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Ideias do Milênio

"Primavera Árabe entra em nova etapa com a internet"

Entrevista de Gilbert Achcar, pesquisador e professor na Escola de Estudos Orientais e Africanos na Universidade de Londres, ao jornalista Silio Boccanera, transmitida no dia 30 de novembro no programa Milênio, da Globo News. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30 de terça; 5h30 de quarta; e 7h05 de domingo. Leia, a seguir, a transcrição da entrevista:

A chamada Primavera Árabe se espalha pelo Norte da África, invade o Oriente Médio, faísca na Península Arábica. Ditaduras de longa duração já caíram na Tunísia, no Egito e na Líbia. É grande a expectativa do que possa ocorrer na Síria, onde se agrava a repressão do governo contra protestos populares nas ruas, com o saldo de mortos já passando de 3 mil. No Iêmen, a revolta nas ruas chegou a forçar o ditador para fora do país, mas ele voltou e o conflito prossegue. Já ocorreram manifestações antigovernamentais na Arábia Saudita, em Bahrein, no Golfo. Os palestinos se inquietam em mais uma fase de sua longa luta por reconhecimento como estado sem o domínio e a ocupação de Israel. As redes sociais facilitam a mobilização de manifestantes, a alta tecnologia a serviço da forma mais antiga de protesto: o povo sublevado na rua. Forças políticas diversas tentam controlar o movimento revolucionário no mundo árabe desde radicais islâmicos a muçulmanos moderados e ativistas conservadores. Os que lutaram unidos contra os ditadores agora lutam entre si pelo poder. Gilbert Achcar observa e analisa o que se passa com base em seu posto de observação na Universidade de Londres, onde dá aulas na Escola de Estudos Orientais e Africanos. Nascido no Senegal, educado no Líbano e na França, Achcar escreveu vários livros e artigos sobre o mundo árabe, a Palestina, o Islã, o papel das grandes potências. Ele viaja pelo mundo em conferências. A mais recente em Minas Gerais. Antes da nova fase da revolução no Egito, desta vez contra o exercito, e antes das primeiras eleições legislativa sem ditadura, o Milênio foi conversar com Gilbert Archcar na casa dele em Londres.

Silio Boccanera — Um dos aspectos evidentes dessa rebelião árabe é que os movimentos não parecem ter líderes claros. Nem algumas figuras de destaque. Nisso, difere de revoluções tradicionais até mesmo no mundo árabe, onde tivemos Nasser e o próprio Kadafi. Não há Lênin, Mao ou Fidel, mas os movimentos continuam. Isso seria um novo aspecto? Uma nova tendência?
Gilbert Achcar —
Certamente, em um certo sentido. Isso é fruto da falta de liderança tradicional que tínhamos no século 20, por exemplo, sem voltar mais no passado. Essas forças políticas organizadas, sejam nacionalistas, populistas ou esquerdistas radicais, comunistas, todos esses movimentos sofreram várias crises e eventual declínio, especialmente no mundo árabe. Eu diria que isso se aplica à maior parte do mundo. Portanto, há um espaço e um potencial para protesto, que têm sido ocupados por esses movimentos de cunho popular que se comunicam através de novas tecnologias, que são perfeitas para isso. Oferecem essa capacidade. A internet já é um exemplo disso. Isso se manifesta na ascensão do Global Justice Movement, que, afinal, nasceu oficialmente em Porto Alegre, no seu país. Além disso, temos os Fóruns Sociais Mundiais, que são compostos primeiramente por pequenos grupos, mas também sindicatos e grandes forças políticas. Enfim, a maioria dos elementos são pequenas ONGs e redes, que costumam fazer uso intenso de tecnologias modernas, como a internet e afins. Portanto, vemos uma nova etapa. Naturalmente, isso pode funcionar desde que o povo organize manifestações e desde que isso ocorra em países onde manifestações podem derrubar governos. Foi o caso na Tunísia e no Egito. Porém, vemos as limitações do processo quando passamos à Líbia, por exemplo, ou à Síria atual. Analisando a Síria, vemos o problema desse processo sem líder, como você descreveu. Enfrentado um governo centralizado que não sairá de cena pacificamente, é preciso ter uma estratégia centralizada. Requer uma estratégia traçada, e isso não existe.

Silio Boccanera — Essa segunda fase, a tentativa de criação, parece muito complicada. Não há instituições locais, com exceção de um punhado na Tunísia. Enfim, é muito difícil construir algo novo após a remoção dos ditadores.
Gilbert Achcar —
Existem instituições. Na Tunísia, naturalmente, o que vemos atende exatamente às exigências do movimento por uma assembleia constituinte, e esse processo está em andamento. Nesse sentido, eu diria que tem sido o processo com menos complicações e o mais bem sucedido na região até agora, na implementação de uma transição à democracia. Veremos o resultado. É lógico que isso não resolve a questão social. A transformação democrática é uma coisa, com a democratização...

Silio Boccanera — Precisam criar instituições e um sistema jurídico.
Gilbert Achcar —
Sim, mas isso não trata do problema social. Isso tem sido o verdadeiro combustível, o ingrediente explosivo por trás da situação inteira. O desemprego, a pobreza e tudo o mais. Essa é a grande questão. De qualquer forma, o movimento continuará. Acredito que este é só o começo de um longo processo revolucionário.

Silio Boccanera — Esse é o caso da Tunísia.
Gilbert Achcar —
Certo.

Silio Boccanera — Por outro lado, fale do exemplo egípcio.
Gilbert Achcar —
Em termos de instituições, há mais continuidade no Egito do que qualquer outro lugar. Muito mais até do que na Tunísia.

Silio Boccanera — As instituições antigas e corruptas.
Gilbert Achcar —
O regime na Tunísia não foi uma ditadura militar. A história do regime, desde a independência do país, era baseada em instituições civis. Na ascensão do ditador Ben Ali, as forças de segurança tiveram um papel importante, mas, basicamente, a identidade do regime continua ligada às raízes do governo civil. Portanto, a transição parece ser muito natural. Por outro lado, o Egito tem uma tradição de governos militares. Tem sido assim desde os anos 50, quando os militares tomaram o poder. Continuam no poder até hoje. Mubarak é o produto do sistema militar. Nasser, Sadat e Mubarak são todos militares.

Silio Boccanera — Eles estão fora, mas o exército continua lá.
Gilbert Achcar —
Mubarak está fora, junto com sua família, mas quem assumiu o poder no Egito? A junta militar. O alto comando das forças armadas. Eles governam o país. Portanto, nesse sentido, o que se conquistou no Egito é bem menos do que na Tunísia.

Silio Boccanera Você diria que o potencial de guerra civil é maior na Líbia do que em outros lugares, com as diversas facções em conflito na região?
Gilbert Achcar —
Esse potencial existe devido a divisões regionais e divisões tribais, mas não devemos exagerar o impacto desses fatores na situação. Porém, ao meu ver, mais do que uma guerra civil, a perspectiva do país tende para a anarquia. Não lutarão entre si necessariamente, mas a questão é se conseguirão restabelecer um governo central no país, ou se levarão à descentralização.

Silio Boccanera — O movimento líbio teve uma característica específica que o distinguiu daqueles no Egito e na Tunísia. Foi a participação da Otan. Supostamente só para proteger os civis, mas, na realidade, teve um papel mais ativo. Esse modelo leva a duas perguntas. Primeira: eles teriam conseguido vencer sem isso? Teriam deposto Kadafi sem essa ajuda? Segunda: esse modelo seria aplicável a outras revoltas árabes?
Gilbert Achcar —
Começo com a primeira. Será que teriam vencido? Acho que não. Está claro que, sem a intervenção da Otan, além de não vencerem, eles teriam sido esmagados. Ele já tinha iniciado sua contra-ofensiva. Havia bolsões de rebelião pelo país, com o maior em Banghazi, naturalmente. Misrata no oeste, e Benghazi no leste. Dada a disparidade total de recursos militares entre as forças de Kadafi e os rebeldes, ele teria esmagado a oposição sem dificuldade. Acredito que essa realidade era reconhecida até pelos próprios líbios. Por que outro motivo o povo de Benghazi pediria proteção internacional? Elas sabiam que não poderiam superar aquela repressão com os meios a seu dispor. Agora, vamos ao outro aspecto do problema. Eles não teriam vencido sem algum forma de ajuda externa. Naturalmente, uma forma foi a intervenção da Otan, mas outra forma possível seria armar a rebelião, como pediram. Eles pediram armas. Se tivessem recebido os armamentos que pediram, podemos imaginar que eles teriam travado sua guerra até conquistarem alguma forma de vitória. Enfim, permanece em aberto, mas isso também seria uma pré-condição para obter algum resultado. Analisando os recursos disponíveis a eles, era impossível devido à natureza do regime.

Silio Boccanera — Voltamos à pergunta. Esse modelo seria aplicável em outros lugares? Na Síria?
Gilbert Achcar —
Voltarei a isso, mas vamos comparar a Líbia ao Egito e Tunísia. Na Tunísia e no Egito, as instituições estatais principais, como as forças armadas, por exemplo, não serviam somente como guarda particular para preservar o governo do ditador. As forças têm história prévia, e, portanto, história futura também. É possível imaginar o ditador saindo de cena enquanto o aparato estatal continua em existência. Na Líbia, Kadafi havia dissolvido o exército do país, trinta anos atrás, após certas tentativas de golpe contra ele.

Silio Boccanera — Era um exército particular com milhares de agentes.
Gilbert Achcar —
Foi transformado. Seja qual fosse o título daquelas forças armadas, elas eram bem armadas e bem pagas, mas serviam como uma guarda pretoriana para a família no poder, os Kadafi, e eram comandadas pela família. Os filhos de Kadafi lideravam unidades cruciais. Membros de sua tribo também foram incorporados. Toda a estrutura tinha uma base tribal. Além disso, essas forças contratavam mercenários. Enfim, ele construiu uma força armada ligada de forma completa e orgânica a seu regime e à família no poder. Portanto, seria impossível imaginar o cenário tunisiano ou egípcio replicado na Líbia. O regime precisava ser derrubado à força. Precisava ser derrotado. Suas forças armadas precisavam ser vencidas. A questão da rebelião é que a posição dos rebeldes era de pouca vantagem em termos militares devido à natureza dessa disparidade. É por isso que eles poderiam ter sido esmagados.

Silio Boccanera — Eles tiveram sucesso graças ao apoio da OTAN.
Gilbert Achcar —
Poderia ter sido um massacre.

Silio Boccanera — Voltando à outra questão, como seria na Síria?
Gilbert Achcar —
A Síria tem algo em comum com a Líbia. O fato de que suas forças armadas... Digamos que o núcleo de suas forças armadas seja composto por uma guarda pretoriana do regime. Ou seja, as unidades especiais, as mais bem treinadas e bem armadas, têm base sectária. Todos sabemos dessa estrutura sectária na Síria. A camada no poder é dominada por uma minoria, os alauitas. Novamente, nesse caso, o irmão de Bashar Al-Assad lidera uma das unidades cruciais das tropas de elite mais envolvidas na repressão. Então, esse núcleo das forças armadas é ligado organicamente à família no poder. Portanto, nenhum cenário tunisiano ou egípcio seria possível na Síria. A família Assad sairia de cena simplesmente. Vemos cada vez mais confrontos entre dissidentes do exército e as forças armadas.

Silio Boccanera — Você vê intervenção externa, como no modelo da Otan? Com apoio a grupos específicos?
Gilbert Achcar —
Acho que o modelo da OTAN não pode se aplicar à Síria. A situação no país é muito diferente. Por um lado, não existe aquele cenário que levou à intervenção na Líbia, onde havia uma cidade sob controle completo da rebelião, enquanto as forças armadas avançam rumo à cidade ameaçando esmagar todos.

Silio Boccanera — O caso é mais nebuloso.
Gilbert Achcar —
Certo, não é igual. Considere a geografia. Na Líbia, existem cidades. Entre elas, há grandes áreas desertas. Portanto, é possível isolar as cidades. Na Síria, a densidade populacional é muito maior.

Silio Boccanera — É mais urbanizada.
Gilbert Achcar —
Sim. Por esse motivo, a capacidade de atacar forças da forma usada na Líbia, com perdas civis relativamente mínimas, é algo que não existe na Síria. Qualquer intervenção na Síria resultaria em um número muito maior de perdas civis. Na verdade, seria um grande erro se qualquer força externa decidisse intervir e atacar o exército. Isso nem leva em conta o fato de que o exército sírio tem mais recurso do que o líbio devido ao conflito com Israel. Por isso, eles têm maior capacidade antiaérea, entre outras coisas. Naturalmente, além disso, a Síria é parte de uma aliança regional. Enfim, com a situação em questão, eu diria que os riscos para uma intervenção são muito maiores. Acho que a própria OTAN está ciente disso. Não há inclinação alguma.

Silio Boccanera — Vão esperar quietos até as forças internas definirem o rumo da situação. As forças internas na Síria ditarão os vencedores.
Gilbert Achcar —
Sim, mas o que digo é que as capitais ocidentais não demonstraram entusiasmo pela ideia de intervenção na Síria. Primeiramente, um dos incentivos principais da intervenção na Líbia foi o valor do país como potência petrolífera. Para a OTAN, foi uma intervenção relativamente sem risco, pois o regime líbio estava isolado. Mesmo no mundo árabe, o regime líbio estava isolado. Por outro lado, na Síria, qualquer intervenção inflamaria a região inteira.

Silio Boccanera — Teriam o apoio do Irã.
Gilbert Achcar —
Do Irã, Iraque e Líbano.

Silio Boccanera — Diria que a influência do Ocidente, sejam os Estados Unidos ou antigas potências coloniais, está em declínio no mundo árabe?
Gilbert Achcar —
A influência americana entrou em declínio a partir da confusão no Iraque e, logo, a vitória sobre o Iraque. Agora, atinge seu ponto mais baixo através da desestabilização de aliados americanos vitais, como o Egito, especialmente, além dos países do Golfo. Até a situação na Síria preocupa os Estados Unidos, e Israel também, pois tem desestabilizado a região inteira.

Silio Boccanera — Houve uma certa esperança quando Obama assumiu o poder, com sua nova retórica a respeito do mundo árabe, de que a situação melhoraria para os americanos na região. Você diria que, até agora, tem sido uma decepção?
Gilbert Achcar —
Certamente, e essa decepção se manifestou rapidamente. Logo viram que esse cara não poderia cumprir sua promessa. Além dos discursos, ele não fez nada. Sua administração se mostrou ser impotente no que diz respeito a Israel. O próprio governo israelense...

Silio Boccanera — O ignorou.
Gilbert Achcar —
... quase chegou a provocar a administração Obama. Eu diria novamente que os pequenos parênteses abertos pelos passos iniciais da administração Obama foram fechados rapidamente. Agora, os Estados Unidos veem sua influência na região atingindo um nível muito baixo. E a reação deles... É lógico que, quando se perde terreno, é preciso reconsiderar suas alianças e políticas para tentar negociar com forças existentes que, até aquele ponto, você considerava no lado...

Silio Boccanera — Inimigo.
Gilbert Achcar —
Sim, no lado inimigo ou oposto. É o que os EUA têm feito. Washington iniciou e já implementou uma grande mudança na relação com a Irmandade Muçulmana. Os Estados Unidos, basicamente, exploram sua capacidade de restabelecer a cooperação com essa corrente. Na verdade, restabelecer, pois, até os anos 70, eles chegaram a ter uma colaboração intensa. Nos anos 60, a Irmandade Muçulmana trabalhou diretamente com os EUA, assim como a CIA e outras agências, em conjunto com o Reino da Arábia Saudita, em oposição ao Nasser. Opuseram a onda de nacionalismo esquerdista que tinha o apoio da União Soviética. Agora...

Silio Boccanera — Voltaram à posição original.
Gilbert Achcar —
Nesse sentido, podemos dizer que sim, graças à tentativa de reatar essas ligações. É por isso que a atitude em Washington tem sido mais moderada e aberta em suas reações como no caso da vitória do partido Ennahda na eleição tunisiana e até com antecedência a respeito do possível resultado da eleição egípcia. Dizem que não será problema se a Irmandade Muçulmana sair vencedora. É o que os EUA tentam agora, e é a melhor opção disponível a eles para tentar compensar pela queda vertiginosa de sua influência direta.

Silio Boccanera — Muito obrigado.
Gilbert Achcar —
É um prazer.

Silio Boccanera — É um panorama muito interessante da situação atual no mundo árabe.

 

Revista Consultor Jurídico, 9 de dezembro de 2011, 13h00

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