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Perda na advocacia

Morre J. Nascimento Franco, especialista da área imobiliária

Morreu na madrugada deste sábado (5/5), aos 88 anos, o advogado João Nascimento Franco, especialista renomado na área do Direito Imobiliário. Ele será velado neste sábado na Rua Batista Caetano, 300 — Vila Mariana. O sepultamento será no domingo (6/5), às 8h, no cemitério que fica no mesmo bairro (Avenida Lacerda Franco, 2.012, São Paulo).

No ano passado, Nascimento Franco completou 60 anos de atividades na área do Direito, mas sua saúde já não era a mesma. Recentemente, havia passado por uma série de cirurgias e sofria do Mal de Parkinson.

O advogado nasceu em Franca, no interior do estado de São Paulo, em 24 de junho de 1919, e na juventude foi tipógrafo no jornal Comércio de Franca. Conviveu com intelectuais como Antonio Constantino e Vicente Paulo Lima. Quando chegou à Capital, em 1942, aos 23 anos, já se imaginava cursando Direito.

Prestou vestibular no Largo de São Francisco. Ficou em 11° lugar (e com uma nota alta, 95 em 100 possíveis) em uma turma com mais de 400 candidatos. Quando jovem, o advogado gostava de freqüentar cemitérios. Ele justificava que não era um hábito mórbido, mas que os cemitérios têm lápides jocosas, esculturas hostis, entre outras “estranhezas”.

Leia abaixo reportagem do jornal Tribuna do Direito sobre o advogado:

O humilde J. Nascimento Franco

Fernanda Sal

Outubro de 2006

Ele completou 60 anos de atividades advocatícias, mas a saúde já não é a mesma de quando era “solicitador acadêmico” (estagiário) na década de 40, mais exatamente em 1946. Por isso hoje ele não tem o mesmo ritmo de vida frenético de antigamente, e dedica-se muito mais a ser a “voz da experiência” para outros advogados, especialmente da área imobiliária. Mas o árduo trabalho ao longo dos anos não foi esquecido, e o Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP) decidiu, por iniciativa do ex-presidente da entidade, Nelson Kojranski, conceder a João Nascimento Franco, mais conhecido como “J. Nascimento Franco”, o título de “associado emérito”.

J. Nascimento Franco recebeu a honraria em casa, das mãos do próprio Nelson Kojranski e da vice-presidente do IASP, Maria Odete Duque Bertasi (o presidente é Tales Castelo Branco), em uma cerimônia simples como ele, que diz não ser “merecedor” da “condecoração profissional”. Nascimento Franco, filho de José e Ana, nasceu em Franca, no interior do Estado, em 24/6/1919, e na juventude foi tipógrafo no jornal “Comércio de Franca”.

Conviveu com intelectuais como Antonio Constantino e Vicente Paulo Lima e quando chegou à Capital, em 1942, aos 23 anos, já se imaginava cursando Direito.

Prestou vestibular no Largo de São Francisco e ficou em 11° lugar (e com uma nota alta, 95 em 100 possíveis) em uma turma com mais de 400 candidatos.

Chegou sozinho a São Paulo e teve de trabalhar para se manter. Na época, empresas alemãs e austríacas instaladas no País buscavam “correspondentes” que pudessem se comunicar em Francês, já que o alemão estava proibido (“por burrice”) em função da Segunda Guerra Mundial. Nascimento Franco encontrou trabalho na Lopes & Sulzer, obrigando-o a adaptar para o Francês a taquigrafia que existia em Português. Logo depois, recebia a companhia dos pais e de mais seis irmãos.

Em 1948, Nascimento Franco abriu o primeiro escritório nas redondezas da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Na época, dedicava-se mais a área criminal. Mas, apesar do afinco com que defendia a profissão, somente 21 anos mais tarde, em 1969, receberia a “consagração”, juntamente com o companheiro de escritório Nisske Gondo.

E em um caso excêntrico. Defenderam a permanência da lápide de Francisco Franco de Souza, mais conhecido como “Chico Sombração”, professor em Pirassununga, em um cemitério local. “Chico” pediu que na lápide constasse um epitáfio com os dizeres: “Bípede, meu irmão. Eis o fim prosaico de um espermatozóide, que há 80 anos penetrou num óvulo, iniciou seu ciclo evolutivo e acabou virando carniça. Estou enterrado aqui. Sou o Chico Sombração. Xingai por mim.”

O prefeito da cidade não gostou e mandou retirar a lápide. A família do professor procurou Nascimento Franco visando recolocá-la. O curioso é que Nascimento Franco foi procurado pelo fato de gostar de freqüentar cemitérios. Ele justifica que não é um hábito mórbido, mas que os cemitérios têm lápides jocosas, esculturas hostis, entre outras “estranhezas”. A ação rendeu-lhe o primeiro lugar de “melhor arrazoado forense” concedido pelo IASP.

Já o Direito Imobiliário — é, ainda, colunista licenciado do “Tribuna” — surgiu na carreira por meio de um cliente, Se-bastião Mattos da Rocha, diretor da Cia. Imobiliária de Vendas e Administração, que indicou alguns clientes da área. “Foram meus primeiros clientes rentáveis”, revela.

Com dedicação, debruçou-se sobre o ra-mo. É autor de várias obras sobre o tema, algumas exclusivas, outras com a colabo-ração de Nisske Gondo. Entre elas desta-cam-se Manual Prático das Incorporações Imobiliárias, Ação Renovatória e Ação Revisional, Manual Prático da Ação Revi-sional e Incorporações Imobiliárias.

Mas não foram só às “letras jurídicas” que Nascimento Franco se dedicou. Com idéias separatistas — defende a separação dos Estados do Sul do restante do Brasil — escreveu em 1994 Fundamentos do Separatismo.

Além de escritor e advogado, Nascimento Franco lecionou Direito Comercial na Faculdade de São Bernardo do Campo (SP) e História Econômica e Administrativa do Brasil e Prática Forense no Instituto Comercial Frederico Ozanan, de São Paulo.

Casado desde 1972 com Laudelina Silmann, vive em um apartamento na região central da Capital, em um condomínio onde moram cinco irmãos (no mesmo andar): Maria, Albertina, Lourdes, José e Eunice. Apenas Albertina e a caçula Eunice formaram-se em Direito.

Nascimento Franco se diz um “cidadão do mundo”. Até 2002 viajava religiosamente todos os meses de janeiro. Visitou a França, a sua “segunda pátria”, “umas 20 vezes”. Domina quatro idiomas: Francês, Inglês, Italiano e Espanhol. Não confirma, mas a irmã Eunice comenta que ele também “arranha” no Alemão.

A grande paixão de J. Nascimento Franco é escrever. “Sempre escrevi”, (tem trabalhos publicados pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, pela “Revista de Direito Imobiliário” e pelo “Tribuna”).Resistente à aposentadoria, orgulha-se de fazer parte do conselho editorial da “Revista de Direito Imobiliário” e da “Revista Jurídica de Porto Alegre (RS). Além disso, embora tenha encerrado as atividades do escritório de Advocacia, ainda presta “consultoria” a alguns advogados.

J.Nascimento Franco carrega um arrependimento: o de não ter cursado a Faculdade de Letras ou História. “Gostaria de ter feito esses cursos porque sempre gostei muito de romances, História, Filosofia, Literatura...”, conta. Mas o fato de não ter essas graduações não foi um empecilho para os estudos. Tem se dedicado à história da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Recentemente, escreveu um folheto sobre Julio Frank — “Ainda à sombra de Julio Frank...”, um personagem lendário da faculdade que fundou uma sociedade secreta, a Burschenschaft, a exemplo do que existia nas universidades alemãs na época de Adolf Hitler. “O Julio foi sepultado no pátio da faculdade e escrevi uma faceta da história dele, que era apontado pelos integralistas como judeu e, conseqüentemente, como inimigo do País”, relata.

“Às vezes questiono-me se a Burschenschaft ainda existe”, brinca explicando que os estudantes do Largo São Francisco chamavam a sociedade de “bucha”.

Apesar de toda a vida dedicada à Advocacia, J. Nascimento Franco diz ter sido apenas um “advogado passável”. “Não enxerguei o lado humano e social do Direito”, lamenta-se.

Revista Consultor Jurídico, 5 de maio de 2007, 15h45

Comentários de leitores

3 comentários

O mundo da advocacia perdeu um grande mestre. S...

PAULO FRANCIS (Advogado Sócio de Escritório - Civil)

O mundo da advocacia perdeu um grande mestre. Suas obras são e continuarão sendo preciosas para quem exerce ou pretende exercer a advocacia no direito imobiliário. É uma grande perda para todos nós. Julio Brandão advogado Marília -SP

Infelizmente conheci o notável pofessor somente...

Reginaldo (Advogado Autônomo)

Infelizmente conheci o notável pofessor somente através de seu trabalho. No começo de minha carreira fui advogar para imobiliárias, e as lições do saudoso professor foram essenciais para meu êxito profissional. Até hoje, quando recebia o Tribuna do Direito corria para ler seus artigos. O Brasil perde um grande jurista, um grande advogado. Sentiremos sua falta de suas lições.

“Não enxerguei o lado humano e social do Direit...

lu (Estudante de Direito)

“Não enxerguei o lado humano e social do Direito”. Será? Pela história de vida, penso que reconheceu! Descanse em paz!

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