ao menos, não lhe trará problemas futuros se for usada de forma descontextualizada. Porque, se postou, não tem jeito. É pra sempre. Muito cuidado também com a segurança. Fico impressionada como muitos postam livremente detalhes sobre suas vidas e de seus familiares: onde estão, o que fazem, onde os filhos estudam. Lembrem-se de que essas informações podem favorecer ações criminosas.

Por fim, a regra de ouro. Você faria o comentário olho no olho da pessoa a quem ele se dirige? Ou o faria em um auditório com 150 pessoas? Se a resposta for sim, vá em frente. Se for não, não poste: o comentário ou não é adequado ou não é educado, e certamente é indigno de ser compartilhado.

Hadja Rayanne de Alencar é vice-presidente de Prerrogativas da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) e vice-presidente institucional da Amarn (Rio Grande do Norte).

Revista Consultor Jurídico, 31 de julho de 2016, 7h15

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