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Inquirição agressiva

Advogado faz perito levar choque para desmentir testemunho

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No banco das testemunhas, o perito em eletricidade, identificado nos autos como Dr. A.P. Meliopoulos, prestava esclarecimentos técnicos em uma disputa de dez anos entre fazendeiros criadores de gado e uma companhia de eletricidade de Utah, nos EUA. Os fazendeiros acusam a companhia de fazer com que seu gado leiteiro tome choques constantemente, por causa da dispersão de corrente elétrica no solo, a partir de sua linha de transmissão.

Ao ser questionado pelo advogado dos demandantes, o perito da companhia de eletricidade ridicularizou o dano que qualquer dispersão de corrente elétrica no solo poderia causar ao gado leiteiro. “A corrente parasita é tão fraca que equivale à energia de uma pilha AAA, de apenas 1,5 volt. Ela não é sentida, nem mesmo por um ser humano”, testemunhou Meliopoulos.

O advogado Don Howarth, representando os fazendeiros, alegou que não é bem assim e propôs um teste. Mostrou a Meliopoulos uma caneta — uma espécie de caneta elétrica de brinquedo, inventada recentemente para emitir choques — durante o que foi descrito pelo juiz James Brady como “uma inquirição cruzada agressiva”:

“O senhor acabou de dizer aos jurados que, se fecharmos o circuito de uma pilha AAA, o senhor sequer sentiria qualquer choque, certo? Isso aqui é uma caneta, na qual eu coloquei uma bateria AAA. Se o senhor pressionar a parte de cima da caneta o circuito vai se fechar. O senhor gostaria de testá-la, para ver se sente o choque da bateria AAA?”, entregando a caneta ao perito. “Vá em frente, pressione o botão da caneta e diga ao júri se sentiu ou não um choque”, acrescentou.

O perito concordou, sem titubear. Levou um choque que o fez se mexer bruscamente na cadeira e deixar a caneta cair. Não precisou dizer aos jurados o que sentiu. Todos viram.

No entanto, havia um componente “perverso”, que o juiz descobriu mais tarde, ao examinar a atitude do advogado e as possibilidades de punição a ele. O juiz descreveu a caneta, na decisão em que mandou o advogado pagar uma multa de US$ 3 mil — US$ 1 mil para o perito e US$ 2 mil para a outra parte, a companhia de eletricidade. Embora seja alimentada por uma pilha de 1,5 volt, a caneta elétrica tem um transformador interno que pode gerar até 750 volts. “Uma voltagem que pode até causar a morte de uma pessoa com saúde ruim”, escreveu.

Segundo o juiz, a embalagem da caneta declara que o dispositivo não é recomendado para adultos com mais de 60 anos e crianças com menos de 12 anos, e para qualquer pessoa com saúde ruim. Meliopoulos tem mais de 60 anos e Howarth não lhe fez perguntas sobre o estado de sua saúde.

O juiz levantou a questão da “agressão à testemunha” e afirmou que “o tribunal tem o poder de sancionar um advogado por contato nocivo ou ofensivo com a testemunha”.

Ele escreveu: “Uma testemunha tem o direito de estar segura e protegida contra agressões ou intimidação física. Se o senhor Howard tivesse informado à corte que iria aplicar um choque no Dr. Meliopoulos, isso não seria permitido. Testemunhas são chamadas para responder a perguntas, podendo ser testadas suas qualificações, memória e credibilidade. E também para conferir seus depoimentos anteriores e explicar quaisquer inconsistências”.

E continuou: “Acrescentar a exigência de que façam isso, em um ambiente hostil, onde podem se sujeitar a choques elétricos sem advertência prévia, está muito longe do decoro e do profissionalismo requerido dos advogados e não pode ter lugar em uma sala de julgamento”.

O advogado Jefferson Gross, de Salt Lake City, que também representou os fazendeiros, disse que Howarth vai recorrer, porque a decisão do juiz não faz sentido. “Essa caneta é um brinquedo de crianças”, ele disse ao jornal da ABA (American Bar Association). “Ela transmite apenas um choque leve. A única coisa forte nela é o elemento surpresa”, afirmou.

Os advogados da companhia elétrica pediram ao juiz que cancelasse a autorização especial que o tribunal concedeu a Howarth, que é da Califórnia, para atuar no caso em Utah. O juiz negou o pedido. Mas impôs limitações à atuação do advogado nas próximas inquirições cruzadas do julgamento.

 é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Revista Consultor Jurídico, 15 de maio de 2014, 11h10

Comentários de leitores

4 comentários

Errou o juiz? 2

Bruno V Barbosa (Juiz Federal de 1ª. Instância)

Dr. Marcos Alves Pintar, apenas complementando, acho que o juiz ficou numa situação complicada, pois deferindo a prova, foi criticado, se tivesse indeferido, fatalmente seria criticado por 'cerceamento de defesa'. Após os fatos, fica mais fácil visualizar um erro, mas no momento da audiência, a avaliação era difícil.
Sobre o advogado, penso que pôs em risco a vida de um inocente para "melhor" defender seu cliente em uma causa, aparentemente, de cunho apenas patrimonial, o que considero muito triste.
E o perito também não foi bem, ao aceitar um desafio a respeito do qual, aparentemente, não conhecia os riscos. Mas, talvez tenha acreditado 100% na palavra do advogado, que aparentemente informou que o choque seria pequeno. E não posso criticar o perito por ter confiado na palavra de outra pessoa, já que a boa-fé é presumida. Obrigado.

Errou o juiz?

Bruno V Barbosa (Juiz Federal de 1ª. Instância)

Dr. Marcos Alves Pintar, com todo o respeito, de acordo com a matéria, o advogado pôs em risco a vida de um senhor de mais de 60 anos e quem errou foi o juiz? Por favor, visão unilateral tem limites...

Não errou o juiz

Felício de Lima Soares (Promotor de Justiça de 1ª. Instância)

Ao que consta da matéria, o advogado não mencionou que a caneta tinha um capacitor (esse é o nome técnico adequado), apenas teria dito que havia uma bateria AAA de 1,5V; o circuito poderia ser de uma prosaica lanterna de LED (o que suponho que o perito imaginou) artefato que certamente não geraria corrente suficiente para um choque elétrico. Quem DE FATO tem alguma noção de engenharia elétrica sabe do que falo... É bom evitar falar do que não se conhece! Fica a dica!

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