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Pool de butiques

Firmas ad hoc permitem um crescimento flexível

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No calor da crise econômica americana, muitos advogados que tinham planos de transformar sua firma butique em firma de maior porte, para ter acesso mais amplo ao mercado das grandes corporações, se sentiram atormentados pelas notícias de que grandes bancas estavam enfrentando sérias dificuldades para sobreviver em tempos de vacas magras. Muitas delas estavam dispensando advogados e enxugando, como podiam, suas estruturas. De repente, os planos de fazer investimentos significativos na ampliação de toda a estrutura da firma ficaram na contramão dos indicadores econômicos. 

Mas, alguns advogados vislumbraram uma solução alternativa: criar um pool de butiques e de firmas pequenas para concorrer com as firmas de médio e grande porte, sempre que um caso grande demandasse o trabalho de um grupo de advogados, de especializações diferentes. Casos tão complexos que, isoladamente, nenhuma delas poderia encarar, a não ser que juntassem forças, temporariamente. Terminada uma empreitada, cada uma voltaria a ser a firma butique que sempre foi. Até a próxima empreitada. A esse projeto, eles deram o nome de "firmas de advocacia ad hoc" — firmas que são criadas virtualmente apenas para um fim específico. 

Rede de relacionamentos
Para a criação dinâmica de firmas ad hoc é preciso, primeiramente, montar uma rede de relacionamentos entre advogados de firmas butique (especializadas), de firmas pequenas (com algumas áreas de atuação) e de advogados autônomos especializados, explica o americano Andrew Greene, da Johnston Greene. Ele criou uma pequena infraestrutura, que chama de "The Chicago Business Law Network" apenas para lidar, de forma bastante ágil, com a formação de firmas ad hoc, sempre que a firma pretendesse fazer uma proposta de trabalho para uma grande empresa, que tem uma questão jurídica de grande porte para resolver. 

"É uma rede de relacionamentos em que os advogados vêm a conhecer as especializações, a competência e a capacidade de trabalho de seus colegas", diz. Normalmente, a rede conta com advogados que deixaram grandes bancas para fundar sua própria firma butique ou para a prática "solo". Eles têm um bom conhecimento do mercado, já se relacionaram com grandes clientes e a colaboração deles é sempre fundamental para conseguir trabalho de peso. O advogado Patrick Richards, por exemplo, deixou a McDermott Will & Emery, uma grande banca, "porque queria escapar da burocracia". Fundou sua pequena firma e se integrou à rede de Greene. 

"Na verdade, é uma opção que você faz entre a burocracia e a adhocracia", diz o advogado Chuck Newton, do Texas, que escreve sobre "A Terceira Onda da Prática da Advocacia", em referência a esse sistema. Os advogados podem optar por uma estrutura pesada das grandes bancas ou por uma estrutura flexível, que só cresce quando há trabalho para todos. 

Segundo Chuck Newton, montar equipes dinâmicas, rapidamente, não é uma coisa que se aprende na faculdade de Direito. Mas é preciso aprender, porque "o futuro pertence aos rainmakers". Para ele, o modelo de negócios da firma ad hoc combina o melhor de dois mundos: a especialização da firma butique com as garras das grandes firmas para se lançar ao mercado. 

Tecnologia
Outro elemento importante na rede de relacionamentos das firmas ad hoc é a tecnologia, diz o advogado Todd Flaming, que tem uma firma com apenas dois sócios, mas se integrou perfeitamente a esse novo sistema. "Não é necessário nenhum software especial para começar. Você pode se comunicar por e-mail, telefone, redes sociais e videoconferência, para estabelecer uma conectividade virtual", diz. "Hoje não estamos mais confinados ao mundo das pequenas empresas e das causas de menor porte", afirma Flaming, cuja parte na atuação das firmas ad hoc é cuidar do contencioso. 

"Mas é possível sofisticar tecnologicamente o processo com o tempo", explica Andrew Greene, que criou uma plataforma para integrar os advogados de sua rede. "Nosso plano é desenvolver tecnologia para compartilhar informações entre os advogados de diversas firmas atuando na firma ad hoc, permitir ao cliente rastrear o progresso do trabalho e também fazer pagamentos através de uma única fatura, não de múltiplas faturas", afirma. 

A firma Clearspire foi mais longe: desenvolveu um software patenteado, caro e sofisticado, para, em princípio, eliminar os altos custos de um escritório bem montado no centro de Washington, D.C., e o sistema de honorários baseados em hora trabalhada. O "Coral" tem ferramentas de gestão de documentos e da prática, capacidades de videoconferência pela internet e outros recursos que o tornaram perfeito para firmas ad hoc. Por exemplo, o software produz fotos que mostra aos advogados se seus colegas estão em frente ao computador, ao telefone ou ausente do escritório. 

Há vantagens para os clientes — entre os quais se incluem as assessorias jurídicas de grandes organizações — que contratam os serviços jurídicos de firmas ad hoc, diz Flaming. Uma delas é a de que as assessorias jurídicas têm mais controle sobre todo o processo e sabem exatamente que advogados vão representar a empresa em um determinado caso. Outra vantagem é a de que os custos são sempre menores. 

O modelo de negócios das empresas de advocacia ad hoc difere do modelo de negócios introduzido nos EUA pela Axion, que contrata advogados autônomos, que trabalham de casa, por empreitada — é um sistema de free-lancing. As firmas ad hoc, por sua vez, são formadas por parcerias entre firmas de advocacia, temporariamente.

 é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Revista Consultor Jurídico, 9 de julho de 2012, 8h50

Comentários de leitores

2 comentários

O misoneísmo brasileiro impede nossa evolução. (1)

Sérgio Niemeyer (Advogado Sócio de Escritório - Civil)

Firmas «ad hoc» não passam de simples SPEs (sociedades de propósito específico).
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O que impede os advogados de se associarem com o propósito específico para atuarem em conjunto num grande caso complexo é a enorme burocracia para constituir uma sociedade de advogados e algumas disposições retrógradas fundadas num conservadorismo ultrapassado e impostas pela OAB, como por exemplo a impossibilidade de advogados serem sócios de dois escritórios na mesma localidade.
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No caso de uma SPE, profissionais de diversas áreas especializadas do direito constituiriam uma parceria para atenderem um caso ou um cliente específico em razão da complexidade encerrada pela situação jurídica em questão sem, contudo, constituírem escritório. Ao contrário, cada associado manteria seu próprio escritório, ou continuaria como profissional liberal. Porém, quanto ao propósito específico da parceria agiriam em conjunto, justificando a constituição da SPE.
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Rigorosamente, não vejo nenhum problema nisso. Acho até salutar. Garante a excelência do trabalho de advocacia pela união de esforços de vários profissionais. Além disso, tal possibilidade parece-me parelha com as exigências da dinâmica do direito moderno, cada vez mais especializado, e assegura maior equilíbrio e harmonia na competição que medra no mercado de trabalho advocatício.
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(CONTINUA)...

O misoneísmo brasileiro impede nossa evolução. (2)

Sérgio Niemeyer (Advogado Sócio de Escritório - Civil)

(CONTINUAÇÃO)...
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É preciso lutar para mudar o quadro atual e passar a admitir a possibilidade de os advogados, independentemente de já terem seus escritórios constituídos sob a forma de sociedade de advogados, poderem participar também de SPEs com outros advogados, sócios de outros escritórios ou simples profissionais liberais. A verdade é que na prática isso já acontece, e muito, mas é melhor que se possa formalizar, já que a formalização atrai benefícios fiscais e distribui melhor as responsabilidades em benefício do próprio cliente.
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(a) Sérgio Niemeyer
Advogado – Mestre em Direito pela USP – sergioniemeyer@adv.oabsp.org.br

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