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Coração das Trevas

Jornalista mostra versão dos militares da Guerrilha do Araguaia

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Três semanas antes do início da Terceira Campanha, José Carlos havia liderado um ataque ao posto da Polícia Militar do Pará na Transamazônica. Os guerrilheiros tocaram fogo no telhado de palha do posto, prenderam os policiais e foram embora com fuzis, munição e roupas. A ação repercutiu na região. Nas primeiras horas do Dia D, Exército já estava engajado na caçada ao grupo de Zé Carlos.[17] Seis dias depois, em 13 de outubro, o grupo estava no sítio do camponês Antônio Alfredo, colaborador dos guerrilheiros. Mataram dois porcos a tiros. A equipe do Dr. Asdrúbal estava por perto. É Asdrúbal quem relata:

“Estávamos quase desistindo de procurá-los. Mas aí escutamos tiros, a menos de 300 metros, e fomos atrás, até enxergamos. (...) Tinham caçado dois porcos, fizeram lá um caçuá grande, para carregar, e estavam senhores da situação. Eu puxava o corpo, rastejando. O cara que estava de costas pra mim, que era o Zé Carlos, estava sentando num toco, com o gorro da PM na cabeça (...) Quando eles ficaram em linha, não dava mais pra rastejar. O Zé Carlos, sentado, estava com um fuzil apoiado nas pernas. Eu me levantei. Ele me olhou. Eu gritei: ‘Fica quieto’. Ele tentou pegar a arma. Um deles atirou. E atirou em mim. Aí pronto. Foi aquele tiroteio desgraçado. Um deles, o João Araguaia, fugiu. O soldado devia ter atirado, mas não atirou. Eu gritava: ‘Atira, desgraçado, atira!’. E o cara não atirou. Ele tremia”.[18]

O grupo foi enterrado à beira da rodovia Transamazônica, nas imediações da base militar de Bacaba – ano e meio depois, teriam sido todos eles exumados para cremação, conforme detalharei adiante. Assim Velho Mário registra em seu Diário a morte, que para ele, seria terrível, a mais dolorosa de todas, a do próprio filho:

“30/10 – Novo acesso de malária e más notícias do DA (para mim particularmente terríveis) deixaram-me em estado de não poder escrever coisa alguma. Hoje, livre do ataque de impaludismo e, em parte, refeito do choque emocional, disponho-me a relatar o sucedido com um grupo de combatentes daquele D. No dia 26, chegaram Joca e Ari, depois de caminharem 12 dias, gastos na ida e na volta, até o ponto com os mensageiros do DA. Jo. relatou que vieram ao local do encontro Piauí e Antonio. O VC daquela unidade guerrilheira contou o seguinte: no dia 13, um grupo chefiado por ZC, composto por Nunes, João, Zebão e Alfredo, dirigiu-se a um depósito para apanhar farinha. No dia anterior, Alfredo e outros combatentes insistiram junto ao C para se matar 3 porcos do D, que estavam numa capoeira abandonada. ZC repeliu com energia a proposta, dizendo que ela afetava a segurança e que “não se devia morrer pela boca”. Por isso, só iriam buscar farinha. No entanto, no meio do caminho, sob pressão de alguns combatentes, deixou-se convencer de apanhar os porcos. E o grupo enveredou capoeira adentro. Então, foram cometidas uma série de facilidades: os porcos foram mortos a tiros, acendeu-se o fogo, não se deu importância ao helicóptero que sobrevoava o local e permaneceu-se demasiado tempo na capoeira. Ainda estavam os guerrilheiros dedicados à tarefa de tratar os porcos quando foram surpreendidos pelo inimigo. João procurou fugir ao ouvir descargas de metralhadora. Mas obteve êxito. Foi ele que relatou o ocorrido. Em sua opinião, os outros 4 combatentes, que não apareceram no acampamento, foram mortos. Assim, o DA foi duramente golpeado. Perdeu seu comandante, homem capaz e um dos mais puros revolucionários. Estava ligado ao P desde os 16 anos e ainda podia dar muito à revolução. Era excelente comandante. O primeiro erro que, no entanto, cometeu, lhe foi fatal. Tinha 27 anos e seu verdadeiro nome era André Grabois. Nunes era a terceira pessoa do D. tinha raras qualidades de combatente e destacava-se por seu espírito combativo. Seu nome era Divino Ferreira de Souza. Tinha 31 anos. Zebão, jovem espirituoso, incorporou-se à guerrilha aos 19 anos e agora tinha 23. Era um guerrilheiro exemplar. Alfredo, que não conheci, era elemento recrutado entre a população local. Eficiente, calmo e corajoso, constituía a melhor aquisição das FF GG entre os camponeses”[19]

 é repórter especial da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 9 de março de 2006, 13h18

Comentários de leitores

1 comentário

1. Os fatos narrados - sem juizo de valor - sã...

Marchini (Outros - Internet e Tecnologia)

1. Os fatos narrados - sem juizo de valor - são impressionantes e, com certeza, pincelados do que foi a realidade. A violência de ambos os lados foi bastante mais cruenta. 2. Entendo também que ainda prevalece no imaginário coletivo a versão de guerrilheiros românticos lutando pela pátria, o que não é exclusivamente verdade; houve reação e repressão tão brutal quanto as ações iniciais, nada foi de graça, sempre foi chumbo trocado. 3. Talvez em algumas décadas a verdade menos passional apareça.

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