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Livro Aberto

O livro da vida do professor Joaquim Falcão

Por 

*Depoimento concedido a Marcelo Pinto

Sempre me impressionou quando, na década de 1990, entrei na sala do Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, ex-diretor-geral da TV Globo), no Rio. Na frente dele havia cinco televisões ligadas, a Globo e suas concorrentes, em tempo real, na prateleira em frente. Em cima de sua mesa, outra tela com as medidas do Ibope, canal por canal, minuto por minuto. Boni olhava as duas, fisicamente distantes uma da outra, ao mesmo tempo. Conversava meio minuto com você, e cinco com a telinha do Ibope. O olhar ia e vinha e ele se mexendo na cadeira. Analisava todo o tempo o desempenho da programação da Globo, com os olhos do telespectador nos gostos e desgostos.

Se o Ibope da Globo baixava, ele sistematicamente, diz a lenda, não se incomodava. Agia. Mandava mudar o rumo da novela, decapitava personagens, refazia a grade, tudo para o Ibope da Globo voltar à liderança com a folga que sempre manteve. Não brigava com o telespectador nem com a realidade. O seu sucesso se alimentava de conhecer o bom e o mau Ibope.

Nesta época, eu estava lendo um livro admirável que nada tinha a ver com televisão ou novelas. Um livro de história. De uma das maiores historiadoras americanas: Barbara Tuchman. O José Antonio Lavareda que me indicara. Seu título: A Marcha da Insensatez: De Tróia ao Vietnã (Editora José Olympio).

Tuchman faz uma pergunta simples: por que alguém que tem tanto poder, perde o poder depois de algum tempo? Por que Tróia coloca o cavalo grego dentro de seus muros? Por que, em 1470, a Igreja Católica perde para Lutero? E a Inglaterra, em 1700, perde a América? Por que os Estados Unidos perdem o Vietnã? Por que o poder se esvai?

Tuchman analisa saborosamente estas histórias, com saber documentado e imaginado, pois nem só de documentos se fez a história. Levanta uma tese intrigante. Depois de certo tempo, quem tem poder absoluto só gosta de receber boas notícias. Cria involuntariamente em volta de si, cortes e cortesãos, bajuladores, imprensas oficiais, rigolettos, clippings favoráveis. Ou seja, criam em volta de si, às vezes até institucionalizam, um “processo seletivo de boas notícias”. Com a cumplicidade dos que se beneficiam do poder.

Com isto, vai pouco a pouco deixando de compreender a realidade total sempre conflituada. A realidade que cerca o poder vai diminuindo, se transformando, e o poderoso acaba imaginando-se em outra realidade. E aí não pode mais exercer o controle sobre a realidade, digamos, real. Vive na realidade imaginada até ser deposto. Quando as más notícias chegam, não há mais tempo.

Esta hipótese de Tuchman se aplica além desses episódios. A loucura, por exemplo, é a síntese ou resultado final de um patológico processo de autodesconexão da realidade. Louco seria aquele que sai da realidade, imagina outra, e aí não mais se controla, não mais sabe viver nem conviver.

Quantas empresas, como agora as indústrias fonográficas, perderam seus mercados, vídeos e CDs, porque não perceberam que a questão não estava nos consumidores que compravam produtos piratas, nem em colocar mais polícia ou incrementar o combate à pirataria para manter seus reinos. Mas que se tratava, na verdade, de se investir em tecnologia para se modernizarem e se expandirem? Alimentaram-se falsamente de alianças com a lei, o atraso e a polícia. Não funcionou.

Mais ainda. Quantas pessoas perdem a mulher amada, simplesmente porque não as sabe escutar, compreender, ver suas realidades, compreender suas opiniões contrárias, mas favoráveis. E, simplesmente, pretendem impor-se como desejo de seu próprio desejo?

Não seria este processo de “seletividade das informações convenientes” o fundamento da ilegitimidade do poder? Vejam agora, por exemplo, a transformação importante que está ocorrendo, aqui, com muitos percalços, no Supremo Tribunal Federal? Quando o STF está em sintonia com a opinião pública, ele se fortalece. Isto ocorre, por exemplo, quando produz discussões a tempo, e ouve a opinião pública. Estava em sintonia com os cidadãos. Quando o Supremo se perde em discussões teóricas inacabáveis de direito processual, recursos, agravos, embargos, e não produz decisões a tempo, ele pode ter o brilho teórico, mas abre mão do que é sua razão de ser: decidir a tempo.

Não sei se está claro a importância deste livro. Não é porque, ao ler, ganhei em melhor compreender Tróia, Lutero, Jorge III ou Westmoreland. Mas, sim, porque o livro me deu um método de análise, muito além dos acontecimentos históricos. Foi capaz de me ajudar a compreender a importância da informação real para o poder, as empresas, o amor e a saúde mental.

Os livros que me encantam são os que aumentam, em mim, a capacidade de analisar e compreender. A propósito, quando leio um livro, leio sempre além do livro. É enriquecedor.

Joaquim Falcão é professor da Escola de Direito da FGV.

Revista Consultor Jurídico, 25 de maio de 2013, 14h39

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