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Segunda Leitura

Manual de sobrevivência e sucesso nas carreiras jurídicas

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O curso de Direito é, de todos, o que oferece mais oportunidades no serviço público. São diversos os concursos para atraentes profissões jurídicas. A escolha varia em razão da vocação, da confiança em si próprio e do grau de ambição.

Mas, seja qual for a opção, sempre existirão disputas por espaço dentro do local de trabalho. É da natureza humana. E neste aspecto não serão diferentes as lutas travadas no cartório de uma pequena comarca do interior das existentes em um gabinete no Supremo Tribunal Federal.

Vejamos algumas situações, discutindo o que nunca se discute. Imagine-se que a mais bem intencionada pessoa sobre a face da Terra queira aprimorar o órgão público a que serve. Suponha-se uma jovem procuradora federal, cheia de ideias, querendo dar de si o máximo a favor da Advocacia-Geral da União. Seu desejo será suficiente? Não. Terá que ter perseverança e habilidade. Caso contrário desistirá no primeiro obstáculo e será uma a mais a lamuriar-se nos corredores, a queixar-se disso ou daquilo, sem nada resolver.

Aos que pretendem o serviço público, a primeira lição é o próprio concurso. Sobre ele deve-se guardar absoluta discrição. Preparar-se sem nada falar a ninguém, exceto uma ou duas pessoas próximas. Reservar-se para dar a boa notícia depois da aprovação.

Uma vez no exercício das funções, começar discretamente, impor-se aos poucos. O brilho prematuro suscita medo e inveja nos outros. Um exemplo. Quando começou o uso da informática no Judiciário, um jovem juiz, com poucos meses de magistratura, foi colocado como palestrante em um seminário. Era cedo demais para aquele destaque. A represália veio em seguida, foi propositadamente posto de lado.

O ingresso no serviço público exige adaptação. Os colegas estudarão o novo membro, aceitando-o ou rejeitando-o. Nesta fase é bom analisar os que estão no entorno. Suas virtudes e defeitos. Ter cautela com os que tudo criticam, falam mal dos outros. Evitar excessos nos momentos de descontração. Um pouco de bebida a mais pode relaxar os freios inibitórios e originar frases ou ações cuja repercussão negativa se farão sentir por longo tempo.

Não criticar os outros é regra de ouro. Porém elogiar também exige cautelas. É conveniente saber o grau de aproximação entre o que ouve e o elogiado. Um jovem promotor de Justiça, ao conversar com o procurador-geral da Justiça, poderá estar sendo sincero ao elogiar o corregedor. Mas serão eles amigos? Do mesmo grupo político na instituição? Será o elogio bem recebido? Ou criará uma antipatia desnecessária?

No ambiente jurídico existem regras próprias, não escritas. Quebrá-las pode gerar consequências. Os títulos, a hierarquia, o tratamento, devem corresponder ao cargo que se ocupa, à idade, à história de vida dos envolvidos. Sabidamente, isto tudo está sendo deixado de lado. Os mais novos, por vezes, confundem convivência harmônica com bajulação, subserviência. Por exemplo, o corregedor-geral da Justiça vem em inspeção e não encontra ninguém a esperá-lo no aeroporto. O que podem os juízes, dele, esperar? Boa vontade? Compreensão? Óbvio que não.

No serviço público, os que se dedicam mais acabam recebendo várias incumbências, mais trabalho. É preciso selecionar, saber dizer não. E quando aceitar uma missão, ir até o fim, de qualquer maneira e seja qual for o sacrifício. O único resultado admissível é o sucesso. É assim que se firma um bom conceito.

Quando se substitui alguém temporariamente, nada se modifica. Quem sai se revolta ao ver que mudaram suas práticas e lutará para que a pessoa ali não volte mais. Por exemplo, o Delegado de Polícia assume a Delegacia do município ao lado nas férias de seu colega. Deve limitar-se a rotinas e não alterar as práticas ou decisões tomadas, mesmo que obsoletas. Pode, depois de sair, delicadamente deixar sugestões ao seu colega. Nada mais. Afinal, ele não abrirá mão jamais de ser o autor da mudança.

Quando se precisa de algo é necessário escolher o momento de fazer o pedido. Conhecer a pessoa, seus hábitos, suas crenças. Se a pessoa estiver em um dia problemático, cansado e com fatos graves a resolver, o pedido deve ser deixado para outra ocasião. O telefone deve ser evitado ao máximo. É comum surgirem mal entendidos nesse tipo de conversa. Ligar para a pessoa na hora do almoço, nem pensar. Por outro lado, devem ser evitados pedidos que não possam ser atendidos, porque isto gerará frustrações em ambas as partes.

No exercício de chefia, comemorar as vitórias, dividindo-as com os servidores, reconhecendo-lhes publicamente a ajuda dada.

Ao alcançar uma vitória contra um adversário político, que pode ser ter sido escolhido para um cargo relevante, ou até mesmo puni-lo por uma falta, evitar a tentação de humilhá-lo, menosprezá-lo. Primeiro, uma questão de humanidade. Segundo, porque o mundo dá voltas e o com o tempo a situação pode ser inversa. E ele se lembrará disto.

Segredos não se confiam a ninguém. Absolutamente. Primeiro, porque são segredos. Segundo, porque ninguém sabe se aquele a quem se confiou será seu inimigo no futuro.

Cuidar com as explosões de ira, de revolta. Uma ofensa dita na cara nunca se reverte, mesmo que a vítima diga que o assunto está superado. Uma mensagem ofensiva na internet, idem. Uma frase infeliz no facebook pode gerar consequências imprevisíveis, desde o ódio de pessoas até a perda de uma função de confiança. Nos momentos de revolta, respirar fundo dez vezes antes de exteriorizar a insatisfação. Depois, será tarde.

Nas funções públicas não é raro receber visitas prolongadas e que acabam prejudicando o trabalho. Para sair delicadamente de tal tipo de situação é bom ter um assessor já instruído para que, caso elas passem de determinado tempo (por exemplo, 15 minutos) venha avisar, cerimoniosamente, que aquela pessoa esperada já está aguardando o contato.

No trato com os membros da cúpula da hierarquia, nunca esquecer que eles gostam e querem ser o centro das atenções. Assim, expor suas conquistas e realizações longamente poderá ter o efeito oposto ao desejado, ou seja, causar irritação. Até para discordar há que se ter cautela.

Quem ocupa função pública sabe que nem tudo pode ser deferido. Mas, ainda que o pedido seja absurdo, deve ser evitado o não na cara do interlocutor. Ele gera revolta. Talvez nunca seja esquecido. Assim, duas ou três perguntas, uma reflexão mesmo que aparente, podem atenuar a negativa com bons resultados.

A ira contra alguém, por mais que justificada, não deve ser demonstrada através de ameaças ou expressões de ódio. Isto só fará o interlocutor preparar-se para o conflito. Por outro lado, mesmo que muitos sejam os merecedores da ira, não se recomenda entrar em conflito contra tudo e todos ao mesmo tempo. As chances de sucesso serão menores.

Então, estas máximas da experiência serão atuais? Éticas? Aplicáveis? Sim, sem dúvida.

Atuais, porque o ser humano é o mesmo, qualquer que seja a época. Os conflitos de hoje são os mesmo dos tempos de Confúcio, na China, no século V antes de Cristo, ou do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, na Grã-Bretanha do século VI.

Sim, são éticas, porque o que se busca em última instância é o bem. Não se busca a dissimulação para alcançar o mal, para prejudicar terceiros. Tudo porque, sabidamente, não se conquista nada se não for dentro de determinadas regras, procedimentos não escritos. E se nada for conquistado, tudo terá sido em vão. Isto significa alguém que, mesmo sendo bom, permanece recluso em seu mundo particular, sem nada fazer para que seu trabalho, sua cidade, seu país, sejam melhores para todos.

Finalmente, estas e outras máximas de conduta são, sim, aplicáveis. E sem grandes dificuldades. Basta tê-las em mente ao procurar se alcançar um objetivo.

REFERÊNCIA:
Breviário dos Políticos, Cardeal Mazarin, Ed. 34, São Paulo, 6ª reimpressão,  2005.

 é desembargador federal aposentado do TRF 4ª Região, onde foi presidente, e professor doutor de Direito Ambiental da PUC-PR.

Revista Consultor Jurídico, 7 de julho de 2013, 9h19

Comentários de leitores

13 comentários

Prós e contras

Carla Ramos (Outros)

A análise do autor tem o aspecto positivo de pontuar todas as situações em que o funcionário público (e deve valer para a vida em geral) é obrigado a agir como se estivesse num teatro, num verdadeiro jogo de cena, em que cada um tem um papel e deve decorá-lo. Se não se comportar bem, se não atuar bem, o ator vai para o ostracismo - salvo se tiver as costas quentes, é claro.
O ponto negativo do artigo é tentar justificar as imposições que as relações funcionais impõem aos servidores de todos os escalões - principalmente dos menos graduados. Ora, se os fins justificassem os meios, bastaria irmos a Maquiavel e seguir seus conselhos. A busca do bem não justifica nem torna "ética" a mentira, a dissimulação. Penso que o autor poderia ter ficado um pouquinho aquém das suas conclusões e constatado, apenas, que essa é uma descrição de como o sistema funciona, como a estrutura desse sistema estimula as pessoas a atuarem sem verdade, sem transparência, com cautelas extremas, e destacar que, a partir dessa cosntatação, é preciso mudar o sistema e transformá-lo - se possível - para que as pessoas sejam valorizadas por suas competências, para que as brigas internas não interfiram na vida profissional, para que tenhamos funcionários esclarecidos, qualificados, e que os ocupantes das cúpulas sejam, também eles, pessoas que não trabalham com base em picuinhas e brigas de poder político. É preciso quase uma revolução, sem dúvida. Mas não é possível justificar o estado de coisas e afirmar que a dissimulação é ética porque seus fins o são... sabemos dessa lição há muito tempo.

Prós e contras

Carla Ramos (Outros)

A análise do autor tem o aspecto positivo de pontuar todas as situações em que o funcionário público (e deve valer para a vida em geral) é obrigado a agir como se estivesse num teatro, num verdadeiro jogo de cena, em que cada um tem um papel e deve decorá-lo. Se não se comportar bem, se não atuar bem, o ator vai para o ostracismo - salvo se tiver as costas quentes, é claro.
O ponto negativo do artigo é tentar justificar as imposições que as relações funcionais impõem aos servidores de todos os escalões - principalmente dos menos graduados. Ora, se os fins justificassem os meios, bastaria irmos a Maquiavel e seguir seus conselhos. A busca do bem não justifica nem torna "ética" a mentira, a dissimulação. Penso que o autor poderia ter ficado um pouquinho aquém das suas conclusões e constatado, apenas, que essa é uma descrição de como o sistema funciona, como a estrutura desse sistema estimula as pessoas a atuarem sem verdade, sem transparência, com cautelas extremas, e destacar que, a partir dessa cosntatação, é preciso mudar o sistema e transformá-lo - se possível - para que as pessoas sejam valorizadas por suas competências, para que as brigas internas não interfiram na vida profissional, para que tenhamos funcionários esclarecidos, qualificados, e que os ocupantes das cúpulas sejam, também eles, pessoas que não trabalham com base em picuinhas e brigas de poder político. É preciso quase uma revolução, sem dúvida. Mas não é possível justificar o estado de coisas e afirmar que a dissimulação é ética porque seus fins o são... sabemos dessa lição há muito tempo.

Conservador?

Gabbardo (Professor)

Francamente, sr. daniel, conservador? A coluna do articulista (articulista este que se insurgiria contra a Magna Carta, se pudesse, tendo em vista que lá é concedido ao acusado o lamentável privilégio de não produzir prova contra si mesmo) é o quê, então, progressista?
Sobre relação entre professor e aluno, o aluno tem que criticar o professor. E não ficar fazendo kowtow perante tudo o que ele diz.

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