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Embargos Culturais

O gaúcho Erico Veríssimo foi um verdadeiro americanista brasileiro

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O escritor gaúcho Erico Verissimo (1905-1975) viveu nos Estados Unidos da América em duas ocasiões: uma estada curta (por dois meses, em 1941) e uma estada mais alongada (por dois anos, de 1943 a 1945). Nesta segunda oportunidade, ao lado de esposa e filhos, Verissimo viveu na Califórnia (primeiramente na Universidade de Berkeley, em Oakland) e depois em Los Angeles. Suas impressões de viagem, e da vida norte-americana, na etapa final da segunda guerra mundial, estão gravadas em delicioso livro, A volta do gato preto[1].

Esse livro tem páginas memoráveis, relativas à vida norte-americana, na impressão de um brasileiro culto. Nesse sentido, o deslumbramento de Verissimo com aspectos centrais da vida norte-americana qualificam-no, de algum modo, como um Alexis de Tocqueville brasileiro[2]. Exemplifico com corajosa passagem sobre a vida religiosa do norte-americano. Para Verissimo, o tema religioso nos Estados Unidos (na época em que lá esteve, bem entendido) não era assunto substancialmente metafísico; o norte-americano, segundo Veríssimo, não se interessava pela questão da alma e pelas qualidades intrínsecas da fé e da devoção, enquanto problemas centrais na existência. Para Verissimo, em audaciosa passagem, a religião era para o norte-americano da época “(...) um tipo de gadget, de engenhoca (...) uma espécie de máquina de ir para o céu”[3].

Ainda que Veríssimo admitisse que fixava uma caricatura, o que não excluía a “parecença”, em suas próprias palavras, porquanto caricaturas e parecenças “têm sempre sua dose de verdade”[4]. Reconhecendo que não era sociólogo ou ensaísta ou mesmo homem de ciência[5], Verissimo experimentava instrumentos de ficção para examinar problemas da realidade[6]; algumas passagens do livro são entabuladas em forma de diálogos epistolares.

Veríssimo entendia que os norte-americanos eram “extrovertidos, objetivos, arejados e práticos, de sorte que querem [queriam] ver o problema da outra vida posto sobre bases deste mundo”[7]. Indagando se havia algum santo norte-americano, o que relatava desconhecer[8], Verissimo impressionava-se com uma cultura não inclinada ao êxtase religioso[9]. O escritor gaúcho nos dava conta do pragmatismo e do realismo, enquanto filosofias nacionais dos Estados Unidos.

O modo como os norte-americanos se relacionavam com o tempo também intrigava nosso célebre escritor. Para Veríssimo “o problema do tempo é muito sério num país que descobriu tantas formas de divertimentos, tantas atividades, e que não encontra tempo suficiente para gozar desses divertimentos e exercer essas atividades”[10]. Essa curiosa questão também atormentou Max Weber, calcado no mote de Franklyn, para quem o tempo seria também expressão do dinheiro.

Assim, para Veríssimo, os norte-americanos inventavam coisas que simplificavam a vida e que espichavam o tempo[11]. Ilustrava essa premissa com a máquina de lavar roupa: “Você compra uma dessas engenhocas, pega o livro que traz as instruções para o seu manejo, coloca a roupa suja no lugar indicado, aperta o botão, tudo de acordo com as recomendações do livrete, e a máquina começa a funcionar: você pode ir tratar doutra coisa, na certeza de que no momento devido a roupa sairá lá do outro lado, alva, limpa, imaculada, numa economia de tempo, esforço e preocupação”[12].

Religião, administração do tempo, cultura cívica, cinema, literatura, gastronomia, estética, relações interpessoais, política, guerra, são vários os tópicos que ocuparam a privilegiada especulação de Erico Verissimo, em livro absolutamente atemporal, porquanto captou no efêmero, no contingente e no fato diverso transitório, o que imanente, permanente e marcante numa civilização. Essa constatação realça a importante posição de Erico Verissimo em nossa história literária.

 

[1] Verissimo, Erico, A Volta do Gato Preto, São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

[2] Esse pequeno ensaio foi inspirado após rápida conversa em Brasília com Paulo Roberto de Almeida, diplomata, um dos mais preparados intelectuais brasileiros da atualidade, que me chamou a atenção para outras expressões culturais brasileiras, que se revelariam como americanistas, a exemplo de Hipólito da Costa Pereira e Oliveira Lima. Hipólito deixou-nos “Diário da Minha Viagem para Filadélfia (1798-1799) e Oliveira Lima escreveu “Nos Estados Unidos- Impressões Políticas e Sociais”. Esse último livro conta com prefácio de Paulo Roberto de Almeida, cuja leitura é imprescindível introdução para compreensão das opiniões e idiossincrasias de Oliveira Lima, também diplomata e americanista.

[3] Verissimo, Erico, cit., p. 259.

[4] Verissimo, Erico, cit., loc. cit.

[5] Cf. Verissimo, Erico, cit., loc. cit.

[6] Cf. Verissimo, Erico, cit., loc. cit.

[7] Verissimo, Erico, cit., loc. cit.

[8] Cf. Verissimo, Erico, cit., loc. cit.

[9] Cf. Verissimo, Erico, cit., loc. cit.

[10] Verissimo, Erico, cit., p. 260.

[11] Cf. Verissimo, Erico, cit., loc. cit.

[12] Verissimo, Erico, cit., loc. cit.

 é livre-docente em Teoria Geral do Estado pela Faculdade de Direito da USP, doutor e mestre em Filosofia do Direito e do Estado pela PUC-SP, professor e pesquisador visitante na Universidade da California (Berkeley) e no Instituto Max-Planck de História do Direito Europeu (Frankfurt).

Revista Consultor Jurídico, 22 de novembro de 2015, 10h31

Comentários de leitores

1 comentário

Olhai os lírios do campo e os políticos brasileiros

Chiquinho (Estudante de Direito)

Há quase um século, o genial escritor modernista cruz-altense, Érico Veríssimo, criou um dos personagens feminino mais humano e sensível da história da Literatura Brasileira: Olívia.
Protagonista principal do romance “Olhai os lírios do campo”, Olívia foi idealizada pelo gênio afetivo de Érico Veríssimo como uma fragrância jamais encontrada em romance escrito anteriormente, nem mesmo no realismo genial de Machado de Assis, o maior escritor da Língua Portuguesa.
Sua honestidade feminina, sua alma altruísta, sua sensibilidade, seu imaterialismo, sua solidariedade para com todos os necessitados, incorporam o espírito receptível que morava dentro de Érico Veríssimo em favor de todos os necessitados do Brasil e do mundo a cuja indiferença dos fascistas e tiranos ele abominava e odiava.
O personagem feminino de Olívia idealizado por Érico Veríssimo na ficção só veio encontrar vida quase um século depois na figura humana mais sensível e carismática de todos os tempos já nascida neste mundo louco e egoísta: Malala Yousafzai, a paquistanesa que levou três tiros quase fatais do fuzil de um besta-fera só porque lutava pelo direito à igualdade de toda mulher à educação.
O bom seria que todos os políticos brasileiros, antes de se lançar candidato a qualquer coisa no Brasil, lesse o romance Olhai os lírios do campo, e se ativessem principalmente às cartas que Olívia escreve a Eugênio Pontes: quero que abras os olhos, Eugênio. Que acordes enquanto é tempo. De que vale construir arranha-céus que não há mais almas humanas para morar neles?
A todos os políticos ladrões do Brasil com bilhões e mais bilhões depositados em bancos no exterior roubados do povo brasileiro: de que vale possuir esse montão de dinheiro se se morre e não leva nada no

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