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Embargos Culturais

O relato de Graça Aranha sobre o concurso de Tobias Barreto

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O escritor maranhense Graça Aranha (1868-1931) relata em seu livro de memórias[1] a apoteose que se viveu no concurso que se submeteu Tobias Barreto, com vistas a lecionar na Faculdade de Direito do Recife. São páginas de ardente entusiasmo e devoção, que bem dimensionam a influência que o sergipano Tobias Barreto (1839-1889) exerceu no cenário nacional. Graça Aranha principia por contextualizar a contenda:

“Abrira-se o concurso para professor substituto da Faculdade. Foi o concurso de Tobias Barreto. Eu já havia iniciado meus estudos na Academia. O que me ensinaram de filosofia do direito, eu não entendia. Era superior ao meu preparo, e professado sem clareza, sem o fluido da comunicação (...) O concurso abriu-se como um clarão para os nossos espíritos. A eletricidade da esperança nos inflamava. Esperávamos, inconscientes, a coisa nova e redentora. Eu saía do martírio, da opressão para a luz, para vida, para a alegria”[2].

Graça Aranha fora um dos primeiros à chegar “ao vasto salão da Faculdade”[3], tomando posição junto a uma grade que, recorda, “separava a Congregação da multidão de estudantes”[4]. O favoritismo de Tobias Barreto, prossegue Graça Aranha, fora imediato[5]. Lembrou que o candidato, “mulato desengonçado, entrava sobre o delírio das ovações[6]. A descrição de Tobias Barreto é minuciosa:

“Os seus olhos flamejavam, da sua boca escancarada, roxa, móvel, saía uma voz maravilhosa, de múltiplos timbres, a sua gesticulação transbordante, porém sempre expressiva e completando o pensamento. O que ele dizia era novo, profundo, sugestivo. Abria uma nova época na inteligência brasileira e nós recolhíamos a nova semente, sem saber como ela frutificaria em nossos espíritos, mas seguros que por ela nos transformávamos”[7].

Para Graça Aranha, ao longo do concurso, os professores da Faculdade teriam sido humilhados em seus espíritos reacionários[8]; acreditava que o momento marcava a emancipação da mentalidade brasileira, “afundada na teologia, no direito natural, em todos os abismos do conservantismo”[9]. Ao fim da preleção oral Tobias Barreto teria recebido “a mais grandiosa manifestação dos estudantes, a cujo entusiasmo aderiram as lentes unânimes”[10].

Graça Aranha narra que saltou da grade e atirou-se aos braços de Tobias Barreto, que teria perguntado se o entusiasta já era acadêmico[11], ao que confirmou que já era calouro[12]. O escritor concluiu, confirmando a imensa influência que Tobias Barreto exercia sobre a juventude:

“ Que deslumbramento! Não voltei a meus colegas. Fiquei por ali mesmo, metido em algum canto da sala da Congregação, e saí acompanhando, como uma pequena sombra, o Mestre. À noite, eu estava em sua casa em Afogados. Nunca mais me separei intelectualmente de Tobias Barreto”[13].

Essas memórias foram registradas passados 40 anos dos fatos, que Graça Aranha registrou como um grande choque mental[14]. Para Graça Aranha aquele encontro lhe afirmara a “personalidade independente e soberana”[15]. A grande lição do mestre sergipano, segundo Graça, fora a de “pensar desassombradamente, a de pensar com audácia, a de pensar por si mesmo, emancipado das autoridades e dos canons”[16]. A crítica de Tobias Barreto destruía e, ao mesmo tempo, apontava novas perspectivas para a cultura, firmando novas bases para a inteligência, na compreensão do escritor maranhense[17].

Tobias Barreto é admirado internacionalmente. Foi objeto de ensaios[18] e de importantíssimo livro de Mario Losano[19], sobre o qual tive conhecimento em conversa com o ministro Carlos Ayres Britto (profundo e incomparável conhecedor da obra de Tobias Barreto) e com Thiago Pádua, jovem e dedicado estudioso da história da Filosofia do Direito no Brasil. Mario Losano estará nessa semana que vem no Brasil, discutindo Bobbio, Kelsen e o papel do filósofo frente a guerra e a paz. No ensaio da semana que vem tratarei da influência de Tobias Barreto na vida e na concepção de mundo de Graça Aranha.


[1] Aranha, Graça, O meu próprio romance, Rio de Janeiro: Companhia Editora Nacional, 1931, pp. 147 e ss.
[2] Aranha, Graça, cit., pp. 147-148.
[3] Aranha, Graça, cit., loc. cit.
[4] Aranha, Graça, cit., loc. cit.
[5] Aranha, Graça, cit., loc. cit.
[6] Aranha, Graça, cit., loc. cit.
[7] Aranha, Graça, cit., p. 149.
[8] Aranha, Graça, cit., loc. cit.
[9] Aranha, Graça, cit., pp. 149-150.
[10] Aranha, Graça, cit., p. 150.
[11] Aranha, Graça, cit., loc. cit.
[12] Aranha, Graça, cit., loc. cit.
[13] Aranha, Graça, cit., pp. 150-151.
[14] Aranha, Graça, cit., p. 151.
[15] Aranha, Graça, cit., loc. cit.
[16] Aranha, Graça, cit., p. 151.
[17] Cf. Aranha, Graça, cit., loc. cit.
[18] Consultar Losano, Mario, O Germanismo em Tobias Barreto, in Barreto, Luiz Antonio, Obras Completas de Tobias Barreto, Estudos Alemães, Sergipe: Editora Diário Oficial pp. 273-281.
[19] Losano, Mario, Un giurista tropicale - Tobias Barreto fra Brasile reale e Germania ideale, Roma e Bari: Laterza, Roma Bari 2000.

 é livre-docente em Teoria Geral do Estado pela Faculdade de Direito da USP, doutor e mestre em Filosofia do Direito e do Estado pela PUC-SP, professor e pesquisador visitante na Universidade da California (Berkeley) e no Instituto Max-Planck de História do Direito Europeu (Frankfurt).

Revista Consultor Jurídico, 5 de outubro de 2014, 8h00

Comentários de leitores

2 comentários

O relato de Graça Aranha sobre o concurso de Tobias Barreto

ABRAÃO ABREU (Policial Militar)

MUITO BOM GODOY!!! Trazendo boas lembranças da figura imortal de TOBIAS BARRETO, filósofo, poeta, crítico, jurista brasileiro e fervoroso integrante da Escola do Recife.. nordestino de peso...

Excelente lembrança....

Ademilson Pereira Diniz (Advogado Autônomo - Civil)

Excelente lembrança, não apenas na parte em que fala do imortal Tobias Barreto, mas de um tempo em que se entrava num curso superior não em busca tão somente de um 'diploma' e uma 'profissão', mas um sopro de cultura, de formação humana, o que levava à descoberta e admiração dos verdadeiros mestres.

Comentários encerrados em 13/10/2014.
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