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Jornalista paraense é agredido pelo diretor do jornal O Liberal

O fiel leitor e telespectador, que acredita no que lê e ouve, está realmente sendo servido pela verdade? Tem condições e capacidade de verificar a qualidade do produto que lhe servem para não comprar gato por lebre?

Estas perguntas precisam ser respondidas, principalmente em função do domínio que o grupo Liberal exerce em Belém, sem paralelo em qualquer outra capital brasileira. Em todas elas a disputa é bem maior. Esse quase-monopólio dá à empresa um poder sem medidas, do qual usa e abusa, tanto sobre o público quanto sobre anunciantes e os poderosos de ocasião, impondo-lhes suas condições leoninas, interesses e caprichos.

Muitos temem mais do que admiram o grupo Liberal. A empresa tem por norma não publicar cartas consideradas inconvenientes, nem que a justiça tente lhe obrigar a cumprir a lei (determinação que raramente chega ao fim em eventuais processos). Além disso, mata em vida aqueles que desafiam sua vontade. Uma vez indexado, o desafeto jamais sairá nas páginas de O Liberal ou na tela da TV Liberal. Para pessoas públicas, isso pode equivaler mesmo à morte.

Por isso, a controvérsia foi varrida dos veículos da casa. Ela também não se interessa pela opinião alheia. Exercita seu mando conforme as variações de interesse. Nos momentos em que se negou a comparecer ao caixa da corporação para atender a cobrança feita, a Companhia Vale do Rio Doce, a maior empresa em atividade no Estado, foi vítima de campanhas sistemáticas e transformada no inimigo público número um do Pará. Quando se curvou, recebeu os afagos devidos. Assim foi, sistematicamente, até que a empresa, sob nova direção privada, decidiu enfrentar o ultraje de ser levada às barras do tribunal como má pagadora. O objeto da cobrança, dessa vez, era uma duplicata, mas uma duplicata fria, ou seja, sem endosso do emitente, não confirmada por ele. A CVRD reagiu com uma ação de indenização civil, além de contestar a cobrança indevida.

Parecia que começaria uma guerra entre gigantes, mas tudo não passou de mais uma batalha de Itararé, aquela que ficou célebre por nunca ter havido. As ações passam agora por um momento de inanição no fórum de Belém. As partes fizeram libações noturnas no Rio de Janeiro e apararam as arestas. As moedas da Vale voltaram a tilintar no caixa do Liberal e a besta-fera de semanas antes virou príncipe da responsabilidade social, etiqueta que pode se transformar em gazua quando usada com responsabilidade para inglês ver.

Foi assim, antes, com a Rede Celpa e o Banco da Amazônia. A Rede também tentou se livrar de patrocínio furado ao grupo. Depois de saraivadas de matérias de denúncia, seguiu o caminho de todos os anunciantes. O Basa foi ameaçado com escândalos anunciados por ter veiculado apenas meia página de balanço, que coube em três páginas do concorrente. Mas quando publicou integralmente o balanço seguinte, as operações nebulosas ficaram subitamente solares e nunca mais se falou nisso. No recente escândalo do Banco Santos, escândalo mesmo, o Basa se beneficiou do silêncio obsequioso do grupo.

O contraste é brutal e chocante para qualquer pessoa que usa a memória como ferramenta de informação. Num momento o acusado é fulminado com editorial de primeira página, manchete de capa de jornal, como há muito tempo não se pratica na imprensa em qualquer parte do mundo. Parece que mereceu o ataque terrível por razões substantivas. No entanto, uma vez cumprida a função que lhe é atribuída, como anunciante, o tratamento muda do vinagre para o vinho, sem qualquer explicação ao distinto público, sem um mini-editorial (ou suelto) que seja. O jornal pode mudar de opinião, mas precisa explicar por que era contra antes e ficou a favor depois. Sem essa salutar providência, a repentina transformação pode ser creditada a interesses ocultos, escusos. Em linguagem de rua, chantagem.

Foi sempre assim numa publicação subterrânea, o Jornal Popular, criado e recriado por Silas Assis. Mas esse jornal era pouco mais do que um pé-de-cabra. Sua tiragem costumava ser uma fração da anunciada, boa parte dela distribuída gratuitamente, conforme o objetivo do editor. Um mosquito diante do elefante. Os métodos, porém, o aproximaram desse tipo de comportamento que o grupo Liberal costuma ter quando seus interesses comerciais são contrariados. A parte editorial passa a ser uma extensão a serviço do comércio, sem a menor preocupação com a coerência, a consistência e o direito de explicações do público.

O que sustenta o poder inquestionável de Romulo Maiorana Júnior não é o porte do seu negócio. Os Yamada, nesse ponto, são bem maiores. É a natureza especial do seu produto, a informação. Para RM Júnior, nos momentos de conflito, o que menos interessa é se a informação é certa, mas se é útil, se servirá aos seus propósitos. O resto é vã filosofia, ainda que de filosofia o personagem nada saiba.

Revista Consultor Jurídico, 24 de janeiro de 2005, 21h40

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