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Inteligência preparada

Brasil é um gigante com espiões de barro

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Ao se tornar um gigante econômico e um player no xadrez geopolítico mundial, o Brasil não pode continuar a ter serviços secretos e de informações próprios de um país subdesenvolvido. O efeito disso pode ver-se na súbita paranoia que atinge governo, empresas, o normal cidadão e até a presidente Dilma Rousseff, que quase propõe à Organização das Nações Unidas a proibição universal dos serviços secretos, nas suas palavras, “uma nova governança contra invasão de privacidade”. Casa roubada, trancas na porta.

Ora, ao votar com a Rússia contra a posição dos Estados Unidos – como aconteceu na última reunião do G20, há duas semanas, em São Petersburgo – o Brasil ficou automaticamente exposto aos serviços secretos mais eficazes do mundo. Sentou-se à mesa dos ricos qual fosse, literalmente, um gigante. Assessorado, no entanto, por espiões de barro. Um Brasil, indefeso, roçou o ridículo. E quem faz o ridículo global arrisca o poder regional.

A questão mais pertinente é a seguinte: por que razão a inteligência, a espionagem e a contraespionagem brasileira não se prepararam para atuar no mesmo nível da dos americanos, seus rivais econômicos, quando o Brasil é a sétima economia mundial e, como tal, deveria dispor de aparatos mínimos de inteligência?  Poder de investimento e prioridades à parte, a resposta a esta pergunta está relacionada também às consequências do ranço deixado pela ditadura. Tudo o que fosse relacionado aos seus métodos, o que inclui estruturas do Estado, aparelhadas pelos governos ditatoriais, como são as agências de informação, tem má opinião. No povo, nos políticos e, claro, na mídia. Como aconteceu em Portugal, as secretas ficaram sendo olhadas como a face visível de todo o “mal” que existia nos regimes anteriores.

As secretas foram, então, relegadas a décimo plano e sucateadas, sem estrutura nem legislação adequada às suas exigências. Passaram a escrever releases. O tempo passou, as coisas evoluíram, o mundo mudou e o Brasil também, mas não se desenvolveu a metodologia de inteligência capaz de dar ao Brasil as informações que lhe permitissem agir com segurança e estrategicamente neste novo contexto. O ranço e a desconfiança persistiram e venceram.

Há que se perguntar por que a presidente põe agora as culpas na sua secreta quando antes nunca se preocupou com ela? Que passos devem ser dados para que a espionagem brasileira também esteja ao mais alto nível mundial?

E não estou aqui a perguntar em tom de um estrangeiro arrogante que pegou carona na crítica presidencial e quer apresentar a receita do sucesso. Falo com base em pesquisa profunda de quem estudou as principais secretas do mundo, desde sua criação, em trabalho de fôlego que veio a se transformar em livro, que parte para segunda edição em Portugal e será lançado no próximo mês no Brasil.

Rafel Eitan, um agente da Mossad, dizia sobre a sua agência:  “A nossa tarefa é fazer história e logo ocultá-la. No geral, somos honrados, respeitamos o governo constitucional, a liberdade de expressão e os direitos humanos. Mas, no final de contas, entendemos também que nada deve interpor-se entre o que devemos fazer.”  A CIA, o SVR (herdeiro da KGB) ou a Mossad não trabalham com atraso, nem vão a reboque dos acontecimentos, todo o contrário: quase sempre são as agências a criar os factos e logo história. Não a sofrer com ela.

Essa mudança já aconteceu mesmo em países pequenos e em grave crise como é o caso por exemplo de Portugal. Os portugueses investiram seriamente na sua inteligência, a dotando de autonomia política, juventude, força, tecnologia, e secretismo. Para serem um “novo agente secreto português” os candidatos, homens e mulheres, têm agora entre 21 e 40 anos, formação universitária e estão dispostos a ver sua vida devassada por uma investigação prévia ao recrutamento que é logo anunciada no site oficial do SIS - os serviços secretos portugueses - na internet. Os novos agentes aceitam submeter-se a duras provas físicas, de inteligência, personalidade e memória que se prolongam durante meses. Também lhe são pedidos boa cultura geral e conhecimentos sólidos sobre a política nacional e internacional, história, economia e geopolítica mundial. Dada a natureza do trabalho, é imprescindível o domínio de línguas estrangeiras, como o francês e o inglês, e há uma procura cada vez maior de operacionais que falem russo, árabe ou chinês, o que evidencia uma atenção particular da secreta aos países BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) e do Golfo Pérsico, economias em rápido crescimento e de importância estratégica para Portugal.

Agora os brasileiros já sabem como Obama mata a sua curiosidade. Mas saberão quantas agências secretas mais já estão de olho no Brasil?

José-Manuel Diogo é jornalista especializado em comunicação corporativa e escritor

Revista Consultor Jurídico, 24 de setembro de 2013, 16h29

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