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Proposta indecente

Lula e Jobim não dizem motivo de reunião com Mendes

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Episódio ocorrido em abril, dia 26 para ser mais preciso, só agora divulgado pela “Veja” — edição de 30 de maio —, e depois publicado em toda a imprensa, marcou de forma indelével a sucessão de fatos discrepantes da ética pública e privada. Continua a repercutir em seus desdobramentos, dada a sua particularíssima singularidade, assim pelo já noticiado como pelo que deixou de sê-lo. A circunstância do encontro promovido por iniciativa do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, no escritório do ministro Nelson Jobim, com o ministro Gilmar Mendes, por si só justificaria a maior das repercussões; realmente as três personagens são indiscutivelmente fora de qualquer dúvida integrantes do alto estamento nacional.

Segundo a mesma fonte, o ex-presidente, que já tomara a iniciativa de promover a reunião, dirigindo-se ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, com uma finura de dar ciúmes ao Itamaraty, sustentou sem meias palavras a inconveniência de realizarem-se as eleições municipais antes do julgamento do processo criminal conhecido como mensalão. Não é preciso dizer que a liberdade que se autoconsentiu o ex-presidente chocaria um frade de pedra. Como é sabido, há coisas que podem ser pedidas a um juiz e há coisas que não podem, em caso algum, ser objeto de um pedido a um magistrado. Dir-se-á que o ex-presidente não tem formação jurídica, mas é um ex-presidente e isto bastaria para que ele, como qualquer pessoa sabe, que há coisa que um ex-presidente não pode fazer. O decoro inerente a quem exerceu o mais alto cargo da nação inibe certas liberdades que qualquer pessoa, mesmo a mais modesta, em sã consciência sabe, que não pode praticar.

Mas o que aumenta de maneira formidável a indecência da proposição é que a indecorosidade foi ainda mais longe, na medida em que o mesmo ex-titular da Presidência da República se permitiu anunciar ao ministro Gilmar Mendes que tinha o “controle” sobre a CPI, recém criada pelo Congresso, e que teria condições de “blindar” a pessoa do ministro aludindo a viagem que fizera a Berlim com a participação suspeita do esquema contraventor que hoje ocupa a mídia nacional. O ministro que teria sido alvejado diretamente pelo ex-presidente, sempre pela mesma fonte, replicou que ia a Berlim como o seu generoso e solícito protetor ia a São Bernardo, e que fizera a viagem, custeada com recursos seus como poderia demonstrar e veio fazê-lo, até porque em Berlim reside uma filha.

Esse aspecto parece ser de todos o mais grave, porque no fundo deste estratagema ressaltam os elementos de um delito e não pode recomendar, como não recomenda, a sua utilização por quem, em certo momento, foi portador das insígnias nacionais. O caso tem outros aspectos, igualmente graves e constrangedores, também aludidos na matéria, mas que me abstenho de aflorá-los pelas limitações que o espaço me impõe. Não posso deixar, porém, de observar que o ex-presidente da República e o dono do escritório não confirmaram os mencionados oferecimentos apontados pelo ministro Gilmar Mendes.

Mas o que me parece particularmente sugestivo é que ambas as personalidades não disseram uma palavra do que fora tratado na reunião de 26 de abril. Afinal de contas, dada a eminência de seus participantes, não é de admitir-se que houvessem se reunido para uma rodada de canastra, tratar da escalação da Seleção Brasileira ou dos desafios da Copa. Já que a proposta indecente, confirmada pelo ministro Gilmar Mendes, não mereceu a confirmação dos outros convivas do encontro, não estariam eles na contingência de levar ao conhecimento da nação a sua versão do que lá foi tratado?

Artigo publicado originalmente pelo jornal Zero Hora.

Paulo Brossard é advogado, ex-deputado federal, ex-senador, ex-ministro da Justiça e do Tribunal Superior Eleitoral e ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal.

Revista Consultor Jurídico, 6 de junho de 2012, 21h31

Comentários de leitores

5 comentários

Mas que coisa, mesmo!...

Richard Smith (Consultor)

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Então, como comentei logo abaixo, existe uma categoria de pessoas, inocentes-úteis (será?) que são incapazes de um julgamento independente e precisam desesperadamente ser orientados pela "verdade" semanal constante dos manuais e boletins emitidos pelo Diretório ou pelos "gurús" do PIG ("Partido da Imprensa Governista", também conhecido como JEG e pelos blogs da BESTA - "Blogosfera Estatal").
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A potoca acerca do Diretor Reginal de Brasília da VEJA, o sério e competente jornalista Policarpo Júnior, foi espalhada pelos bolgs da BESTA: o jornalista seria um espécie de pau-mandado de Cachoeira que espalharia MENTIRAS criadas por este contra pessoas PROBAS e HONESTAS, porém seus desafetos. Tais "fofocas sem fundamento" derrubaram nada menos do que CINCO ministros ladrõezinhos e expuseram o obsceno beija-mão de autoridades num quarto de hotel escondido, aonde funcionava o verdadeiro GOVERNO PARALELO do Brasil, exercido pelo CHEFE DE QUADRILHA, o ex-guerrilheiro de boteco e festim!
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O engraçado que este "conlúio" derruba-ministros foi cuidadosamente combinado com a Dilma também, né?!
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E em apoio à patranha, os blogs" "de serviços" divulgaram aos quatro ventos que haveria mais de DUZENTAS ligações telefônicas entre Policarpo e o Contraventor grampeadas. Todavia, na CPMI, em depoimentos de DOIS delegados da polícia, revelou-se que houve apenas DUAS conversas entre ambos e mesmo assim sobre fatos da investigação jornalística.
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Essa é o tipo de "VERDADE" dos blogs sujos e dos sites "chapa-branca", cujo maior empenho no momento é tentar deter o julgamento do "Mensalão", como todos, até a Velhinha de Taubaté, sabem!
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Mas o PeTralhas "Tarefeiros Partidários" e os PeTelhos inocentes-úteis ficam "repercutindo" tais "verdades"!
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Coitados...

Assunto requentado!

Paulo Jorge Andrade Trinchão (Advogado Autônomo)

O ex-ministro foi na onda de uma revista que - pelo visto - perdeu a credibilidade de informar com seriedade e responsabilidade aos seus leitores. Neste desiderato, qual, efetivamente, a reserva moral e ética da Veja? Quem acredita nos conluios engendrados pelo famoso Policarpo a a famosa "cachoeira"? Talvez, o ex-minsitro e alguns simpatizantes da balbúrdia.

Mas que coisa!...

Richard Smith (Consultor)

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De fato, fica provado que o PeTralhismo ou o não menos grave PeTelhismo inocente-útil se constituem numa verdadeira "categoria de pensamento" (se é que podemos imaginar que esta gente "pensa", fora de slogans esculhambatórios e "verdades" divulgadas pelos boletins do diretório do partido, divulgados semanalmente).
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O Eminente ex-Ministro da Justiça e ex-Ministro do STF, homem dono de vastissima formação juridica e irreprochável condição moral, teria um defeito: ser do PSDB (?!) e portanto, como tal (se assim o fosse) jamais poderia ser contado entre os capazes de emitir um juízo com conhecimento de causa acerca de um assunto de interesse nacional. Pasmem!
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Depois, a "Anta lambançeira" (e que lambança, hein?!) ATÉ AGORA NÃO CUIDOU DE DESMENTIR PEREMPTÓRIA E PESSOALMENTE OS FATOS NARRADOS, notaram? Ao invés de simplesmente aparecer em público e, como um dos protagonistas da tal conversa, DESMENTIR simplesmente o que foi dito pelo Min. Gilmar Mendes, preferiu escafeder-se e divulgar um nota através de seu "instituto" como "pessoa jurídica" e não como pessoa física".
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É porque o indivíduo embora seja desprovido de senso moral e de superego, tem uma rara inteligência política e sabe QUE PARA TUDO HÁ LIMITES! Surpreso com a coragem do Exmo. Ministro, percebeu que um desmentido cabal sinificaria chamá-lo de MENTIROSO, o que, dadas diversas condições, inclusive o temperamente deste, poderia resultar em algo muito pior do que o verdadeiro "Tiro-no-Pé" desfechado contra sí próprio na tão desastrada quanto debochada "lambança".
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Discordei muitas e muitas vezes do Exmo. ex-ministro Brossard nos seu votos, os quais achei às vezes "liberais" demais, fruto de um certo viés de "esquerda" que contamina o vivente, mas nunca de sua honestidade!

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