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Coração das Trevas

Jornalista mostra versão dos militares da Guerrilha do Araguaia

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A partir daí, quase nada ficou registrado. Sabe-se que houve um período de 11 meses sem baixas entre os guerrilheiros, entre novembro de 1972 e outubro de 1973. Os guerrilheiros chamam esse período de “trégua”. As Forças Armadas, contudo, usaram o tempo para promover operações de reconhecimento e de assistência à população. Conseguiram infiltrar no convívio com os guerrilheiros 35 agentes secretos – soldados, cabos e sargentos de carreira, quase todos caboclos, cafuzos e mamelucos, gente vinda das camadas populares da sociedade, muitos deles conhecedores dos traquejos dos camponeses e moradores da floresta. Essa grande ação de espionagem e infiltração foi batizada de Operação Sucuri.

A terceira campanha, a Operação Marajoara, decidiu o episódio. A 7 de outubro de 1973, 750 membros das tropas especiais do Exército,[7] escalonados em três grupos de 250 homens, operando em rodízio, entraram na selva em trajes civis com a única missão de extirpar os guerrilheiros, com máximo rigor e precisão cirúrgica. Saíram de lá em fins de setembro de 1974, com a guerrilha completamente dizimada. Foi nesse período de um ano que teriam ocorrido violações sistemáticas dos Direitos Humanos e das Convenções de Genebra,[8] com tortura, decapitações e execução de prisioneiros. Jacob Gorender assim resume essa campanha:

“Duas derrotas anteriores deixaram evidente que a tática do Exército precisava mudar (...) Ao invés de conscritos bisonhos, agora vinham pára-quedistas em pequenos grupos, protegidos e coordenados, portando fuzis FAL e metralhadoras leves. (...) Cercados, colocados na defensiva, sem qualquer possibilidade de reposição de baixas (ao contrário do inimigo), os guerrilheiros iam sendo dizimados.”[9]

O DIA D

O Dia D foi marcado para 7 de outubro de 1973 – de acordo com o Dossiê Araguaia — e a partir de então, seguindo o jargão militar, todos os preparativos antes e os acontecimentos depois seriam chamados de D menos cinco, por exemplo, ou D mais três. Poucos fatos na história brasileira foram tão cobertos de sigilo quanto o desembarque no Araguaia nessa Terceira Campanha. O Dossiê revela que a operação teve início, na verdade, ao pôr-do-sol do dia D menos um, a 06 de outubro de 1973, quando três aviões C-115, os Buffalo, decolaram da Base Aérea do Galeão levando uma Companhia, com 110 homens, da Brigada de Pára-Quedistas. Desembarcaram em Xambioá. No Dia D menos quatro[10], já haviam partido da Base Aérea de Brasília partiram dois aviões C-47 do Correio Aéreo Nacional, levando um grupo de 48 agentes de informações, 24 em cada aeronave. Um grupo foi para Xambioá, o outro para Marabá. De Belém, 130 homens do Batalhão de Guerra na Selva partiram de caminhão rumo a Marabá. Teriam todos que estar a postos no Dia D.

“A chegada e o desembarque dessa tropa foram realizados de forma a não chamar a atenção da população local”, descreve o Dossiê Araguaia. A coordenação dessa pequena operação de desembarque no Araguaia coube ao brigadeiro Roberto Faria Lima, comandante do Comando Geral do Ar. Até então, os combates no Araguaia eram tão sigilosos que apenas no dia D menos dois, ou seja, véspera do desembarque das tropas, Faria Lima foi procurado pelo brigadeiro Newton Vassallo, chefe do CISA. Só então ficou sabendo que ainda havia uma guerrilha no Araguaia. Superior na hierarquia, duas patentes acima, Faria Lima se mostrou furioso com Vassallo[11] por não ter sido informado antes do problema. Vassallo explicou que, até aquele momento, o assunto estava exclusivamente com o ministro Araripe Macedo. Faria Lima aceitou levar tropas numa missão secreta, portanto, sem que qualquer registro oficial deixasse rastros para a história.

 é repórter especial da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 9 de março de 2006, 13h18

Comentários de leitores

1 comentário

1. Os fatos narrados - sem juizo de valor - sã...

Marchini (Outros - Internet e Tecnologia)

1. Os fatos narrados - sem juizo de valor - são impressionantes e, com certeza, pincelados do que foi a realidade. A violência de ambos os lados foi bastante mais cruenta. 2. Entendo também que ainda prevalece no imaginário coletivo a versão de guerrilheiros românticos lutando pela pátria, o que não é exclusivamente verdade; houve reação e repressão tão brutal quanto as ações iniciais, nada foi de graça, sempre foi chumbo trocado. 3. Talvez em algumas décadas a verdade menos passional apareça.

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