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Ideias do Milênio

"Os haitianos, apesar de tudo, lutam para viver"

Edwidge DanticatEntrevista da escritora haitiana Edwidge Danticat ao jornalista Jorge Pontual, transmitida no dia 21 de novembro no programa Milênio, da Globo News. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30 de terça; 5h30 de quarta; e 7h05 de domingo. Leia, a seguir, a transcrição da entrevista:

O Haiti só aparece nas manchetes como vítima. O país mais pobre das Américas, 300 mil mortos no terremoto do ano passado, ditaduras sanguinárias, massacres, corrupção, epidemias. Fica difícil lembrar o lado bom do Haiti: primeira nação latino-americana a se tornar independente; primeira rebelião de escravo bem sucedida; e uma cultura afro-americana viva fértil e fascinante como a do Brasil.

Nosso país contribui com milhares de militares para a Força da ONU, que estabilizou o Haiti desde 2004, e eles ainda estão lá. Mas os brasileiros não conhecem, tanto quanto poderiam, a cultura do Haiti. O Milênio encontrou em Nova York uma das principais escritoras haitianas, Edwidge Danticat, que cresceu no exílio nos Estados Unidos, mas reavivou suas raízes no Haiti. Uma artista que aprendeu com a experiência de imigrante no país rico, e intelectual no país miserável, que é preciso criar perigosamente, arriscar tudo, na vida e na arte, para conquistar a liberdade e deixar de ser vítima.

Edwidge Danticat imigrou do Haiti para os Estados Unidos ainda muito jovem, mas não perdeu contato com suas raízes. A experiência entre as duas culturas permitiu que ela enxergasse seu país com o olhar de imigrante e a desenvoltura de um habitante local. Danticat busca a liberdade por meio da criação artística e tenta, em suas obras, esboçar uma compreensão do que é ser humano, que transita entre a crueldade e a solidariedade.

Jorge Pontual — Comece nos falando de sua viagem à Bahia. Como foi? Por que você foi à Bahia?
Edwidge Danticat — Eu tinha um grande amigo que foi morar um ano na Bahia. Ele conhece o Brasil muito bem. Eu o conheci na Brown University [em Rhode Island, Estados Unidos]. Eu viajei para lá pouco antes do Carnaval, e a coisa mais linda que vi foi a festa de Iemanjá. Naquele dia, vi uma linda reunião de pessoas vestidas de branco na beira do mar... Provavelmente foi a imagem mais marcante daquela viagem.

Jorge Pontual — Como você compara as duas culturas? Acho que o Brasil e o Haiti são muito parecidos.
Edwidge Danticat — Especialmente na Bahia, eu senti uma ligação muito forte, com certeza, pela presença africana. Por exemplo, naquele dia, eu andava pelas ruas com todas aquelas pessoas, com todas aquelas procissões, e com imagens do que nós chamamos de “loas”.

Jorge Pontual — São os Orixás.
Edwidge Danticat — Exato, os orixás. E eu fui a um lugar com várias casas para os orixás. Em dado momento eu pensei que seria muito bonito ver uma manifestação tão grande da religião tradicional no Haiti, mas ela sempre sofreu perseguições. Mas a gente sente uma ligação com a África, como no Haiti, especialmente na Bahia.

Jorge Pontual — O Brasil e o Haiti também têm em comum o carnaval, que vocês chamam de “kanaval”. Em seu lindo livro After the Dance [Depois da dança, sem tradução para o português], você fala dos personagens criados em Jacmel [cidade do Haiti, capital do departamento Sudeste], onde acontece o carnaval, e isso me lembrou minha infância, as máscaras de diabo, que eram usadas no carnaval no Brasil, mas que não existem mais. Nós perdemos muitas coisas desse tipo. Mas no Haiti, elas ainda existem, não?
Edwidge Danticat — Acho que Jacmel conseguiu manter isso por causa do tamanho do carnaval, ainda que ele fique maior a cada ano. Mas sua escala ainda consegue manter uma fidelidade à origem. Assim, temos os personagens que sobreviveram até hoje. E eles são muito vibrantes, são personagens históricos. Ainda que, em outros lugares, como Porto Príncipe, o carnaval não seja mais assim, eles conseguiram manter a linda essência dele. Mas, como em todo lugar, as pessoas reclamam que ele está perdendo os elementos tradicionais.

Jorge Pontual — Sempre reclamam.
Edwidge Danticat — Pois é.

Jorge Pontual — Mas, no Haiti, vocês têm o crioulo, sua língua própria. Nós não temos um equivalente no Brasil. Os africanos no Brasil não desenvolveram uma língua própria, como os haitianos. Qual é a importância dessa língua para a sua cultura?
Edwidge Danticat — É importantíssima em termos de origem. O crioulo, uma das línguas oficiais do Haiti, falada por todos os haitianos, era como um ponto de convergência. Havia os europeus, os africanos que foram levados para lá e uma pequena parcela de população nativa, em um local bem pequeno. Eles precisavam de uma maneira de se comunicar, e foi assim que nasceu o crioulo, com aquela linda poesia das línguas africanas. E mesmo as diferentes pessoas que vinham do continente precisavam de uma maneira de se comunicar. O crioulo é uma língua que reflete os povos de origem africana: é uma mistura, e assim ela surgiu. No Brasil, a língua portuguesa devia ser predominante, não sei. Tenho certeza de que algum acadêmico pode explicar isso. Mas, no Haiti, essa língua surgiu, e isso é bom, porque é uma língua extraordinariamente bonita, cheia de imaginário e cheia de poesia, que permite que pessoas comuns sejam poéticas ao falar, porque a língua também é muito visual cheia de metáforas. Talvez por sua origem, que é a mistura de vários grupos, seja cheia de imagens, as pessoas falam por imagens, o que é incrível para um artista, pela facilidade de se criarem imagens.

Jorge Pontual — Uma das imagens que me vêm em mente, através de palavras, é o título do seu livro, "The Dew Breaker", que, em português, seria “Quebra-Orvalho”. Porque os Tonton Macoutes chegavam de manhã cedo para matar e prender as pessoas, no momento em que caía o orvalho, a “rosée”. É por causa disso?
Edwidge Danticat — Ou tarde da noite. Mas o “choukèt laroze” era um chefe de departamento, alguém que, no interior do país, atuava como juiz, júri, executor. Eu escolhi justamente esse título porque sempre me impressionou como as pessoas no Haiti, voltando a essa poesia, usavam termos tão bonitos para coisas tão horríveis. E a ideia de o “choukét laroze”, alguém que sacode o orvalho, se, na verdade, uma pessoa tão horrível. Mas há um contraponto a isso, um romance haitiano ótimo chamado “Gouverneurs de la Rosée”, “mestres do orvalho”, que são o oposto disso, que são pessoas que voltam e tentam recriar um mundo melhor, como faz o principal personagem desse romance de um de nossos grandes escritores, Jacques Roumain. Os dois termos estão relacionados. São duas grandes forças da sociedade: os “mestres do orvalho” e os “quebradores de orvalho”. Um lado que tenta criar e construir a sociedade, e outro que tenta destruí-la, o que dá continuidade ao eterno dilema da vida no Haiti. 

Jorge Pontual — No Brasil, ouvimos muito sobre a violência no Haiti, o terremoto, as tempestades, coisas negativas, mas não conhecemos muito a força da sua cultura, como ela é maravilhosa e viva. Fale-nos sobre isso.
Edwidge Danticat — Acho que foi essa cultura que sustentou o Haiti por tanto tempo, apesar de todos os obstáculos históricos, culturais, dos desastres naturais. É uma cultura moldada pela sua formação histórica. A conquista da independência do Haiti foi um processo muito difícil, uma luta muita árdua. É uma cultura que nasceu da luta, uma cultura que sempre viveu na luta, o que nem sempre é bom para a vida das pessoas, mas, de certo modo, é um ótimo alimento para a arte, e é possível ver isso nas artes visuais do Haiti. Eu voltei ao Haiti antes de morar em Miami, quando eu morava em Nova York, um lugar mais frio. Foi como ser jogada de repente num filme em Technicolor, com toda aquela vibração, a proximidade das pessoas, toda aquela leveza que as pessoas têm. É algo muito forte. Dizem muito que a cultura haitiana é “resistente”. Em parte, é uma cultura resistente porque sua conquista foi muito difícil. Ela nasceu da luta e continua sobrevivendo apesar da luta, e as pessoas criam a partir disso e criam apesar disso. A arte haitiana, muitas vezes, é uma espécie de sonho, aquelas pinturas com lindas florestas e árvores que não temos mais, com pessoas carregando muita comida em épocas em que talvez houvesse fome. Então, nós criamos esse tipo de vida que queríamos ter nas músicas, nas músicas de protesto e nas músicas espirituais, nas músicas de festas. É uma resistência através da cultura. “Apesar de tudo, eu vou viver.” É uma cultura que está sempre tentando reafirmar a vida, pois tem que lutar contra muitas coisas.

Jorge Pontual — Você disse que o vudu era perseguido, mas qual é a presença do vudu hoje no Haiti?
Edwidge Danticat — É uma presença muito forte. Nos últimos anos, ele foi reconhecido como uma das religiões oficiais. Há uma espécie de líder, uma espécie de papa. Mas o vudu sofreu porque, sempre que havia alguma crise, seus praticantes eram perseguidos. Nos anos 40, tivemos a campanha contra a superstição, quando a Igreja Católica entrava na casa das pessoas, destruindo os templos vodus, perseguia os sacerdotes...

Jorge Pontual — E os tambores, não?
Edwidge Danticat — É, os tambores. Nós falávamos sobre o desmatamento, mas uma das árvores mais bonitas, as árvores-de-lã, as samaúmas, também foram destruídas naquela campanha. E, recentemente, após a epidemia de cólera, alguns sacerdotes foram perseguidos por qualquer razão, ainda que não tivessem nada a ver com a epidemia. Eu acho que eles tendem a tratar a religião vudu como um bode expiatório, mas, como toda religião, ela oferece conforto a seus seguidores e coisas que eles não encontram em outras instâncias.

Jorge Pontual — O vudu estava na raiz da independência, da luta pela independência.
Edwidge Danticat — Há muitos momentos da história haitiana em que ele teve um papel muito importante, especialmente em Bois Caïman, onde as pessoas juraram ter liberdade ou morrer, no meio da cerimônia e em outros momentos, quando o simbolismo dos guerreiros estava alinhado com o vudu.

Jorge Pontual — E um dos heróis da independência, Toussaint Louverture, era curandeiro e estava ligado de alguma forma ao vudu. 
Edwidge Danticat — Há muitas hitórias sobre Toussaint Louverture, e nenhuma delas é complexa o suficiente, mas ele tinha muitas afinidades com outros líderes importantes, como Jean-Jacques Dessalines... Eles lideravam facções diferentes, mas, no final das contas, a independência não teria acontecido sem eles. Internacionalmente, Toussaint Louverture talvez seja mais reconhecido. Wordsworth escreveu um poema sobre ele, e disse essas palavras comoventes que todos os haitianos conhecem: “Ao me derrubar, você só fizeram cair o tronco da árvores da liberdade, mas as raízes são fortes e numerosas.” Por isso, há pessoas ainda hoje que dizem: “Eu sou filho de Toussaint Louverture.” “Eu sou filho de Jean-Jacques Dessalines.” Como se tudo isso tivesse acontecido poucos dias atrás. É muito forte.

Jorge Pontual — Há 200 dias, não 200 anos. Voltando às árvores, o que são os açacus? Há uma lenda sobre eles.
Edwidge Danticat — As árvores do esquecimento. Essa lenda dos açacus existe em várias das chamadas culturas “do novo mundo”, de pessoas que foram tiradas da África. A lenda, em várias partes do mundo, é que havia uma árvore, um açacu, e as pessoas deviam passar por baixo dela para esquecer o passado quando viam que não iriam mais voltar. A história do açacu é que você vem para cá e deve esquecer seu passado, então passa por baixo dele. Mas a beleza da história é que não esquecemos, e a prova disso é que temos hoje nossas lembranças históricas. Ele não funcionou, e dizem que o truque era cruzar os dedos ao passar debaixo dele, para que não funcionasse.

Jorge Pontual — Mas você fez o contrário. Você veio para os EUA aos 12 anos, mas reivindicou suas raízes haitianas. Você reconquistou a sua cultura. Fale-nos sobre isso. 
Edwidge Danticat — Eu senti que não precisava necessariamente deixar minhas raízes, talvez ela só tenha ido em outra direção. Ela simplesmente veio comigo. Mas eu tive a sorte de ter pais que consideravam importante manter essa parte de nós, mesmo aproveitando as oportunidades nos EUA, respeitando a cultura local e participando tanto quanto fosse possível, mas sempre mantendo um laço forte com o Haiti, viajando para lá. Grande parte da minha família continua no Haiti, então a família funciona assim: uma parte minha ainda está lá.

Jorge Pontual — Como suas filhas vivem isso? Elas são haitianas, mas também são americanas. 
Edwidge Danticat — Minhas filhas nasceram nos EUA, mas elas vivem nos dois mundos. Nós moramos numa área de Miami chamada Little Haiti, e temos sorte de as duas avós passarem muito tempo com elas. Elas foram ao Haiti algumas vezes. Como somos de outra geração, apesar das dificuldades do Haiti, quero que minhas filhas conheçam as dificuldades e o lado bom de lá, porque é muito fácil, especialmente para os filhos da diáspora, que ouvem histórias mais íntimas e difíceis, não quererem ir para lá. Por isso, quero que elas conheçam. Como já fizemos, eu as mando para festas de aniversários no Haiti. Embora não ignorem a vida difícil de algumas pessoas lá, quero que elas conheçam todos os aspectos do país que eu conheci.

 Jorge Pontual — A tragédia que aconteceu com seu tio, que morreu na prisão da Imigração nos EUA, após fugir do Haiti, começou com uma intervenção das forças da ONU, que são compostas também por brasileiros, em Porto Príncipe, no bairro de Bel Air. O que aconteceu exatamente?
Edwidge Danticat — Em 2004, meu tio, que morava em Bal Air havia 50 anos, se viu no meio de uma operação da ONU. Naquela época, havia um esforço concentrado em áreas populares que seriam o equivalente às favelas brasileiras, e havia uma forte determinação em entrar nesses bairros e encontrar os membros das gangues. E, especialmente em Cité Soleil e Bel Air, houve várias vítimas inocentes, “danos colaterais”, como se diz. Porque essas áreas eram dominadas pelo crime. Havia pessoas ruins lá, mas havia um número maior...

Jorge Pontual — Como nas favelas.
Edwidge Danticat — Exatamente. Havia pessoas boas e pobres morando lá. No bairro do meu tio, as forças da ONU, a Minustah, chegaram com a polícia haitiana e atiraram nas pessoas do telhado da igreja dele

Jorge Pontual — Da igreja do seu tio.
Edwidge Danticat — Isso. Do telhado da igreja do meu tio. E, quando eles saíram, deixaram essa carnificina, e as pessoas se voltaram contra meu tio. 

Jorge Pontual — Eles mataram 15 pessoas.
Edwidge Danticat — Isso. A população se voltou contra ele, sua casa foi saqueada, e meu tio teve que fugir e deixar o Haiti. Mesmo tento vindo aos EUA durante vários anos, ele pediu asilo e foi... Porque há uma política nos EUA de concessão de asilo aos haitianos. Quem pede asilo não fica livre, fica na prisão até o caso ser julgado.

Jorge Pontual — Acorrentado. Ele morreu acorrentado no hospital.
Edwidge Danticat — Quando foi preso, tiraram o remédio dele, e ele morreu. Nós estávamos a 15 minutos do local, mas não pudemos visitá-lo. Foi uma morte trágica dos dois lados. Por esse encontro brutal que ele teve no Haiti e pelo que lhe aconteceu quando chegou aqui.

Jorge Pontual — Você escreveu que o Haiti, antes do terremoto, era um e, depois, era outro. O que está acontecendo agora?
Edwidge Danticat — Hoje, o país está numa encruzilhada. Qual será seu futuro? Seremos para sempre um país ocupado pela ONU? Chegou o momento de governar a si próprio ou vai ser assim sempre? No momento, há muito em jogo, porque temos todas essas pessoas, cerca de 1 milhão de pessoas, vivendo nas mesmas condições do dia seguinte ao terremoto. É uma situação que continua sendo muito difícil. 

Jorge Pontual — Você tirou de Albert Camus uma expressão maravilhosa: “Créer dangereusement.” Criar perigosamente. E você aplica isso a si mesma, porque você é uma escritora imigrante, oriunda de duas culturas diferentes. Todos os imigrantes encaram riscos, não é? Mas você disse que não é só o escritor que encara desafios, mas o leitor também. Fale sobre isso.

Edwidge Danticat — “Criar perigosamente” vem de uma palestra dada por Camus, sua última palestra, logo após ganhar o Nobel.

Jorge Pontual — Em 1957.
Edwidge Danticat — E ele disse... Em 1957, ele disse: “Créer aujourd hui, c’est créer dangereusment.” Criar hoje é criar perigosamente. E ele estava no meio... Havia o movimento de independência da Argélia, ele estava sendo pressionado para defender a independência e foi muito criticado por não fazê-lo. Ele lutava com isso na época. E criar perigosamente foi algo que aprendi com ele não tanto para aplicar a mim, mas para estudar a vida de artistas que tiveram que trabalhar assim, apesar de tudo. Mas a arte, o “chamado” do trabalho era tão forte, que eles sentiram que precisavam fazê-lo. E, tivemos muitos artistas assim em nossa cultura. Tivemos esses exemplos, como o de um fotografo amigo meu que, aos 14 anos, foi obrigado a presenciar uma execução e se tornou repórter fotográfico porque não queria ver aquilo de novo sem poder documentar. Era um menino de 14 anos. E essas criações perigosas, apesar de toda a opressão, a pobreza e tudo que fazem para matar essa arte, continuam vivas. Para mim, é essa ideia de inspiração, de como alguém é inspirado por pessoas que sabem que escreveram um livro que é perigoso ler, ou sabem que é perigoso escrever um livro específico, mas agem apesar disso e melhoram a vida de todos nós.

Revista Consultor Jurídico, 2 de dezembro de 2011, 7h24

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