Consultor Jurídico

Notícias

Você leu 1 de 5 notícias liberadas no mês.
Faça seu CADASTRO GRATUITO e tenha acesso ilimitado.

Triângulo no ponto

Licença poética para se falar do que não se pode falar

Por 

A intimidade e o erotismo só são mesmo toleradas entre quatro paredes. Por puritanismo, princípios cristãos ou pela tradição, os segredos de alcova, taras e descrições mais voluptuosas, não são bem recepcionados quando narrados por autoridades. E é essa a sensação de absurdo que se tem no livro Triângulo no Ponto, exatamente por ter sido escrito por um ministro do Supremo Tribunal Federal, Eros Grau. O texto é de qualidade, com jargões é claro, mas ainda interessante.

Um quê de libertina, indecente, de explícita sacanagem. A literatura erótica choca, remexe com primitivos sentimentos e também, quando da lavra de pessoas geograficamente próximas de nós, nos habilita a reprovar tanto a cria quanto o criador. É a defesa dos costumes e do puritanismo, sempre à mão nas urgências.

Esse desprezo, que lança a obra ao limbo, também leva à marginalidade o autor. Depravado, indecente e devasso, esse ser que se apropriou da palavra para dar materialidade às próprias perversões, sejam as vividas ou as fantasiadas.

Eros Grau, o escritor do livro brasileiro Triângulo no Ponto, é uma dessas figuras a quem bastou a divulgação de trechos da obra para que sua aptidão literária fosse questionada pelos mais variados críticos de última hora, em blogs, sites, notas de jornal e outros veículos.

A coleção de menções pouco honrosas, sustentam alguns críticos, é devida a trechos em que o autor caiu no jargão do erotismo de folhetim. Usou como sinônimo de ereto, ferro em brasa, pênis teso. Repetiu o já aclamado mamilo intumescido. Ou quando avançou, criando expressões – sempre afetas às mulheres da trama – , como válvula de sucção (referência à capacidade vaginal de receber um pênis teso), peitinho de perdiz (sobre os miúdos peitos da sobrinha-personagem), axilas provocantes, narinas safadas e sensuais, flatulências vaginais pós-coito, poemas enterrados nos recônditos, frestas, fendas, nesgas, reentrâncias e nádegas estreitas.

Outros críticos de plantão assumiram que o problema da obra está exatamente na figura proba e impoluta do autor. Afinal, expressões tão cabeludas não podem sair da boca ou da mente de um grande jurista, para o qual sexo deveria ser tema limitado à própria intimidade. Mais. É impróprio, condenável e digno de suspeição um ministro da mais alta corte brasileira, o Supremo Tribunal Federal, que admite conhecer palavras só permitidas aos comuns. Pior. Descrever cenas tão picantes é revelar – entendem – fantasias próprias, o que também não é honesto para um ordenador do direito.

Assim, o juízo que deveria ter sido feito sobre a obra, recaiu sobre o autor em razão sim, e que não seja negado, da alta patente gozada pelo escritor, autor de mais de uma dezena de livros jurídicos.

Sobre os livros e suas coincidências

Eros Grau deve ter, pelo menos em algum momento, se divertido com a confusão que estabeleceria quando distribuísse em seus personagens, Rogério, Xavier e Costa, características suas.

Eles, autor e personagens, são contemporâneos, embora a história envolva 35 anos, entre 1968 e 2003. Todos são sexagenários, viveram em São Paulo, cursaram direito, nutrem paixão pela poesia, foram acadêmicos, comunistas, tiveram longas e freqüentes passagens pela França e prometeram a si e à namorada um dia escrever um romance.

A tentativa de análise comparativa pára por aí. Para surpresa de quem só leu trechos, Rogério, Xavier e Costa são uma única pessoa. E é disso que o livro trata: da escolha, da multiplicidade de destinos que o personagem teve à disposição caso em um determinado momento de sua vida fizesse opções diferentes. Como define o narrador, falando de si mesmo, sofria de fartura, da “insegurança causada pelo excesso de rumos possíveis”.

O fio condutor é Sílvia, a namorada, noiva, mulher. Em todas as situações, na vida dos três personagens, ela é a mesma. Compreensiva, carente e digna de todo o respeito marital, ainda que lhe falte amor e sexo.

Sílvia a mais traída, a menos provada é o grande e saudoso amor. A dona da obra. A ela, segundo o narrador, teria faltado dialética. Ela não teria entendido que a “cada negação do amor o amor estaria sendo suprassumido”. Sílvia “carecia de paciência histórica” e de “consciência histórica”.

A amante inesquecível, Beth, também é a mesma na três histórias. Antônio, o amigo, é recorrente. A subversão ao regime e o vínculo, ainda que suave com os camaradas, é matéria comum. Até mesmo a prisão pela polícia política da ditadura foi vivida por todos. Uma sobrinha de 17 anos, bailarina, povoa pelo menos a história de Rogério e Costa.

Antes, porém, uma cena na praia enreda a teia do livro. O dia é aquele em que Rogério, Xavier e Costa retomam o noivado com Silvia, interrompido – no caso de Rogério – em razão de outro amor que havia surgido meses atrás. No encontro, que é rememorado ao longo de todo o romance, Silvia pergunta ao namorado se ele havia esquecido a outra mulher.

Poesia, mulher, política. Estão aí as prioridades de Rogério, não nessa mesma ordem. Xavier é intelectual. Prefere a fantasia sexual ao ato. É acadêmico e comunista com temor, a quem é mais seguro mudar de posição política a correr o risco de ser descoberto pelo regime. No fim, se descobre homossexual. Costa é o empresário de sucesso, que fez incorporações, fusões, vendas e investimentos no momento certo. Simpático ao comunismo, manteve distância respeitosa para atuar como colaborador. Poesia e academia existiram em sua vida, mas não se mantiveram. Sempre teve casos extraconjugais, mas em menor profusão que Rogério. Aos três e a cada um, a posição social de Silvia, que era rica, foi definidora da trajetória individual.

Casados, Silvia e Rogério, Silvia e Xavier e Silvia e Costa se separam. As motivações: Rogério foi flagrado fornicando com a sobrinha adolescente de Sílvia; Xavier foi desmascarado por tentar emplacar uma fantasia sua, na qual um aluno seu homossexual é forçado a acreditar que nutria atração sexual por Sílvia e por isso tenta transar com ela; e Costa pela distância intransponível criada no casamento, em razão de outras prioridades de vida, como os negócios.

É Rogério quem conta a própria história e a dos dois outros personagens. Ao final, entrega os pontos. Pede que alguém arremate a obra. Esse alguém, indefinido, pormenoriza. Explica que o livro é a concretização de uma promessa antiga de Rogério à noiva Silvia. Promessa que só foi concretizada depois que o casamento já havia ruído.

O livro é denso, às vezes intenso, confuso, ainda quem bem escrito e utilizando figuras de linguagem que marcam posição como a reiteração. Utiliza recursos presentes em Memória de minhas putas tristes, de Gabriel Garcia Marques, como o texto bem encadeado e a narrativa repleta de individualismo.

Remete-nos ainda à poesia Eros à mão livre do poeta carioca Armando Freitas Filho: “por esta fresta te espreito, por esta fenda te desvendo [...] teso e reto, e por inteiro, o seu corpo se entreabre: porta e perna, caixa e coxa”.

O livro de Eros, o ministro, começa em flashback e avança sem ordem fixa. A obra é escrita junto com a narrativa. O narrador viaja a München, na Alemanha, junto com a mulher com quem vivia há cinco anos. Foram visitar os filhos e netos dela. Essa mulher é descrita como a pacificadora, aquela que aplacou suas febris vontades em busca de amores intensos e liberais.

O livro não é pornográfico, como asseguram uns. Se pretende histórico, mas tende mais aos casos extraconjugais e narrativas pouco críveis de prisões pelo regime militar. Carrega discussões ideológicas onde os esquerdistas são criticados pela falta de conteúdo e a burguesia por tentar parecer o que não é ao viver de aparência.

É uma obra rica em descrições, principalmente as com endereço na França. Atende a pormenores tal quando descreve o local onde repousa atualmente Olympia, de Manet, no Musée d’Orsay, em Paris e o café de Flore de Saint Germain des Prés. Aliás, o trecho que trata de Olympia encabula. Nele, o narrador confessa seu grande amor pela musa, a visita todos os dias à espera que, depois de atendido o último cliente (fantasia sua), ela o receba. Assim, numa transmutação, Olympia é Sílvia.

O sexual é tão marcante no livro, que até mesmo em discussões sobre arte, literatura, política, mercado ou neoliberalismo, imperam devaneios em que parceiras executam posições e entregas.

Há trechos bem talhados, mas incompreensíveis, como o que fala de Helena, outra militante, que teria sido levada ao mar, do alto de um avião. “Estava em cacos, dizem. O mar a tragou”.

Há trechos curiosos sobre a importância do momento, quando na prisão, Rogério/Costa deixa para defecar em casa ao ser informado de que até às 18h estaria liberado. A soltura leva mais tempo, assim como a agonia de ter perdido a oportunidade de defecar fora da cela. “Dou-me conta de que perdera a oportunidade de defecar lá fora, teria que dormir com as minhas fezes”.

A obra vale sim o investimento. É intrigante, instigante, bem localizada no espaço, sem furos históricos. Trabalha com personagens individualistas, preocupados exclusivamente consigo mesmos e com suas necessidades e desejos. A sugestão é que seja lida por duas vezes. O fim, ainda que inesperado é o mais possível, mas encerra a obra sem deixar aquela sensação recorrente de déjà vu.

Ainda com muita abstração faltou-me clareza quanto a que seria uma mulher com “pernas tesouras, dois 7s” e ser “pentapossuída”. Com alguma dificuldade, entenderia a expressão “penetrada em profusão”. A grande dúvida destinaria a duas passagens, o chavão que define Costa como sendo o“amigo mais certo nas horas incertas”, e a metáfora mal ajambrada de que o sexo de Beth, na imaginação de Xavier, seria uma ostra estreitinha e depois uma orquídea selvagem, rococó.

Mas, como diz o autor, seu livro foi escrito para que “fique claro não que tudo pode acontecer, mas sim que nada pode deixar de acontecer”.

Lançado em abril, Triângulo no ponto é uma dessas obras que se notabiliza não exclusivamente pelos trechos picantes e encabuladores que contém, mas e muito mais por traços de provável semelhança física entre os personagens e o autor.

Eros, o autor, é casado com Tânia Marina, tem dois filhos casados e três netos. A filha, Karin, vive exatamente em München, na Alemanha, de onde o personagem Triângulo no Ponto dá início ao livro. O ministro é livre docente pela USP, onde é professor adjunto. Gaúcho de Santa Maria foi indicado ao Supremo Tribunal Federal pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2004.

Sobre a obra e o autor, dispenso os comentários a respeito da graciosidade do nome Eros e de sua gênese.

 é repórter da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 3 de junho de 2007, 0h00

Comentários de leitores

16 comentários

Licença não existe, apenas a permissividade de ...

Bira (Industrial)

Licença não existe, apenas a permissividade de opinião desde que esta seja de tom revolucionario e não bata de frente com governos de esquerda.

Jorge de Almeida CamposBoa noite! Não o critiq...

Neli (Procurador do Município)

Jorge de Almeida CamposBoa noite! Não o critiquei literariamente,pq não perderei meu precioso tempo a lê-lo! O fato de ler somente Machado de Assis e outros escritores do Xéc. XIX,início do Séc. XX,invés de receber criticas deveria receber elogios,afinal,sou muito crítica em tudo que leio e não vou ler ninguém pq algum crítico ou a Mídia entende que é ótima literatura. "En passant" recomendei a biografia de Dom Perdro II,excelente! Como tb recomendo biografia de Mauá. Em nenhum momento fiz elogio à literatura estrangeira,mas,posso recomendar:também os daquele séculos,autores portuguêses,franceses.Leia Milton! Do Séc. XX e de agora séc. XXI recomendo:J.J.Benitez Cavalo de Tróia (oito volumes),e outros tantos. Mas em nenhum momento,naquele post, recomendei algum livro,disse-o que em minha juventude li Cassandra Rios...agora não tenho mais paciência! A outra opinião é jurídica,a mim me parece que o Supremo(STJ tb),não deveria ser local para quem nunca julgou na vida,mas sim para pessoas maduras,que fizeram do "julgamento" uma profissão:para lá deveriam ser alçados desembargadores Federais ou Estaduais(mesmo vindo do quinto Constitucional.) E,essa opinião não a exprimi "hic et nunc",porém foi fruto de muita meditação(jurídica!);não foi mirada no prof. Eros Grau ou em algum ministro que lá esteja."De lege ferenda" Por óbvio que leio escritores brasileiros: Vicente Rao,Carlos Maximiliano,e os técnicos propriamente dito...João Ubaldo Ribeiro é ótimo e recomendo.Cony também! Recomendo,pasme,meu crítico,o Zé Sarney a mim me parece que ele deveria ser escritor! Muito melhor do que o político. Paulo Coelho já li,não sei se recomendo,em seu estilo,existem estrangeiros melhores!Jorge Amado? Uns dois livros,já Zélia Gatai não! Raquel de Queirós li em minha juventude,com Cassandra Rios...para quem gosta recomendo. Mulheres na literatura fico com Izabel Allende,a conheci em Quito há dois anos;acabei de ler o Zorro,uma obra gostosa.Outra mulher na literatura,desta feita infantil,e se tiver filhos pode dar para lr,é a Fanny Abramovich. Gosto muito,mas muito mesmo,é de ler biografias...como explicitado,a de Dom Pedro II é dez;na semana passada terminei de ler a vida de Maria Callas(conhece?) e atualmente estou a ler a vida de Napoleon,de Jacques Bainville,em francês.Embora os ditadores não me atrae,este ano, li Mao Tse Tung. Houve um tempo em que lia tão-só livros de direito,hoje,às portas da aposentadoria,dou-me ao luxo de não ler quem não quero, a literatura contemporânea,deixa muito a desejar... Finalmente,a profissão nada tem a ver com o gosto literário,ou não gostar de ler...

Estranho muito quando personagens que são não s...

Jorge DeAC (Consultor)

Estranho muito quando personagens que são não só "defensores" da liberdade e outros "formadores de opinião" emitem voz para dizer o que os outros podem ou não falar ou escrever. Pouco importa aqui a capacidade literária do Sr. Eros Grau. Não é o ministro que está escrevendo, mas sim o aludido senhor. A liberdade de expressão existe e está aí para o que? Não é Neli e Garcia! Vão procurar coisa melhor prá fazer senhores detratores da liberdade. O Brasil já sofria de censura na época de Dom Pedro, e pelo jeito é o que alguns insanos querem de volta. Neli, quanto a não ler coisa de brasileiros, continue assim, é muito bom saber que alguém que ocupa o cargo de Procurador do Município só se interessa por literatura estrangeira ou por alguns poucos escritores tupiniquins do século passado. ESTA NA HORA DE SE ATUALIZAR. O mundo mudou e o Brasil também. Como pretende desempenhar sua profissão, se não conhece ao menos o espírito brasileiro. A liberdade está aí prá isso. Ler o que se quiser ler. VIVE LA LIBERTÉ!!! Jorge

Ver todos comentários

Comentários encerrados em 11/06/2007.
A seção de comentários de cada texto é encerrada 7 dias após a data da sua publicação.