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Coração das Trevas

Jornalista mostra versão dos militares da Guerrilha do Araguaia

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Romualdo Pessoa Campos Filho também registra o episódio, através da narrativa de um morador da região, cuja identidade o pesquisador manteve oculta:

“O Ari foi morto e quem cortou a cabeça dele foi um guia... eles criavam uma equipe de guias, que se chamavam zebras e eles foi quem faturaram o Ari”.[33]

Dois soldados que na época serviram na região, Domingos Barros de Almeida e Adolfo da Cruz Rosa[34], igualmente relataram o episódio ao jornal O Liberal, de Belém.[35] O ex-soldado Domingos relata:

“Uma das equipes entrou numa trilha e deu de cara com o Ary e o Daniel na direção contrária. Aí derrubaram o Ary. O morador chegou para ele e disse: “Tu vele dois milhões. (...) Tinha que identificar o cara, pra isso a cabeça ia para a base, Xambioá ou Bacaba. Como eram muitos dias de caminhada e a cabeça estava apodrecendo, eles pararam, fizeram uma fogueira e aferventaram na panela deles. Botaram meio quilo de sal, pra chegar na base”.

Na mesma entrevista, o ex-soldado Adolfo Cruz Rosa acrescenta:

“Quando o mateiro entrava na mata com a gente, já tinha a proposta. Se o primeiro tiro fosse dele, ele levava a recompensa”.

Os militares poderiam ter parado ali mesmo. Poderiam, por exemplo, não pagar. Ou até mesmo pagar, mas deixando claro que não era para decapitar os guerrilheiros. No entanto, preferiram aquiescer com a prática. Pagaram o preço estipulado — 1 mil cruzeiros, era o que valia a vida de Ari — sem questionar o método utilizado. Afinal, como rege o maquiavelismo vulgar, os fins justificam os meios. Ademais, os bárbaros não eram eles, e sim os outros — e aqueles terroristas que matavam adolescentes inocentes a golpes de facão, que se virassem sozinhos para escapar daquela escória dos homens desalmados da floresta, aqueles jagunços que degolavam sem vacilo em troca de dinheiro. A partir de então, a idéia de cortar cabeças disseminou-se entre os “bate-paus”. Levar só a cabeça como prova do serviço era mais fácil do que levar o corpo inteiro. Seis cabeças de guerrilheiros, talvez sete, chegaram em sacolas a Marabá ou Xambioá. [36]

Ressalto, contudo, que de acordo com o relato dos militares, essas decapitações não teriam chegado ao conhecimento dos comandantes em Brasília. A decisão de recrutar jagunços teria sido tomada pelas próprias equipes de inteligência na selva, que tinham independência operacional impar naquele momento. O dinheiro pago pelas cabeças, por sua vez, vinha das verbas secretas distribuídas entre as equipes. Não havia verba reservada para cobrir o valor de cada cabeça; para cada uma que aparecia, era preciso fazer uma coleta de dinheiro entre os chefes da inteligência para honrar os compromissos com os bate-paus. Romualdo Pessoa observa:

“É certo, no entanto, que tamanho terrorismo surtiu o efeito de criar pânico na população. Incentivou a ‘deduragem’ e, o mais grave, criou imunidade para jagunços que se tornaram bate-paus e guias do exército (...) Conta-se que esses bate-paus faziam parte do trabalho sujo que alguns soldados se recusavam a fazer, como a degola dos guerrilheiros”.[37]


 é repórter especial da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 9 de março de 2006, 13h18

Comentários de leitores

1 comentário

1. Os fatos narrados - sem juizo de valor - sã...

Marchini (Outros - Internet e Tecnologia)

1. Os fatos narrados - sem juizo de valor - são impressionantes e, com certeza, pincelados do que foi a realidade. A violência de ambos os lados foi bastante mais cruenta. 2. Entendo também que ainda prevalece no imaginário coletivo a versão de guerrilheiros românticos lutando pela pátria, o que não é exclusivamente verdade; houve reação e repressão tão brutal quanto as ações iniciais, nada foi de graça, sempre foi chumbo trocado. 3. Talvez em algumas décadas a verdade menos passional apareça.

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