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Lições da derrota

O 7 a 1 e a facilidade de acusar e julgar

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Quarenta e oito horas após a épica derrota que defenestrou a seleção brasileira da Copa do Mundo da FIFA 2014 – e que talvez tenha sepultado a antonomásia do país do futebol –, os ânimos continuam compreensivelmente exaltados. A cobertura midiática do abalo do emocional coletivo é impiedosa a nível mundial, e é de se esperar que os debates a respeito permanecerão por um bom período, mesmo nas ocasiões e locais mais inusitados. De todo modo, o esporte vai muito além do suor do atleta, e a derrota por 7 a 1 para o time alemão deixa lições para a vida individual e social de todo brasileiro.

Engana-se por completo quem crê no isolamento do futebol como mais um esporte. Historicamente, a cultura de arena sempre serviu à política do pão e circo porque é interessante a determinados setores desviar o foco das atenções do público – que é implacável. No cronograma da Copa 2014, primeiro surgiram os escândalos sobre falcatruas e superfaturamento nos preparativos de infraestrutura. Depois houve festa, e então veio a esperança. Por fim, erros foram cometidos, e agora virão as crucificações.
 A menos que sintam na própria pele, as pessoas se esquecem de que o fator psicológico existe – e é levado a sério em qualquer círculo de gestão e liderança. À superioridade técnica, a equipe alemã foi capaz de agregar a superioridade relativa quando se valeu oportunamente do descalabro emocional que afetou jogadores e torcedores brasileiros. Independentemente dos erros táticos que talvez tenham sido repetidos desde o início do campeonato, é fato que a seleção vinha sendo aplaudida e, enquanto vencia, representava o País. Ocorre que a opinião pública sempre foi desonesta consigo mesma e os fins acabam hipervalorados em relação aos meios; em todos os aspectos da vida individual ou coletiva, as feridas sempre tendem a ser eternizadas. Talvez seja porque não é o carinho que deixa a cicatriz.
Nesse aspecto, a massa sempre foi estupidamente injusta. No caso dessa Copa, bastou uma única derrota para que os posicionamentos tombassem para o outro extremo e para que se subvertesse qualquer trajetória bem sucedida. Aliás, essa mesma facilidade do ser humano de acusar e de julgar ao estilo inaudita altera pars (“sem que se ouça a outra parte”) é a mesma que permeia a vida privada, que cria os rótulos na política e que inflama o processo penal – onde, contra o bom senso e contra a própria lei, o mero ato de apontar alguém como culpado é aceito como presunção de sua responsabilidade. A História está repleta de atuações da tão volátil sabedoria popular, apoiada na mentirosa crença de que vox populi, vox Dei (“ a voz do povo é a voz de Deus”). No passado, a voz popular mudou tantas vezes de lado que chegou a eleger quem mais tarde a calaria, e a se escarnecer da execução de seus próprios heróis.
Olhando sob outra perspectiva, curiosamente, o triste episódio vivido pela seleção verde-e-amarelo e por cada cidadão-torcedor parece ter refletido no campo a própria sociedade brasileira: alguns demonstraram garra, outros desespero, e houve até quem desistisse quando algo não ia bem. Mas, lamentável e obviamente, não poderia faltar o elemento malandragem – carinhosamente apelidado de jeitinho brasileiro, retratado no cinismo de alguns jogadores que simulavam faltas nas mais torpes oportunidades. Preferir ludibriar o árbitro para obter vantagem do que disputar a posse de bola no campo deixou evidente que a tão enraizada cultura da trapaça como subterfúgio para vencer precisa ser repensada – e foi, infelizmente, escrita com letras garrafais nessa partida. Por outro lado, o adversário alemão mostrou preparo, eficiência e lealdade ao esporte. O resultado não poderia ser outro.
No último ano, sobretudo pelo incremento da tecnologia, parece inaugurar-se no País o despertar de uma (intenção de se ter) consciência política – ainda que rudimentar. No entanto, cabe a cada cidadão refletir sobre seu papel e sua postura no dia a dia para não haver (mais) hipocrisia, concentrando-se a culpa no ícone futebolístico.
Além disso, a vida segue para o cotidiano brasileiro, sobretudo em ano eleitoral, no qual a cartela de candidatos é incrível, e em que a falta de diálogo e o desequilíbrio na relação Estado-cidadão está evidente. Bola pra frente. É hora de mexer nas feridas, e há muito o que se fazer. Só que agora não vai ter anestesia.

 é advogado criminalista, especiailsta em Direito Público pela Universidade Candido Mendes, pós-graduando em Direito Penal Econômico pela Universidade de Coimbra (Portugal) e graduado em Direito pelo Ibmec/RJ. Membro da Association Internacional de Droit Pénal (AIDP) e do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM).

Revista Consultor Jurídico, 11 de julho de 2014, 18h46

Comentários de leitores

3 comentários

Assim, até eu, pô!

Radar (Bacharel)

Prever o passado é fácil. A única coisa fácil de se prever a respeito do futuro, é que haverá sabichões apotando defeitos e responsabilidades alheias; dando receitas de como ser e fazer. Ninguém se aventura a dizer antecipadamente que o time será goleado vergonhosa e impiedosamente pelo adversário. Mas depois do desastre posam de superiores e saem distribuindo vaticínios, com um implícito "eu já sabia".

Aplausos e apoio sim, mas não incondicionais.

alvarojr (Advogado Autônomo - Consumidor)

A seleção era apoiada pois é isso que se espera dos cidadãos/torcedores. Contudo, não não ouvi ninguém dizer que realmente houve o pênalti no Fred no jogo contra a Croácia, tampouco que ele estava certo ao simular a falta.
A desfaçatez de Fred, Marcelo e do próprio Felipão (o qual mostrou que não conhece as regras do jogo ao afirmar a 'injustiça' do cartão amarelo dado a Thiago Silva no jogo contra a Colômbia) nunca foram 'festejadas' pelo povo.
Que torcedor se regozija em vencer de foram desonesta? Nem mesmo os que torcem pelo Fluminense batem no peito para dizer 'ganhamos no tapetão'.
Não se trata de procurar um bode expiatório mas sim de se questionar o status quo do futebol brasileiro.
O comando da CBF foi concedido de forma obscura a um dinossauro remanescente do regime militar/Arena que fez um discurso na Assembleia Legislativa de São Paulo que acabou levando à perseguição e morte de Vladimir Herzog. O técnico escolhido tinha acabado de ser um dos principais responsáveis pelo segundo rebaixamento do Palmeiras à série B do Campeonato Brasileiro. Onde está a meritocracia? Ou está só ocorre entre os 'amigos do rei'?
A soberba então... Ao responder às críticas do presidente da Federação Catarinense o 'comandante' retrucou que, por ter obtido o único título da Copa do Brasil do Estado de Santa Catarina com o Criciúma em 1991, este é que devia lhe 'pedir benção'.
No entanto, de fato é preciso reconhecer o esforço de alguns jogadores como David Luiz que até as oitavas de final era estatisticamente o melhor jogador da Copa. Também é preciso reconhecer e aplaudir a INCONTESTÁVEL vitória da seleção alemã.
Antipatia pelos nossos vizinhos sul-americanos à parte, espero que nossos algozes possam se sagrar campeões.
Álvaro Paulino César Jr.

Sabedoria popular...

Observador.. (Economista)

Permanentemente manipulada.Isto o articulista esqueceu de dizer.Não sei ele, mas não conheço alguém que tenha gostado da seleção, desde o início.Conformados com ela é outra coisa.Apoiando-a, até por patriotismo (afinal, não são só alemães que podem ser patriotas) é outra coisa. Conformados, inclusive com o fato do técnico (Felipão) ter dito que quem não estivesse satisfeito "poderia ir para o Inferno"...ou algo assim.Bem ao gosto daqueles que detém o poder nestes tristes trópicos.Não se pode discordar.Não se pode divergir. Fomos moldados ao gosto de quem nos governa e de todo um sistema que tem amparado tais "prima-donas" . Mesmo assim, fiquei chocado.Como fomos infantilizados .Olhando para alguns em campo, era claro que queriam "papai e mamãe" ali para acudir.Para dizer o que fazer.E ainda somos mais infantilizados por chamarem jogadores profissionais de "meninos".Entram em campo igual meu filho entra no jardim de infância.Para que?Isto demonstra o que?Desde quando união se mede assim?
Quando a sociedade irá acordar e perceber o que o sistema tem feito com ela?Com os brasileiros em geral.Quem controla os mecanismos (Executivo, Legislativo e Judiciário), quer mais é deixar o povo assim.Tolo, infantilizado e perplexo diante da adversidade.Eternamente dependente do "papai e mamãe" travestidos no Estado paternalista e em um sistema que é voltado para si e trata o povo como um "mal necessário".
Aqui, o sonho é ser estrela ou encostar no estado.Ou queremos súditos, nos tornando "celebridades" ou vassalos (quando entramos em bons cargos no funcionalismo).
Quando algo dá errado, é assim que pessoas despreparadas para adversidade querem agir.Correr para o papai e mamãe (metafóricos) e, nem sempre, estes poderão agir.
Resta sentar no campo e chorar.

Comentários encerrados em 19/07/2014.
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