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Livro Aberto

Os livros da vida do ministro Luis Felipe Salomão

Por 

Caricatura Luis Salomão [Spacca]*Depoimento concedido a Marcelo Pinto

A descoberta do prazer da leitura, na adolescência, me levou direto aos clássicos. Nesse primeiro momento, ela esteve ligada à descoberta de uma perspectiva maior da vida, quando comecei a sentir a necessidade de ver o mundo além da família e dos vizinhos, bem além do muro do cotidiano, e percebi que ele tinha extensão, era mais amplo e muito mais dinâmico. Os livros eram o caminho natural para saciar essa curiosidade, até porque, em casa, meu pai era um leitor recorrente. Lembro que, no começo, pegava livros emprestados da biblioteca dele. Depois, passei a adquirir aquelas edições de bolso da Ediouro, até, mais tarde, ter condições de comprar obras mais completas.

Crime e castigo - Fiódor Dostoiévski [Divulgação]E o mundo se abre diferente, aos 17 anos, quando você começa a ler os clássicos. A Utopia, de Thomas Morus; O elogio da loucura, de Erasmo de Roterdã; O contrato social, de Rousseau; O príncipe, de Maquiavel. As descobertas se estenderam para o teatro, e assim foi com as tragédias gregas Édipo Rei e Antígona, seguidas das peças de Shakespeare, como Hamlet, Rei Lear e Macbeth. Além dos romances Dom Quixote, de Cervantes, e Crime e Castigo, de Dostoiévski — este último, riquíssimo em dramas e vicissitudes, fornece com muita crueza o que é a humanidade, com suas maldades, suas vilanezas, mas também suas coisas boas; enfim, uma radiografia da alma humana.

Livros de geração
Assim que ingressei na faculdade, uma obra marcante foi o livro de contos A justiça dos homens, de Anatole France. No início do curso de Direito, entrei em contato com livros que marcaram a minha geração, como As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, Os donos do poder, de Raimundo Faoro, e Coronelismo, enxada e voto, de Vitor Nunes Leal, ministro do Supremo Tribunal Federal cassado pela ditadura militar.

Titulo: O Processo - Col. Saraiva De Bolso Editora: Saraiva Edição: 2011 Autor: Franz Kafka Número de Páginas - ISBN: 9788520925157Caso me perguntassem se alguma obra em particular foi responsável pelo impulso que o Direito ganhou na minha vida, não poderia citar somente uma. Nessa lista têm lugar garantido O processo, de Franz Kafka, O experimento de Pott, de Pitigrilli, e Os grandes processos do júri, de Carlos de Araújo Lima. Enquanto o romance de Kafka oferece aquele olhar duro e amargo, tão característico de sua obra, sobre um sistema corrupto e violento, quase enlouquecido, o livro do italiano Pitigrilli conta a história de um juiz francês que se desentende com seus colegas de toga e vai virar palhaço em um circo. Assim como O processo, este também traz uma visão tormentosa do sistema, mas com uma conclusão surpreendente. Já Carlos de Araújo Lima escreveu um livro histórico sensacional, que conta os casos de júri das décadas de 1940 e 1950. Esses livros alimentaram o meu gosto pelo Direito ao fornecerem uma visão ampliada do sistema jurídico. Para quem está começando na vida jurídica, são obras que eu recomendo.

Outros livros importantes na minha formação foram aqueles que tratam da Filosofia do Direito. A introdução ao estudo do Direito, de Miguel Reale, eu considero fenomenal porque nele o autor esboça a Teoria Tridimensional do Direito, hoje reconhecida no mundo todo: “Direito é fato, norma e valor”. A obra Introdução sobre os sistemas de Direito, de Michael Meale, também é um clássico francês que trata sobre os principais sistemas jurídicos do mundo. Mais recentemente, li Justiça para Ouriços, de Ronald Dworkin, que adquiri em Portugal.

Vale, aqui, um parêntese: a leitura não me revelou, particularmente, a vocação profissional, porque na verdade eu sempre me inclinei para a área jurídica. Desde pequeno queria ser juiz. Sempre tive essa inclinação, o que é curioso, porque meu pai é advogado há cerca de 60 anos, e tinha tudo para seguir sua trilha na advocacia liberal. Porém, foi grande a influência de meu irmão Paulo Cesar Salomão, falecido prematuramente — os escolhidos pelos deuses morrem jovens —, um grande magistrado.

Esses títulos todos foram o estopim de uma visão mais generosa e humana, abrindo-me a porta para uma mudança de comportamento, assegurando-me a passagem da adolescência para a vida adulta, servindo-me como uma ponte segura para a ampliação da minha “visão de mundo”. Foi o conjunto dessas obras, portanto, que me permitiu aprofundar um pouco mais: depois desses livros introdutórios, mais os de cabeceira da faculdade, o gosto pela leitura se consolidou.

O ANJO PORNOGRÁFICO - A vida de Nelson Rodrigues, Ruy CastroBiografias e História
As biografias encheriam uma estante à parte, com destaque para Chatô, o rei do Brasil e Olga, de Fernando Morais, O anjo pornográfico, de Ruy Castro, e Getúlio, de Juremir Machado da Silva. Sem falar na fenomenal série As ilusões armadas, do Elio Gaspari, sobre a ditadura militar.

Ainda durante o tempo da faculdade, veio o mergulho na literatura de Gabriel García Márquez, de quem li a obra completa. Acredito que o autor de O amor nos tempos do cólera consegue, em seus romances, novelas e contos, traduzir o sentimento sul-americano, com uma sabedoria particular para revelar a alma que une a todos nós, independentemente da língua. A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende, é um “livraço”, muito próximo do realismo fantástico de García Márquez. Aqui no Brasil, eu gosto muito da obra de Rubem Fonseca. Além dos contos e de Bufo & Spallanzani, destaco Agosto, para mim o melhor dele. A mistura de história e ficção, com a descrição do Rio de Janeiro durante a passagem da década de ouro (anos 1950), é realmente marcante.

Infâmia, Ana Maria MachadoVoltei a ler recentemente Ana Maria Machado. Gostei bastante de Infâmia — o romance cria um suspense, desenvolvendo tramas paralelas, tendo como pano de fundo a injustiça e a propalação da notícia indevida, por meio de distorções e calúnias.

No terreno da História, li e recomendo a coleção francesa História da vida privada e os livros-reportagem de Laurentino Gomes 1808 e 1822. O romance histórico Boca do inferno, da escritora Ana Miranda, foi uma leitura inesquecível, assim como os personagens reais, Padre Antonio Vieira e o poeta Gregório de Mattos, na Salvador do século XVII, então capital do Brasil. Dela também gostei muito de O retrato do Rei.

Voltando à literatura estrangeira, não poderia deixar de mencionar Os enamoramentos, do espanhol Javier Marías. Nesse romance, o autor estabelece um debate sobre moral e ética tendo como pano de fundo uma história de amor.

Silêncio em Outubro, Jens Christian Grondahl

Costumo reler, com frequência, os livros que gostei e os que precisam de certa meditação. Minha última releitura foi o romance Silêncio em outubro, do dinamarquês Jens Christian Grondhal. Espetacular.

Ponto de equilíbrio
Atualmente, tenho três livros na mesa de cabeceira: Os pilares da Terra, de Ken Follet, indicação do vice-presidente da República Michel Temer, que, além de grande constitucionalista, é um leitor voraz; 1565 enquanto o Brasil nascia, do jornalista Pedro Dória; e Civilização, de Niall Ferguson — este último explica como a civilização ocidental conseguiu prevalecer sobre a Oriental com o passar dos séculos, a despeito de a princípio ter sido bem inferior.

Costumo fuçar o site Estante virtual — http://www.estantevirtual.com.br —, que reúne sebos do Brasil inteiro. Através dele, não só compro muitos livros, como também descubro novos autores. Uma descoberta recente foi o peruano Santiago Roncagliolo, autor dos romances Abril vermelho e A quarta espada, que abordam a história do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso e de seu líder, hoje preso, Abimael Guzmán.

Creio que os livros são muito importantes para quem julga, pois formam a cultura humanística, fundamental para qualquer julgador. Porém, cada aspecto da leitura tem uma tarefa: a função do livro técnico é insubstituível.

Sem dúvida, é importantíssimo que o juiz não dedique seu tempo de leitura apenas aos livros técnicos/jurídicos, que ele não fique só na dogmática. Aqueles que atuam no mundo jurídico buscam entender um pouco como a “alma” humana funciona, e para isso é essencial a Literatura, a História e a Psicanálise. É isso que vai moldando a base cultural a partir da qual o juiz decidirá sobre as grandes questões.

No entanto, é preciso encontrar o ponto de equilíbrio: a base cultural sem a doutrina é nada, assim como a parte técnica sem o lado humano também não é nada. Afinal, esses elementos devem se conjugar.

Quando entro numa livraria, uma das coisas que mais gosto de fazer é passear, perder umas duas horas lá dentro, vendo os lançamentos, as novas edições. Mas quando saio, me ocorre um sentimento de grande frustração, pois percebo que a gente não vai conseguir ler tudo o que quer, não haverá tempo numa vida para saciar tanta curiosidade, de vencer a leitura de assuntos tão interessantes que surgem a cada minuto. Meu sonho de consumo talvez fosse parar tudo para poder apenas ficar lendo e estudando, acumulando mais conhecimento...

A geração mais jovem tem muitas virtudes, mas o hábito da leitura foi se perdendo com o tempo, por conta da vida moderna e suas tecnologias. Mas eu ainda acho que aqueles que conseguem manter esse hábito têm uma vantagem enorme sobre os demais.

 é ministro do Superior Tribunal de Justiça.

Revista Consultor Jurídico, 30 de abril de 2013, 13h13

Comentários de leitores

3 comentários

Livros abertos

PLÍNIO FIRMINO (Advogado Autônomo - Civil)

Interessante o primeiro comentário sobre recomendação do CDC. Então a decisão é a favor de banqueiros que usurparam dos rendimentos dos pobres poupadores não aplicaram a inflação correta, e agora isso é avalizado pelo sr. ministro?

CDC - leitura indispensavel!

amigo de Voltaire (Advogado Autônomo - Civil)

Sugiro ao Ministro acrescentar à sua biblioteca algum bom comentario ao Codigo de Defesa do Consumidor, pode ser o editado pelos articuladores do CDC. Nelson Nery entre outros porque a decisao que faz prevalecer o prazo prescricional da açao popular sobre o da açao civil publica nas açoes para a recuperaçao das perdas ocorridas em funçao dos planos econômicos é no minimo bizarra. Outra decisao estranhissima é o prazo de contagem para incidência da mora que o ministro considerou aplicavel o da citaçao na açao de execuçao. Em ambos os casos açoes envolvendo instituiçoes financeiras. Nem Maquiavel explica!

Luis felipe salomão - o homem certo para o stf

Chiquinho (Estudante de Direito)

Está aí um grande magistrado,tecnicamente preparado, juridicamente humanizado, para ocupar a próxima vaga de ministro do STF. Se a presidenta Dilma Rousseff estiver realmente pensando numa Corte Suprema voltada à interpretação e ao equilíbrio constitucional, não deve deixar de pensar nesse grande ministro do STJ para ocupar a próxima do STF.

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