Consultor Jurídico

Artigos

Você leu 1 de 5 notícias liberadas no mês.
Faça seu CADASTRO GRATUITO e tenha acesso ilimitado.

Cezar Peluso, o juiz

Foi meu pai quem me ensinou, e ensina, a ser juiz

Por 

“Que incalculável riqueza é, mesmo entre os pobres, ser filho de um bom pai!” (Aleman)

Difícil se me mostra dar depoimento sobre meu pai, pois, de certa maneira, é também dar depoimento de minha própria vida e, como quem sai aos seus não degenera, também sou avesso à exposição pública da vida privada; entretanto, a especial ocasião merece exceção.

Falar do homem, pai, professor e magistrado Antonio Cezar Peluso é, paradoxalmente, tarefa fácil, pois estamos a falar de pessoa única, que incorpora e vive, como ninguém, todas estas dimensões, da maneira o mais exemplar e completa possível.

Ao remexer a gaveta de minhas lembranças, dentre tantas passagens, lembro-me de duas que especialmente me marcaram e que traduzem a pessoa de meu pai.

Lembro-me de que todas as vezes em que o procurava para esclarecer dúvidas universitárias ou profissionais, a resposta era sempre a mesma: “O que você estudou sobre o assunto ? O que você entendeu dele ? Qual a resposta que você acha mais correta?”. Diante da resposta – geralmente errada –, indicava-me livros e dizia: “Leia e estude. Depois, me diga o você acha e, se a dúvida continuar, voltamos a conversar...”. E o processo assim continuava até a certeza do bom e correto entendimento. Aliás, ainda continua.

Também me lembro, no início do 4o ano da faculdade de direito, quando de minha decisão em iniciar seriamente os estudos para prestar concurso de ingresso na carreira da magistratura, de invadir furtivamente seu sagrado espaço – o escritório em nossa casa – e lhe confidenciar minha decisão, pedindo sua ajuda e orientação. De maneira calma – digna de alguém que não se surpreendeu minimamente com a notícia –, olhou-me e placidamente sugeriu: “Pra começar, pegue o primeiro volume daquela obra – apontando-a na estante e, antes de dormir, vá lendo como se fosse livro de literatura, sem compromissos e preocupações...”. Todo empolgado, fui até a estante e apanhei o volume. Era o 1o volume do Tratado de Direito Privado, de Pontes de Miranda. O primeiro de série de 60 (sessenta) portentosos volumes! Sem comentários.

Tais passagens traduzem ínfima parte dos ensinamentos e do legado a serem deixados por meu pai; o homem, o pai, o professor e o magistrado Antonio Cezar Peluso.

Ensinou-me, com seu vivificador exemplo prático, que, em qualquer situação – pessoal ou profissional –, jamais se deve analisar os fatos e as questões da vida apenas pela superfície; tudo deve ser meticulosamente esquadrinhado; deve ser buscada apaixonadamente a raiz, as causas e as razões mais profundas e nunca aceitar passivamente a solução mais fácil, menos trabalhosa ou mais popular; não abandonar o correto trajeto por se mostrar o mais acidentado e difícil; ouvir e aprender com os mais sábios; ser intelectualmente independente e responsável pelas decisões a serem tomadas, após cuidadoso estudo e análise; não se deixar influenciar por fáceis – e geralmente falsos – elogios, por soberba ou falsa modéstia, nem por críticas irresponsáveis; amar profundamente o que faz e sempre reta e seriamente fazer o melhor possível; não se tornar intransigente ou cego e surdo ao novo, mas sem ignorar seus valores e sua consciência; respeitar o próximo e tentar entendê-lo; estar sempre aprendendo e evoluindo como homem e ser humano.

Hoje, como homem, pai, professor e magistrado, espero que minhas filhas também olhem para trás e, da mesma forma, cheguem à mesma conclusão a que cheguei: pai, você é meu heroi!

 é juiz de Direito em São Paulo

Revista Consultor Jurídico, 19 de abril de 2012, 13h46

Comentários de leitores

4 comentários

Vinícius Peluso: Foi meu pai quem me ensinou, e ensina, a se

Tesabojo (Advogado Autônomo - Tributária)

"se não podes falar algo que construa, cala-te".
César, imperador romano em "De Bello Galico" disse: "Alea iacta est".
Parafraseando: "Petra iacta est". O comentário "Meu pai era açougueiro" atingiu o fim colimado.Calei.
Cx. 24/04/2012.

EDUARDO ELIAS (advogado e professor universitário)

Eduardo Elias (Advogado Associado a Escritório - Criminal)

Meu pai, comerciante dedicado e honesto, maior e mais importante herança que recebi, sempre me dizia algo do gênero: "se não podes falar algo que construa, cala-te". A manifestação de Vinicius Peluso é a manifestação pura e que edifica a referência como paradigma familiar e profissional. Não temos o Direito de confrontar essa elogiável manifestação. A não ser como Desembargador e Ministro, paradigmático, não tive a honra e o privilégio de conhecer o CEZAR PELUSO. Mas, por outro lado, tive a honra e o privilégio de conhecer, em poucas oportunidades, o Juiz Vinícius Peluso. Definitivamente um exemplo de dignidade, ombridade, independência e soberania que honra a Toga Paulista. É um enorme início para indentificar a grandeze de seu pai. Caso me permita o Dr. Vinícius, gostaria de ter como minhas as suas palavras, para registrar o quanto amei e admirei meu pai.

Bom para o STF e CNJ

Alves Alencar (Advogado Autônomo)

Engraçado, os familiares foram os únicos a elogiarem a pessoa do então presidente do STF, afora aqueles que o fizeram por mera cordialidade e diplomacia. Vai com DEUS

Ver todos comentários

Comentários encerrados em 27/04/2012.
A seção de comentários de cada texto é encerrada 7 dias após a data da sua publicação.