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Gre-Nal jurídico

Juiz e advogado levam clássico do futebol para tribunal

No jogo do dia 30 de julho entre Internacional e Grêmio, os times de futebol das duas maiores e mais apaixonadas torcidas do Rio Grande do Sul, aconteceu o que sempre acontece nestas ocasiões: torcedores incendiaram oito banheiros químicos e depredaram o estádio. Desta vez os torcedores eram do Grêmio, que perdeu o jogo, e os prejuízos do Internacional, que mandou o jogo no seu estádio do Beira Rio.

O que foi diferente (mas nem tanto) desta vez é que a briga foi parar nos tribunais envolvendo a comunidade jurídica gaúcha. De um lado o advogado e diretor do Grêmio, Renato de Castro Moreira. De outro o juiz do trabalho e conselheiro do Internacional Ary Marimon Filho. O gremista entrou na 16ª Vara Cível de Porto Alegre, com ação de dano moral contra o colorado. As informações são do site Espaço Vital.

Após o fatídico jogo, o dirigente gremista concedeu entrevistas a emissoras de rádio. Ele responsabilizou a diretoria do Inter pela "provocação sistemática contra a torcida do Grêmio". Dois dias depois, o juiz Marimon Filho publicou o artigo O bom senso estuprado, no site Final Sports. No texto, ele faz críticas pessoais a Castro Moreira.

“Ao dizer que a Direção Colorada era a culpada de tudo o que ocorrera nas arquibancadas, o Dr. Renato Moreira acabou por aprovar a selvageria, esquecendo-se de que, antes de tudo, deve manter a dignidade do cargo que ocupa, dignidade que lhe faltou no primeiro Gre-Nal citado e voltou a se repetir, na noite de ontem. Varreu para debaixo do tapete os vícios, pecados e defeitos da própria família, escondendo-a do “diz-que-diz-que” da vizinhança”, diz trecho do artigo do juiz Marimon Filho, presidente da Associação dos Magistrados Trabalhistas do Rio Grande do Sul (Amatra-4 ).

A ação já obteve uma antecipação de tutela, determinando que o site veicule por 15 dias uma resposta do diretor do Grêmio. Consta nos autos que a resposta no site visa tornar público que o advogado e dirigente do Grêmio está reagindo contra os impropérios e quer dar ciência à opinião pública sobre sua iniciativa.

O juiz João Ricardo dos Santos Costa da 16ª Vara determinou a intimação da editora do site que, desde a última terça-feira (07/11) está atendendo o comando judicial, embora o texto disponibilizado na página contenha erros de português ou digitação. Os réus têm prazo dobrado (30 dias) para se defenderem e indicarem as provas. Seguramente, a ação não terá sentença no corrente ano.

Processo 106.020.115-78

Leia o artigo

O bom senso estuprado

02/08/2006 — 09:10:03

Por Ary Marimon Filho

Quando ligo o radinho e o sinal sonoro avisa que a pilha tá no fim, apresso-me em comprar duas de um ambulante por um real, mais do que evidente prova de sua origem suspeita. Coloco as duas pilhas no bolso, envoltas na embalagem plástica e dirijo-me ao portão dois para entrar no Gigante. A minuciosa revista a que submetido levou-me ao seguinte diálogo com um cabo da PM:

— O senhor sabe por qual razão eu não posso levar as duas pilhas que comprei?

— Porque o senhor pode jogá-las no campo, respondeu-me o homem da lei.

— E o que faz com que eu não jogue a pilha que tá dentro do rádio?

E ele, mentindo para mim.

— A ordem vem do clube.

— Não vem, não, porque sou conselheiro e sei que não há esta regra, apliquei-lhe um “carteiraço”. No seu silêncio, emendei:

— O senhor não respondeu à minha pergunta: o senhor sabe o que me impede de jogar em alguém a pilha que tá dentro do rádio, o próprio rádio, este celular ou este molho de chaves que carrego no bolso? — insisti, mostrando os objetos citados.

O PM, já impaciente, diz com o tom próprio de quem ouve perguntas perigosas:

— Não! — assim, com a toda a autoridade que tem o ponto de exclamação.

— O bom senso —, respondi, com alguma satisfação, dando-lhe as costas e passando, sem ser revistado, desta feita, pela barreira de policiais.

Minha filha aguardava-me, entre impaciente e assustada, talvez um prenúncio do que iríamos testemunhar.

Todo o grupo social, político, religioso, econômico, tem a cara de suas lideranças. Afinal, invariavelmente, elas são levadas pelo próprio grupo a ocupar um lugar de comando.

Esse conceito veio-me à mente após a barbárie de ontem à noite.

Não foram os colorados, os gremistas, os simpatizantes, a Brigada, os jornalistas, os seguranças, os pais, irmãos e amigos que, em suas casas, impotentes, assistiam a maior selvageria vista em nosso Estado, as vítimas do acontecido. Não foram, “fomos”.

Mais grave do que os danos causados ao patrimônio do Internacional, a imagem do povo gaúcho, ordeiro, hospitaleiro, civilizado, politizado é que saiu arranhada. E muito, mas muito pior do que o crime de lesa-pátria está a defesa imbecil, idiota, baixa, servil ao grupo, protagonizada pelo Dr. Renato Moreira, no que foi seguido pelo Dr. Túlio Macedo.

Tivessem os dirigentes do imortal tricolor adotado outra postura após o jogo, talvez a indignação tivesse tomado conta de 99,99% do povo gaúcho, e não apenas da sua metade. É certo que a esmagadora maioria da torcida tricolor apoiaria a sua diretoria, restando aos míseros 0,01% de psicopatas que vestiram a jaqueta tricolor e protagonizaram as cenas de bestialidade dantesca, o início do processo de seu banimento dos estádios de futebol desta e de outras praças esportivas.

Sim, porque em Florianópolis, uma semana antes, talvez os mesmos ou boa parte deles, também mancharam a imagem do povo gaúcho.

Sim, porque já quando da conquista do título do Gauchão, os celerados haviam destruído parte do Beira-Rio e, naquela ocasião, a Direção Tricolor afagou-lhes os cabelos, como o pai que protege o filho que pratica a primeira afronta à professorinha primária. Pois não bastasse esse desvario, agora, novamente, a liderança deu prova de sua covardia e, ao invés de raciocinar, agiu com igual destempero e insanidade.

Ao dizer que a Direção Colorada era a culpada de tudo o que ocorrera nas arquibancadas, o Dr. Renato Moreira acabou por aprovar a selvageria, esquecendo-se de que, antes de tudo, deve manter a dignidade do cargo que ocupa, dignidade que lhe faltou no primeiro grenal citado e voltou a se repetir, na noite de ontem. Varreu para debaixo do tapete os vícios, pecados e defeitos da própria família, escondendo-a do “diz-que-diz-que” da vizinhança.

Esqueceu-se que o lamentável acontecimento ganhou o mundo, ao vivo e a cores. E a imagem do ex-campeão mundial que venceu a Batalha dos Aflitos, com sete em campo, e que começava a ganhar a admiração e o respeito de todos esboroa-se na penumbra dos que se escondem nas sombras da noite, sorrateiramente, à espera do próximo incauto transeunte.

Ainda que com a natural arrogância, Dr. Renato bem poderia ter dito: “Lamentamos os incidentes verificados. A diretoria do Grêmio tudo fará para apurar a identificação dos envolvidos, auxiliando a força policial e as autoridades a promover a punição dos culpados, com sua exclusão definitiva dos campos de futebol”. Deixasse ao Paulo Santana desculpar-se, pateticamente, pelos seus companheiros de torcida. Mas, não, não há espaço para tal auto-crítica, no agir da direção tricolor.

A impressão que tenho é de que, contasse vinte anos menos, estaria ele cerrando fileiras ao lado daqueles que destruíram a imagem do povo gaúcho. Falou em “roubo” de cinco mil ingressos, em impedimento para que retirassem um jogador do vestiário quando se sabe que a balbúrdia iniciara nas imediações do Estádio Olímpico, hora e meia, antes, quando torcedores do Grêmio já distribuíam pontapés e socos e o que é pior, entre si...

Na mesma linha, o Dr. Túlio Macedo não ficou atrás. Ouvindo a grita presidencial colorada, chegou a falar em banheiros atômicos, ao invés de químicos, e, ao mesmo tempo, disse que precisavam saber o valor das despesas, numa prova de confusão mental momentânea de inigualável proporção.

Cabia-lhe o discurso que toda a torcida tricolor da superior do Beira-Rio fazia através de vaias, qual seja, a censura pública, a recriminação tempestiva, a solidariedade aos torcedores do co-irmão. Tivesse assim agido, ganharia o respeito dos colorados e gremistas que vêem no futebol apenas um esporte, uma diversão, um espaço para, simplesmente, rir.

Mas, não, agindo da forma como agiu, a autoridade máxima do Grêmio Futebol Porto Alegrense apenas transformou a irritação da parte vermelha do estado em indignação, também, dos restantes 99,99% de gremistas espalhados por este planeta.

É preciso repensar a proposta de fim das Torcidas Organizadas como entidades oficiais ou vinculadas a clubes de futebol. Querendo ou não, a existência de torcida organizada representa um “Estado Mínimo” em que, pelo menos, há a obrigação de identificação dos seus adeptos. Verificar que esta ou aquela torcida organizada é arruaceira, baderneira, depreda, destrói, briga, queima, mata, é algo que tem possibilidade de ser corrigido com educação e trabalho.

O surgimento de movimentos autônomos sem qualquer controle, como é o caso da Alma Castelhana e da Popular, significa dizer que nem mesmo o "estado mínimo" se faz presente. Os meliantes, delinqüentes, assaltantes, assassinos e psicopatas, escondem-se em meio ao anonimato. Não há controle sobre eles, não há pacto de fidelidade, vínculo afetivo com o próprio clube, apenas uma sede incontrolável de libertar o instinto animalesco que, no homem, só se manifesta na iminência do próprio assassinato ou daquele a quem deve proteção.

Impotentes, as autoridades assistem o recrudescimento da violência sem saber o que fazer. E eu que dizia aos meus amigos dos quatro cantos do país que levava minha família em Grenais no Beira-Rio, já não poderei dizer o mesmo.

Nós, gaúchos, estamos envergonhados. Foi um acinte à nossa civilidade e fraternidade. O bom-senso foi estuprado.

Revista Consultor Jurídico, 12 de novembro de 2006, 7h00

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