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Justiça flexível

STJ esquece rigor processual para dar razão à aposentada

O Superior Tribunal de Justiça deu um exemplo de como a Justiça pode ser feita sem a excessiva burocracia e o formalismo. Permitiu que um pedido fosse concedido ainda que feito por meio de peça processual inadequada.

A inovação partiu da 3ª Turma do STJ, que mandou o banco Nossa Caixa pagar a Albina Galiazzo de Souza, de 90 anos, uma correção monetária de 42,72% incidentes sobre o valor da conta poupança referente ao mês de janeiro de 1989, além de juros e correção monetária. Para conceder o benefício, a 3ª Turma teve de afastar o rigor processual do artigo 535 do Código de Processo Civil, que enumera os únicos casos em que cabe Embargos de Declaração.

“Decretar a nulidade meramente para defender o rigor do processo civil, com a conseqüente repetição de todo o procedimento, implicaria desrespeitar o princípio da razoável duração do processo, da efetividade, da igualdade (manifestado na prioridade que devem ter as causas envolvendo pessoas idosas) e até mesmo da dignidade da pessoa humana”, afirmou a ministra Nancy Andrighi, relatora do caso, ao aceitar o pedido de Albina.

Na primeira instância, o juiz julgou o pedido de Albina procedente, mas não se manifestou, inicialmente, sobre os juros e a correção monetária. Albina entrou com Embargos de Declaração apontando a omissão. O pedido foi aceito. O banco então apelou para o Tribunal de Justiça de São Paulo, que aceitou parcialmente o pedido para reconhecer a prescrição dos juros contratuais, no período anterior a cinco anos contados da data em que a ação foi iniciada.

Novos Embargos de Declaração foram interpostos pela cliente, alegando que o STJ já pacificou o entendimento de que os juros remuneratórios prescrevem só depois de 20 anos. Os embargos foram acolhidos. No Recurso Especial para o STJ, a Nossa Caixa alegou que o TJ de São Paulo não pode fazer alterações de mérito em Embargos de Declaração. Segundo o advogado, não compete ao tribunal promover uma revisão de suas próprias decisões. Essa atribuição é exclusiva do STJ.

A ministra considerou a idade da aposentada. Além disso, ele lembrou que a decisão do TJ também está conforme a jurisprudência.

Apesar de reconhecer que os Embargos de Declaração não podem revisar decisões de mérito do próprio relator, Nancy Andrighi questionou a finalidade prática de se anular a decisão do TJ, já que a aposentada deveria voltar com um Recurso Especial no STJ e sairia vitoriosa.

“Ainda que não se tenha obedecido ao rigor processual consubstanciado na regra do artigo 535 do Código de Processo Civil, que vantagem teria o direito, a justiça e a sociedade?”, afirma.

A ministra observou que o excessivo rigor processual atua muitas vezes contra a efetividade da Justiça. “O processo tem de correr. O aparato judiciário é muito caro para a sociedade e cada processo representa um custo altíssimo. Anulá-lo, portanto, é medida de exceção”, concluiu Nancy Andrighi.

REsp 970.190

Revista Consultor Jurídico, 31 de maio de 2008, 0h02

Comentários de leitores

4 comentários

Será que precisamos ter 90 anos para sermos mer...

Luiz Fernando (Estudante de Direito)

Será que precisamos ter 90 anos para sermos merecedores de decisões justas como essa ? Belíssimas palavras da ministra Andrighi não poderiam ser aplicadas a pessoas com menos de 90 e em situações idênticas ? Há muitos e muitos casos idênticos ou similares. Disse a ministra: “Decretar a nulidade meramente para defender o rigor do processo civil, com a conseqüente repetição de todo o procedimento, implicaria desrespeitar o princípio da razoável duração do processo, da efetividade, da igualdade (manifestado na prioridade que devem ter as causas envolvendo pessoas idosas) e até mesmo da dignidade da pessoa humana”. Só que, ao que tudo indica, temos que chegar aos 90 para pleitear a aplicação do precedente.

De fato precisa ser abolida de nosso sistema ju...

J. Ribeiro (Advogado Autônomo - Empresarial)

De fato precisa ser abolida de nosso sistema jurídico a chama "justiça formal" que tanto mal faz a sociedade. A efetividade de um sistema judiciário está na "justiça material", esta sim deve encarada como finalidade e razão da existência de um Poder Judiciário. A "justiça formal" por aqui é na verdade mais jeitinho brasileiro da conveniência. Está já na hora de nossos juízes acordarem para uma mudança de mentalidade, muitos ainda apegados ao formalismo exacerbado. Não culpem o CPC. As mudanças processuais há muito foram realizadas. Cabe aos aplicadores do direito começarem a restringir os abusos processuais, com as chamadas multas/penalidades existentes na lei ritos, observado o caso concreto, quando questões de méritos já estejam consolidadas pelos tribunais. Um pouco de coerência, bom-senso e pragmatismo é bom, a sociedade agradece.

Em favor do princípio da razoável duração do pr...

Moacyr Pinto Costa Junior (Advogado Associado a Escritório)

Em favor do princípio da razoável duração do processo a Exma. Ministra do S.T.J. Nancy Andrighi deixou de aplicar o rigorismo ditado pelo C.P.C. e acolheu recurso impróprio para distribuir a costumeira justiça Parabéns Ministra, que todos sigam seu exemplo.(Moacyr Pinto Costa Junior Advogado e Professor Universitário de Direito)

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