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The New York Times

Série baseada em transcrições judiciais tem episódios cômicos

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Um depoimento que perdeu o rumo, porque o advogado não podia crer que o depoente não sabia o que era “máquina fotocopiadora”, foi imortalizado no primeiro vídeo de uma série sobre casos judiciais extravagantes que o jornal The New York Times lançou, no início do mês (veja vídeo abaixo).

Os roteiros dos vídeos serão sempre transcrições “verbatim” (palavra por palavra) de depoimentos ou testemunhos nos tribunais. Nada no texto é editado, nem para melhorá-lo, nem para comprimir o tempo.

Mas os atores, que representam as partes no tribunal, podem ser criativos na dramatização do texto. Afinal, não há imagens, nem descrição, do que ocorreu no dia do depoimento. Assim, o texto, o único material de referência disponível, é literal, mas a representação é ficcional, segundo os produtores do vídeo.

As transcrições selecionadas tendem, de uma maneira geral, a alternar situações dramáticas, cômicas e curiosas, como a do primeiro vídeo, em que as discussões se tornam quase insanas, de certa forma, e parecem penetrar na área do absurdo, no entendimento dos produtores.

No primeiro vídeo da série, o advogado de duas empresas demandantes trava um longo debate com o depoente, sob os protestos do advogado de um órgão público demandado, tudo por conta da definição de “máquina fotocopiadora” ou apenas “fotocopiadora”.

O vídeo começa com o advogado das demandantes perguntando ao administrador de TI do Departamento de Registros do Condado de Cuyahoga, em Ohio, se havia alguma “máquina fotocopiadora” na seção. O depoente responde: “Quando você diz ‘máquina fotocopiadora’, o que quer dizer com isso?”

A partir daí, o depoimento desanda. Fica a impressão de que o advogado das empresas aproveitou a deixa para estabelecer, com sua insistência na definição de “máquina fotocopiadora”, que o depoente não era uma pessoa qualificada para depor nesse caso específico.

No caso em questão, as empresas Data Trace Information Services e Property Insight, que coletam centenas de páginas de informações públicas por semana, processaram o Departamento de Registros do condado, que decidiu cobrar US$ 2 por página de documento fotocopiado.

As empresas queriam comprar um CD, que continha milhares de páginas, por um preço razoável. Mas o departamento não queria vender o CD. Queria vender fotocópias de cada página. A US$ 2 por página, cópias xerográficas das milhares de páginas contidas no CD poderiam custar cerca de US$ 5 mil.

Depois de dois anos em andamento, muitos depoimentos, 600 páginas de documentos, o processo foi encerrado sem ir a julgamento. O tribunal superior de Ohio mandou o Departamento de Registro disponibilizar o CD ao público por US$ 1.

Salvou-se, para a história, a coleta do depoimento do administrador de TI. Veja a representação do depoimento que perdeu o rumo no vídeo do The New York Times. Para quem não está familiarizado com o inglês, há uma transcrição do roteiro, em português, abaixo. Mas é bom assistir o vídeo em inglês, para apreciar o desfecho.

Transcrição do roteiro:

[Legenda: D – depoente; AE – advogado das empresas; AD – advogado do Departamento de Registros]

AE - Durante o tempo em que trabalhou no setor de computação, o Departamento de Registro teve uma máquina fotocopiadora?

AD – Protesto.

AE – Alguma máquina de fotocópia de qualquer tipo?

D – Quando você diz “máquina fotocopiadora”, o que quer dizer com isso?

AE – Deixe eu ser... Deixe eu me certificar de que entendo sua pergunta. Você não sabe o que é uma máquina copiadora?

D – Não, eu só quero ter certeza de que vou responder corretamente sua pergunta.

AD – Dave [nome do AE], eu protesto contra o tom da pergunta. Você faz isso soar como se fosse inacreditável para você que ele não saiba a definição do que é uma máquina fotocopiadora.

AE – Não estou lhe pedindo para definir. Eu perguntei se ele tinha uma.

D – Quando você diz máquina fotocopiadora, o que você quer dizer?

AE – Me deixa esclarecer. O termo “máquina fotocopiadora” é tão ambíguo que você não pode capturar em sua mente o que é uma máquina copiadora em uma sala do departamento?

D – Eu só quero ter certeza de que vou responder corretamente sua pergunta.

AE – Bem, já vamos saber. Se você disser sim ou não, eu posso dar prosseguimento, mas me parece... Se você realmente não sabe o que é, em um escritório, uma máquina fotocopiadora, eu gostaria que o Tribunal Superior de Ohio ouvisse isso de você.

D – Eu só quero ter certeza de que vou responder corretamente sua pergunta.

AD – Há tipos diferentes de fotocopiadoras...

AE – Você está falando no lugar dele. Você não está sob juramento. Ele está.

AD – Eu entendo isso, mas eu também entendo a objeção dele. Você quer que ele responda a pergunta. Mas não acho que ela seja justa.

AE – Não é justa?

AD – Não é uma pergunta justa. Uma máquina fotocopiadora poder ser uma máquina que usa tecnologia fotostática, que usa tecnologia xerográfica, que usa tecnologia de digitalização.

AE – Não me interessa que tipo de tecnologia a máquina usa. Em seu departamento... Nós não temos tecnocratas no Tribunal Superior de Ohio. Temos pessoas como eu, pessoas comuns. Não estou realmente interessado no elemento tecnológico disso.

AD – É isso. Você está criando um problema...

AE – Não em minha opinião. Vocês têm máquinas fotocopiadoras no Departamento de Registro? Se você não sabe o que isso significa, por favor, diga à corte que você não sabe o que significa não ter uma máquina fotocopiadora em um escritório.

D – Eu gostaria de responder sua pergunta da melhor forma possível.

AE – Eu estou pedindo para você respondê-la.

D – Então, se você pudesse me explicar o que quer dizer por...

AE – Eu não vou fazer isso, porque eu quero que você... Eu quero estabelecer nos autos que você realmente não sabe o que é. Eu quero estabelecer isso. Agora, você sabe o que é ou não sabe o que é? Você entende o que esse termo significa no léxico comum ou não? 

D – Léxico? 

AE – Linguagem comum.

D – Sinto muito. Não sabia o que isso significava. Eu entendo que existem máquinas fotocopiadoras e que há tipos diferentes delas, da mesma forma que...

AE – Há algumas delas em seu departamento?

D – Há tipos diferentes de carros. Alguns deles são a gasolina, alguns são elétricos, e eu estou perguntando se você pode me ajudar me explicando o que você quer dizer com “máquinas fotocopiadoras”...

AE – Esse é um bom ponto.

D – ...Em vez de tentar me fazer sentir estúpido.

AE – Se você se sente estúpido, não é porque eu estou fazendo você se sentir dessa forma.

AD – Protesto.

D – Eu tenho autoconfiança e não tenho qualquer problema...

AE – Não estou dizendo que você é estúpido.

D – Eu não tenho qualquer problema em responder a pergunta...

AE – Eu acho que você está tentando me enrolar.

AD – Dave, a palavra “fotocopiadora” está em debate neste caso e você está perguntando a ele se alguma coisa é ou não é uma máquina fotocopiadora, o que é uma conclusão jurídica...

AE – Esse não é um caso de patente. Não há lei que defina... Na qual estou lhe pedindo para definir tecnologia para mim. Estou pedindo... Eu quero descobrir, da perspectiva de um leigo, não da perspectiva de um engenheiro, não da perspectiva de um técnico, mas da ... Eu tenho uma ideia. Que tal isso: Você já ouviu alguma vez o termo “fotocopiadora” ou “fotocópia” ser usado no Departamento de Registro por alguém?

D – Fotocópia? Estou certo que, nesse tempo que estou lá, ouvi alguém usar esse termo.

AE – E você já ouviu alguém usando esse termo em referência a um dispositivo ou máquina em particular, dentro do Departamento de Registro? Por exemplo, você já ouviu: “Você pode fazer uma fotocópia para mim?” — esse é um exemplo de léxico de escritório.

D – Essa terminologia em particular eu não testemunhei.

AE – Qual foi o contexto em que você ouviu o termo "fotocópia" usado no Departamento de Registro?

D – Tenho certeza de que foi usado, mas não disse que me lembro em que ocorrência específica.

AE – Está certo. Mas você entende que, de uma maneira geral, as pessoas têm usado o termo “fotocópia” dentro do Departamento de Registro, em termos de qualquer coisa que poderia ser feita lá. Isso é verdade?

D – Estou certo que já foi usado. Não me lembro da ocorrência específica ou como foi usado. Mas estou certo de que foi usado.

AE – E é justo dizermos que [esse termo] tem sido usado, em termos de ser capaz de copiar uma folha de papel em outra folha de papel, usando a máquina? Não? Não está certo disso?

D – Estou certo de que foi usado. Não me lembro a ocorrência específica em que ele foi [usado].

AE – Você tem secretária?

D – Não.

AE – Alguém no departamento tem secretária?

D – Sim.

AE – Você já ouviu alguma vez uma secretária usar o termo “fotocópia”?

D – Não.

AE – Vocês têm máquinas lá, na qual eu posso colocar um documento em papel, apertar um botão ou dois, e cópias daquele documento em papel, também em papel, saem da máquina? Vocês têm tal máquina?

D – Sim.

AE – Como você chama essa máquina?

D – Xerox.

 é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Revista Consultor Jurídico, 6 de maio de 2014, 18h30

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