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Avanço tecnológico nos leva à Era do escritório virtual

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Quando os celulares chegaram ao mercado brasileiro, em meados da década de 1990, mais ou menos na mesma época que os primeiros provedores de internet, não dava para imaginar o quanto o mundo da informação iria mudar nos quase 20 anos seguintes. Com os velhos StarTacs analógicos e com as lentas conexões discadas, o mundo parecia evoluir lenta e naturalmente para uma nova fase de comunicações.

Passamos a carregar nossos "modernos" aparelhos na cintura como troféus, conquistados após (pasmem) anos na fila de espera da operadora local e sem nos incomodarmos com as altíssimas tarifas para fazer (e para receber) ligações, desde que fossemos vistos por amigos e colegas como alguém antenado na nova tecnologia.

A internet, coitada, sofria com as conexões por modems com velocidade de 2400 e 4800 kbps (kilobits por segundo), mas já nos oferecia o correio eletrônico, uma interessante e barata maneira de falarmos com o resto do mundo sem ter que escrever cartas, colocar um selo e manda-las pelo Correio.

No mundo corporativo, onde o correio eletrônico interno já era uma realidade desde a época dos mainframes, de uma hora para outra todos começaram a perguntar qual era a dificuldade de enviar mensagens para outras caixas postais fora do escritório. Claro que os programas de comunicação tinham que ser refeitos, o domínio (aquela extensão que vem depois da "@" no seu endereço de e-mail) registrado corretamente e os endereços externos associados aos endereços internos de cada usuário antes que as mensagens pudessem ser enviadas para o mundo a partir da sua mesa, mas o esforço para as equipes de informática parecia fazer sentido a longo prazo.

Bom, o tempo foi passando e, no início do atual milênio, aquilo que parecia ser um inferno tecnológico acabou sendo absorvido pelo suporte técnico dos escritórios, misturando os correios eletrônicos interno e externo, sem que o usuário realmente se preocupe em distinguir um do outro.

Na telefonia celular, os aparelhos foram ficando menores, mais leves, mais coloridos, mas sempre serviam primordialmente para falar. Um ou outro modelo apresentava recursos de música ou de fotografia, sem grandes consequências para a evolução das comunicações, sendo apenas outra daquelas evoluções naturais quando sobre tecnologia e os fornecedores não sabem o que fazer com ela.

Em 2001, por motivos traumáticos, o mundo começou a perceber uma nova tecnologia que iria moldar os anos seguintes promovendo a tal da "convergência" sobre a qual os especialistas já estavam discutindo há algum tempo mais que ainda não havia saído do papel. Em 11 de Setembro, Nova Iorque foi alvo do ataque às torres gêmeas e, com a queda delas e a pane geral em praticamente toda a infraestrutura da cidade, todo o circuito elétrico, de telefonia fixa e de telefonia celular ficou inoperante por vários dias.

Os nova-iorquinos, no meio do caos, descobriram que os seus aparelhos Blackberries continuavam funcionando normalmente pois usavam um sinal de rádio que não foi afetado pela queda do circuito de telefonia. A partir daí a RIM, criadora do Blackberry (que até então servia apenas para envio e recebimento de curtas mensagens, como um 'pager' bi-direcional), ganhou o fôlego necessário para desenvolver novos aparelhos e entrar numa briga de "gente grande", olhando o mercado de uma forma que os outros fabricantes de celulares não tinham olhado ainda.

Na percepção deles e na experiência adquirida com os Blackberries originais, o teclado completo é uma peça fundamental para envio de mensagens ao invés de usar o teclado numérico que se transformava em letras à medida que íamos usando a mesma tecla várias vezes. Além disto, porque se limitar a mensagens curtas, no formato SMS, quando na verdade o usuário poderia acessar a internet pelo próprio celular e trocar mensagens com o mundo? Em termos práticos, o Blackberry se posicionava como uma ferramenta de trabalho enquanto os outros celulares se posicionavam como uma ferramenta de lazer.

Finalmente, chegamos aos dias atuais onde os celulares evoluíram, ganharam telas maiores e, graças à Apple e à genialidade de Steve Jobs e sua equipe, passaram a contar com o iPhone como seu principal representante nesta nova fase das comunicações. Generalizando e sem tirar o mérito dos demais fornecedores, este é o ponto onde o mundo das comunicações móveis está hoje: de um lado as ferramentas de trabalho usadas para lazer (onde o Blackberry se destaca), e do outro lado as ferramentas de lazer usadas para trabalho (onde temos dois polos fortes, um com o iPhone e outro ainda não muito bem definido entre aparelhos com Android e com o novo Windows 8).

A beleza disto tudo é que, com a presença maciça de supertelefones e tablets de vários fornecedores, é inegável que estamos entrando de fato numa era de escritórios virtuais. Este conceito não está ligado à inexistência de fato do escritório físico, com mesas, cadeiras e nome do escritório na porta, mas sim às possibilidades de acesso à informação que os integrantes do escritório terão mesmo estando fora do escritório.

Até pouco tempo, para ter acesso aos documentos produzidos, usar o sistema do escritório ou olhar o e-mail, era necessário estar fisicamente dentro do escritório onde estes dados estavam digitalmente gravados no servidor. Com o advento da internet pelos celulares, modems para laptops e redes wireless em um monte de lugares, o usuário pode estar praticamente em qualquer lugar e acessar o escritório ou praticamente qualquer outro site.

Neste momento, começa a entrar na equação um novo conceito que está se popularizando há alguns anos: a computação na nuvem (ou cloud computing). Este termo, vindo da representação gráfica de nuvem usada há anos para indicar a internet, serve para dar ao usuário a confiança de que pode chegar aos dados necessários para executar suas tarefas diárias a qualquer momento de qualquer lugar. Na prática, ao invés de gravar um documento no servidor do escritório, o usuário direcionaria a gravação para uma 'pasta' protegida na internet. Para o usuário final, a parte boa é que este documento estará disponível também num sábado à noite ou no meio de uma reunião com o cliente, a partir de um site na internet, com o mesmo grau de confidencialidade que existe atualmente dentro do escritório.

No correio eletrônico, o pioneiro destas grandes aplicações no ambiente web, a invasão de iPhones, tablets e Blackberries no mercado já é uma demonstração clara do potencial destas aplicações. Para o usuário final, não faz a menor diferença se o e-mail está hospedado no servidor do escritório ou na internet, desde que a mensagem chegue ao aparelho assim que recebida. No dia-a-dia, dificilmente o usuário para para pensar onde está este servidor desde que o serviço funcione normalmente.

Este termo "serviço", inclusive, é o que vem norteando as decisões dos fornecedores e dos profissionais de Tecnologia da Informação nos últimos anos. Cada vez mais, o mercado abandona o conceito de propriedade, de compra de produtos, e passa a considerar os serviços disponíveis gratuitamente, a um custo pequeno ou que sejam cobrados pelo uso, que estão à disposição na internet. A gigante Google, por exemplo, disponibiliza gratuitamente o GoogleDocs (documentos gerais), o GoogleCalendar (calendário corporativo) e várias outras ferramentas para pequenas empresas, tudo gratuito.

Para o profissional do Direito, as possibilidades são realmente fascinantes. Imaginem-se sentados num cybercafé qualquer, com o seu laptop, com o seu 'telefone' ou uma máquina pública, acessando todos os seus documentos gravados no GoogleDocs, compartilhando isto com os outros integrantes do escritório. Ao fim da edição do documento (planilhas, documentos, apresentações, etc.), o usuário poderá se logar no seu sistema de gestão do escritório, também disponível num outro servidor que pode estar em qualquer lugar do mundo, e lançar as horas, as despesas, os andamentos processuais, emitir as faturas e acompanhar as despesas, visualizando o seu Contas a Pagar e já providenciando o pagamento via internet banking.

Todos estes serviços já são parte do cotidiano de milhares de advogados independentes ou integrantes de pequenos escritórios, aqui e no mundo, que optaram por não ter o seu espaço físico com o nome na porta. Com isto, o custo fixo despenca e o advogado pode se concentrar no exercício da profissão e no relacionamento com seus clientes. Se realmente precisar de um espaço físico para uma ou outra reunião, centenas de salas de aluguel são oferecidas nas grandes cidades; caso contrário, pode tranquilamente trabalhar em casa (home-office) ou de qualquer outro lugar a partir do qual possa se conectar com o mundo. Uma vez conectado, a nuvem é o limite...

 é consultor, sócio da LegalManager, professor da pós-graduação em Direito na Fundação Getúlio Vargas e de Gestão de Serviços Jurídicos no Centro de Extensão Universitária da Unisinos (Porto Alegre). É formado em Engenharia Eletrônica pela PUC-RJ e MBA pelo INSEAD, na França.

Revista Consultor Jurídico, 9 de novembro de 2012, 12h34

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