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Perda no Direito

Morreu Washington Albino Peluso de Souza

Morreu na sexta-feira (19/6), às 23h, o professor e jurista Washington Albino Peluso de Souza. Ele tinha 94 anos e era diretor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele estava à frente da Revista da Faculdade de Direito até sua hospitalização, há duas semanas.

Albino foi o criador, em 1972, da cadeira de Direito Econômico no Brasil, na UFMG, da qual também foi o primeiro professor. Sua última contribuição acadêmica para o tema, que tratava da “juridicização do planejamento econômico”, foi escrita 30 anos antes de os primeiros estudos terem sido publicados nos Estados Unidos e na Europa.

Ele foi secretário da Fazenda de Belo Horizonte no governo de Américo Gianetti (1951-53) e presidente da Fundação Brasileira de Direito Econômico, sendo um de seus fundadores, em 1972.

Mineiro de Ubá, entrou na Faculdade de Direito da UFGM em 1933 e, em 38, já era professor de Economia Política na Universidade. Em 1942, obteve os títulos de Livre Docente, Doutor e Titular. Após o golpe de 1964, que instaurou Ditadura Militar no Brasil, Souza passou a sofrer perseguições e ameaças, o que o obrigou a se mudar para a França e se tornar professor de diferentes universidades locais.

Como jornalista, Washington Albino trabalhou nos Diários e Emissoras Associados de Belo Horizonte, na Rádio Inconfidência e no jornal Diário do Comércio.

O advogado Eros Grau afirmou: "Seu modo ser, barroco, diluiu-se. Já não se vê o horionte que Washigton ensinou-nos ao nos trazer, há quarenta anos, a Tiradentes". E ainda: "Ensinou-me o Direito Econômico, que um professor da Faculdade de Direito da UFMG dizia ser "o Direito do Washington". Mais importante para a nossa existência, ensinou-nos a fraternidade mineira".

Veja a íntegra da declaração de Eros Grau:

Washington Albino se foi

Contemplo a linha do horizonte de repente reta, discreta. Como se estivesse em mar alto. Não existe mais, no horizonte, a serra de São José. Seu modo ser, barroco, diluiu-se. Já não se vê o horionte que Washigton ensinou-nos ao nos trazer, há quarenta anos, a Tiradentes. Sua ausência transtorna o horizonte.
Ensinou-me o Direito Econômico, que um professor da Faculdade de Direito da UFMG dizia ser "o Direito do Washington". Mais importante para a nossa existência, ensinou-nos a fraternidade mineira. Amigos como o professor Orlando de Carvalho e dona Lourdes. Ronaldo Cunha Campos, Ariosvaldo.

Apresentou-nos a Minas. O "chinesismo", dizia, de Sabará. Congonhas. O velho Caraça. Vinha a Tiradentes com o neto, Ricardo, e um cachorro amarrado em uma corda. Um dia corremos todo São João del Rei à procura de bolinhos de feijão. As viagens com ele eram sempre longas, todos os arredores dos caminhos de Minas visitados, cada pequena estória e cada desvio da Historia palmilhados. Sua casa, na serra de BH, um mundo que Washington inventou, no qual não alcançávamos os livros, os livros nos alcançavam.

Foi-se o nosso Amigo. Contemplo a linha do horizonte de repente reta, vazia na sua ausência, um momento depois, contudo, recomposta. À imagem e semelhança da que os emboabas e os inconfidentes divisavam, tal como ele nos ensinou. Desde o momento da sua partida, no entanto, a serra parecia ter mudado ou não haver mais, qual na Poesia. Foi-se o Amigo que nos deu Tiradentes e Minas de presente. Há de ter sido recebido com sorrisos de carinho pelos anjos, os anjos barrocos do Washington.

Revista Consultor Jurídico, 20 de junho de 2011, 12h41

Comentários de leitores

1 comentário

CUMPRIU SEU LEGADO

HERMAN (Outros)

Após aprovação em concorrido vestibular, entrei na Universidade Federal de Minas Gerais, era muito jovem, sem nenhuma experiência jurídica, não tinha idéia da grandiosidade cultural das pessoas que aos poucos ali ia conhecendo. Com elas conhecia também os mitos, um mito, em 1982, sem dúvida era o professor Washington Albino, também chamado pelos alunos de Prof. Alba, sempre disposto a ensinar e explicar com simplicidade teses, para nós, complexas à época. Na sala dos Professores na Faculdade Affonso Arinos (Faculdade de Direito da Universidade Federal de BH, no Centro da cidade, fora do Campus), ele sempre era o foco de atenção contemplado pelos outros professores, uns antigos e outros chegando, mas, todos a ele se dirigiam de modo reverencial. Tive o privilégio de ser um de seus alunos, sem me esquecer dos outros professores que sempre me recordo e que estão a dar exemplo até hoje. Posso citar sem nenhum esforço mental os Professores Salgado (com ele aprendi o que era sanção), Ariosvaldo (com ele aprendi o que era legítima defesa da honra), Misabel (aprendi a diferença entre tributo, imposto e contribuição de melhoria), Manuel Costa (aprendi o que é o texto dentro de um contexto), Juarez (aprendi direito penal e muito sobre culturas religiosas em geral), Silveira Neto (direto constitucional) entre outros que me ensinaram o significado inicial da essência do direito. Fiquei enaltecido em saber que o Ministro Eros Grau foi seu amigo, existe uma dívida de gratidão minha incomensurável a ele. Tenho excelentes recordações do início da minha vida acadêmica e, sem dúvida, aquelas aulas, em especial do Professor Albino, são para mim um marco inicial. Siga agora Professor, por entre o mar verdejante das sementes que semeou por quase um século.

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