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Direito à vida

É inconstitucional proibir socorro a vítimas de crimes

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Desde o dia 8 de Janeiro deste ano (2013) todos os policiais do estado de São Paulo que atendem ocorrências com vítimas graves não podem mais socorrê-las. Elas, agora, obrigatoriamente terão de ser resgatadas pelo Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) ou pela equipe de emergência médica local. A decisão foi do senhor secretário da Segurança Pública desse estado, através da Resolução SSP-05.

Caberia, assim, em caso de demora ou retardo no atendimento médico móvel, ao policial assistir passiva e indiferentemente ao sofrimento ou agonia da vítima? Exigir-se-ia do policial, enquanto a ambulância não chega, que recitasse ao ouvido da desesperada vítima alguns versos bíblicos ou palavras de consolo?

É claro que a vítima — qualquer vítima, sem exceção — preferiria ser breve e prontamente atendida pela gloriosa e dedicada equipe do resgate do Samu ou serviço local de emergência, do que ser levada no cofre de uma viatura policial ou no banco de trás da mesma até o hospital mais próximo em busca de primeiros socorros.

Acontece que, apesar do heroísmo da equipe do Samu, muitas vezes, e não são poucas, este serviço encontra diversas razões justificáveis para não conseguir chegar ao local dos fatos com a brevidade esperada por quem agoniza, a vítima. Desde razões político-orçamentárias até caóticos engarrafamentos no trânsito são situações que embaraçam o tempo de resposta do atendimento do Samu.

Nosso Código Penal brasileiro é claro:

“Omissão de socorro
Art. 135 — Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública:
Pena — detenção, de um a seis meses, ou multa.
Parágrafo único — A pena é aumentada de metade, se da omissão resulta lesão corporal de natureza grave, e triplicada, se resulta a morte”.

E a razão de ser de tal dispositivo penal encontra fundamento no princípio da dignidade da pessoa humana, insculpido no artigo 1º, inciso III, da Constituição Federal. A ninguém, quanto mais a uma autoridade pública, é dado assistir passivamente ao martírio de uma vítima, quando possível socorrê-la, mormente no caso de demora excessiva da chegada da equipe do Samu.

Outrossim, a preservação da cena do crime, para confecção do exame de corpo de delito, como prova processual, evidentemente não se sobrepõe ao direito à vida e à saúde de outrem. Nestes casos, o próprio Código de Processo Penal recomenda o exame de corpo de delito indireto (“Art. 167. Não sendo possível o exame de corpo de delito, por haverem desaparecido os vestígios, a prova testemunhal poderá suprir-lhe a falta”).

Certamente que uma resolução de Secretaria de Estado não possui envergadura legislativa para abolir o disposto na legislação federal vigente e na Constituição da República. Ou seja, a inconstitucionalidade formal, além de material, também é latente. A não ser que a Resolução paulista seja interpretada excepcionando-se a hipótese de faute du service.

Seja como for, a sorte da resolução paulista dependerá mais da eficiência e pronto atendimento das vítimas pelo Samu do que questionamentos jurídicos que possa vir a receber.

 Defensor Público do Estado do Espírito Santo

Revista Consultor Jurídico, 9 de janeiro de 2013, 18h47

Comentários de leitores

12 comentários

Daniel A Oliveira (Procurador Federal)

Jorge Cesar (Advogado Autônomo - Internet e Tecnologia)

Daniel A Oliveira (Procurador Federal),
O Senhor se refere ao SAMU suíço ou brasileiro?

A norma administrativa de São Paulo é constitucional

Daniel A Oliveira (Procurador Federal)

Respeitosamente, não consigo enxergar como uma norma que organiza as atribuições de uma corporação (como a Polícia Militar) pode ser inconstitucional se se mantém dentro deste escopo. Além de administrativa, econômica e sociologicamente correta, também é legal e constitucional. P.ex., à polícia cabe a segurança, ao corpo de bombeiros prestação de socorro de saúde. O Governo não pode dizer que caberá ao policial manter seu policiamento, para preservar demais vidas, "dignidades da pessoa humana" de outras pessoas da sua área de atuação, enquanto o profissional qualificado (bombeiro, paramédico etc.) executa seu trabalho? O problema do tipo de interpretação defendido pelo autor do texto é que exige uma análise quase infinita para se chegar à conclusão correta. Por exemplo, a medicina poderia recomendar (como acredito que o faça) o aguardo no local por uma "UTI móvel" (como o SAMU), ao invés do deslocamento da vítima até um hospital próximo. Abraço a todos

Acusação falsa

Marcos Alves Pintar (Advogado Autônomo - Previdenciária)

A acusação do daniel (Outros - Administrativa) de que estou cometendo aqui o crime de falsidade ideológica (supostamente me fazendo passar ana lucia Bacharel (Outros)) por é falsa. Ele confundiu o nome do comentarista com o título do comentário. Lamentável!

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