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2 fevereiro 2012

Restrição da independência

CNJ precisa cabar com as oligarquias judiciárias

Por Geraldo Prado

Nessa confusa etapa em que nos encontramos no Poder Judiciário, fase claramente de transição, de um lado, e de outro sem indicações seguras do destino ou norte a que serão (seremos) levados os juízes ou irão (iremos) por sua (nossa) conta e risco, na magistratura brasileira, gostaria de sugerir a leitura do livro de Gerardo Pisarello, Un largo Termidor: la ofensiva del constitucionalismo antidemocrático (Ed. Trotta, Madrid, 2011). Vale a leitura.

De minha parte, defendo que o Conselho Nacional de Justiça possa cumprir a função de gestor (e indutor de políticas) de autogoverno do Judiciário e que, igualmente, rompa com a inegável tradição que imunizou oligarquias judiciárias, em todos os tribunais (e todos, naturalmente, não comporta exceção), investigando, com o mesmo escrupuloso respeito às garantias dedicado a qualquer imputado, desembargadores e ministros que sequer imaginaram um dia que seu poder não seria absoluto, tampouco que devem contas à comunidade.

Mas também defendo que não haja inocência e que se compreenda que as elites econômicas, que concentram os meios de comunicação, não pressionam por isso, o que a elas, aliás, não interessa (tentar seduzir um magistrado com regalias, até midiáticas, é mais "funcional" que "produzir leis ou ignorá-las" em benefício dos negócios). A pressão, hoje, visivelmente, é por restrição da independência judicial na base e isso é outra coisa. A pretexto de defender a "moralidade" as elites emparedam os juízes, especialmente os de primeiro grau, que ousam querer realizar o constitucionalismo democrático, e oferecem como "saída negociada" a rendição a uma moderação que as preserve de qualquer intento de nova distribuição de renda e poder inerente às lutas e movimentos democráticos contemporâneos.

As elites econômicas lutam por sobrevivência e se valem do que têm a mão, não importa se para isso é preciso dissolver o Judiciário. A resistência vem da (de nossa) capacidade da magistratura democrática de continuar e ampliar a tutela dos direitos, especialmente dos grupos e classes vulneráveis (desempregados, jovens precários, como chama Pisarello, consumidores, trabalhadores em geral, idosos, movimentos sociais colhidos pelo expansivo movimento de criminalização etc.) sem discriminação e com a única autoridade de que dispõem (dispomos) os juízes, que consiste no respaldo constitucional. Desculpem-me pela longa reflexão, mas é a manhã do dia em o STF pode - ou não - caminhar na direção da defesa de um constitucionalismo democrático.

Geraldo Prado é desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, integrante da 5ª Câmara Criminal.

Revista Consultor Jurídico, 2 de fevereiro de 2012

Comentários

Comentários de leitores: 3 comentários

2/02/2012 22:07 bean (Estudante de Direito)
excelente artigo
Um bom artigo
Pelo menos no judiciario ainda há vozes que são contra a manutençao do status quo vigente....
2/02/2012 14:51 Paulo Jorge Andrade Trinchão (Advogado Autônomo)
Vale a reflexão!
O artigo traz no seu bojo interessante reflexão em relação às oligarquias judiciárias. No contexto, traz oportunamente à baila exatamente o que o cidadão, contribuinte e jurisdicionado tanto almeja: um Poder Judiciário sério, eficiente e exemplar. Neste compêndio, encontra-se o depurador CNJ como órgão manifesto do Poder Judiciário, e ele com a sua inarredável atribuição correcional, outorgada exatamente pela Lei Maior, e mesmo se debatendo com eventuais cerceamentos e dificuldades, vem atingindo gradativamente os propósitos previstos constitucionalmente. O que se espera, portanto, é que a famigerada "pressão" provocada pelo histriônico corporativismo de entidades classistas não consigam - jamais! - enfraquecer o CNJ, retirando-lhe as suas prerrogativas e poderes constitucionalmente assegurados (artigo 103-B, § 4º., inciso III e § 5º, da LEX MATER), caso contrário, não passará de mais uma Corregedoria de luxo para ornamentar o desacreditado Poder Judiciário.
2/02/2012 13:44 Valterci Sales Lima (Administrador)
Oligarquia judiciária
O Absolutismo no judiciário tem que acabar, fim a essa oligarquia que envergonha nossa sociedade. Um judiciário contaminado por corrupções, seus membros corruptos não podem ficar impunes,e esse prêmio(aposentadoria compulsória) tem que acabar. Nesse mar de lama há de se ressaltar também aquelas pessoas que tem livre acesso pelos tribunais e fóruns e outros bisbilhotando processos e coagindo, aterrorizando e ameaçando de morte pessoas, dizendo com ele não vai acontecer nada é parente do desembargador fulano de tal. Temos que exigir do Congresso Nacional que não se acovarde e cumpra o seu papel.

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