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Ideias do Milênio

Não há o que negociar com grupos sedentos por poder

Entrevista de Ghaffar Hussain, autor do livro Uma história breve do Islamismo e diretor da Fundação Quilliam em Londres, ao jornalista Sílio Boccanera para o programa Milênio, da Globo News, transmitido em 17 de agosto. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às 23h30 de segunda-feira, com repetições às 3h30, 11h30 e 17h30 de terça; 5h30 de quarta; e 7h05 de domingo. Leia, a seguir, a transcrição da entrevista:

O que transforma alguém num terrorista islâmico capaz de cometer atos violentos e atrocidades contra pessoas inocentes? O fanatismo religioso pelo Islã explica só em parte o fenômeno. Que tampouco tem como causa apenas a ideologia política, a ignorância ou as origens de classe dos militantes. Há quem combine todas essas condições e nem por isso escolhe o terrorismo como forma de luta. Pobreza e falta de emprego não explicam, por exemplo, o fato de que 15 dos 19 terroristas que agiram no 11 de setembro vinham de famílias ricas da Arábia Saudita. Educação, ou falta dela, contribui para a militância, mas não explica. O líder do ataque às torres gêmeas Mohamed Atta era formado em arquitetura no Egito com pós-graduação na Alemanha. O mentor intelectual da operação, o kuwaitiano Khalid Sheikh Mohammed, era engenheiro mecânico formado nos Estados Unidos. Para tentar entender como se processa a radicalização de militantes islâmicos, tanto no ocidente quanto nos países de maioria muçulmana, o Milênio procurou Ghaffar Hussain, autor do livro Uma história breve do Islamismo e diretor da Fundação Quilliam em Londres, voltada para o estudo de radicalização e desradicalização de muçulmanos. O trabalho envolve questionar ideias extremistas entre recrutas potenciais para o terrorismo islâmico e promover meios de participação deles nas sociedades onde vivem. Hussein viaja pelo mundo neste trabalho assessorando não apenas autoridades, mas também empresas, escolas e famílias. Ghaffar Hussain abre a série especial dos dez anos do 11 de Setembro no Milênio.

Silio Boccanera — Quando vemos as rebeliões populares no mundo árabe, chamadas de “Primavera Árabe”, somadas à morte de Osama Bin Laden, em 2011, você vê alguma razão para acreditar que começamos um novo capítulo na questão da radicalização e da luta contra o terrorismo? Nós viramos uma página?
Ghaffar Hussain —
Sim. Acho que viramos essa página alguns anos atrás. Acho que esses acontecimentos derivam dessa virada de página e também mostram às pessoas que essa página foi virada. Eu acho que organizações como a Al-Qaeda e o movimento da jihad, em geral, atingiram o auge em 2005, 2006. Foi o auge de seu sucesso. Em termos de apoio ao redor do mundo e do sucesso que tiveram no campo de batalha em lugares como o Iraque e mesmo no Ocidente, onde conseguiram sucesso em algumas missões. Eu acho que, desde então, o que tem acontecido é que seus seguidores, os muçulmanos, se voltaram contra eles mais do que nunca. E isso ocorreu porque eles puderam governar partes do Iraque. E, a partir de quando eles entraram em cena e o antagonismo contra os EUA estava muito alto, foi fácil para eles tirarem vantagem disso. Quando as pessoas deram a eles a oportunidade de governar algumas áreas, viram como eles eram violentos e bárbaros, e ficaram do lado dos EUA contra a Al-Qaeda. As pessoas queriam saber o que eles tinham a oferecer em vez de criticar o que havia de errado. E o que eles tinham a oferecer como alternativa quando chegaram ao poder não foi o que eles queriam. Eu acho que esse período foi decisivo, e foi por isso que as coisas mudaram no Iraque. Agora, a revolta das nações árabes desferiu o golpe fatal contra todos que pensavam ou acreditavam que os árabes em geral não queriam uma sociedade livre e democrática, com perspectivas econômicas, mobilidade social e um sistema meritocrático, em que todos que se esforçam podem chegar lá. Não há por que achar que eles não querem isso, mas muitos acreditam que o modelo árabe é a monarquia ditatorial. E também o fato de que os principais oponentes das ditaduras vigentes não são necessariamente membros da jihad. Eles não são o único agente de mudança social ou política. Há várias pessoas jovens e liberais bem mais efetivas em trazer essa mudança, e elas fazem isso de uma maneira relativamente pacífica, sem mortes. Eu acho que a morte de Bin Laden foi um verdadeiro balde de água fria no moral dessas organizações, pois os EUA puderam pegar o líder, o número 1, o mais protegido.

Silio Boccanera — Em seu trabalho como escritor, dando palestras e indo a diferentes lugares para lidar com a radicalização, você faria uma distinção entre os que são radicais, mas que não vão além disso — eles apenas pensam nisso, rezam, falam, mas não agem — e aqueles que agem? Você vê uma distinção? O mundo real?
Ghaffar Hussain —
Há vários graus. Há pessoas que simpatizam com a narrativa, pessoas muito simpatizantes, mas que não entram em ação por alguma razão. Há aqueles que concordam plenamente com a ideologia e entram em ação alertando, pregando essa mensagem, mas não se prestam à violência diretamente. Além disso, há aqueles que abraçam a narrativa e acreditam em ações diretas. Esses encorajam pessoas a cometerem atos de terrorismo e possivelmente cometerão em algum momento. Portanto, há vários graus de envolvimento. Alguns podem incentivar as pessoas a agir, outros podem dar dinheiro em vez de se envolver com a causa.

Silio Boccanera — Na verdade, eu li um artigo do analista político e comentarista libanês Rami Khouri, e ele criticava a mídia ocidental, nós, descrevendo o terrorismo como consequência do extremismo religioso muçulmano, que os faria odiar o Ocidente. Na verdade, como ele diz, “há uma recusa em aceitar que o terrorismo de hoje é um movimento de reação a ameaças anteriores contra sociedades das quais os terroristas provêm.” Você concorda?
Ghaffar Hussain —
Eu concordo com... Não deve ser descrito necessariamente como um conflito religioso ou que os terroristas são motivado por uma certa leitura das Escrituras ou pela teologia, que isso tem influência na definição da posição deles. Eu acho que o que muitas vezes ocorre é que pode ser uma reação. Eles podem reagir a certos acontecimentos, e esses acontecimentos podem acirrar o recrutamento. Mas também é preciso saber que eles têm uma agenda proativa para mudar o mundo. Eles têm uma ideologia, eles querem ver... Eles têm uma visão de como deveria ser a sociedade.

Silio Boccanera — Mas isso se baseia na criação e nas leituras religiosas ou em questões geopolíticas? Eles acham que seus países ou eles estão sendo explorados?
Ghaffar Hussain —
Todas as organizações extremistas, sejam elas muçulmanas, ateias, o que forem, têm um viés público e um viés privado. Seu viés público é criado para ligá-las a causas populares. Ele dá respeitabilidade a elas e ganha a simpatia do povo para o que fazem ou dizem. Eles se apresentam de certa maneira, falam de assuntos que sensibilizam as pessoas, como a questão israelo-palestina, o Iraque, o Afeganistão. Coisas que preocupam as pessoas. Mas, quando estão entre si, o que essas organizações fazem é não falar muito sobre essas causas. Esse é o viés privado, e ele tem muito mais a ver com a sua visão ideal de sociedade, sua visão do que acontece no mundo. Pode ser a guerra contra o Islã, o compromisso ocidental com a guerra contra o Islã, que o Ocidente deve ser derrotado, tomar os territórios ocidentais e obrigar as pessoas a entenderem o Islã. O que estou dizendo é que muito do que você vê é propaganda. Não estou dizendo que eles não são motivados por essas questões, mas eles construíram isso de tal maneira, seguindo tais linhas, que acabaram se convencendo disso: “Tenho raiva por isso.” Mas Mohammed Khan dirigia um campo de treinamento no Afeganistão antes da guerra do Iraque, antes da guerra do Afeganistão. Então, a mentalidade, a ideia de radicalizar já existia. As ações é que começaram após a guerra do Iraque.

Silio Boccanera — Como é esse radicalismo? Pelo que vimos, é uma combinação de vídeos apresentados mostrando atrocidades contra muçulmanos em toda parte e, ao mesmo tempo, pregações de líderes islâmicos extremistas.
Ghaffar Hussain —
Há várias maneiras. A radicalização tem caminhos múltiplos. Eu acho que o mais eficaz, e aquilo que é apresentado às pessoas inicialmente, é a abordagem da tática de choque. Você apresenta a alguém imagens horríveis, chocantes, de mulheres, crianças sendo mortas, de corpos mutilados, de corpos que foram queimados vivos. Isso é seguido de uma análise do que aconteceu e por quê. Depois disso, vem a culpa: “Isso aconteceu, mulheres foram estupradas, crianças foram mortas. O que você faz sobre isso? Você se importa? É seu povo!”

Silio Boccanera — “E o ocidente fez isso, os EUA fizeram isso.”
Ghaffar Hussain —
A política externa americana. Isso porque as empresas deles querem explorar nossos países, controlar nossos recursos para ficar ricas e viver seu estilo de vida decadente, com sexo, drogas, pornografia, prostituição, enquanto nosso povo sofre. Essa análise específica do que causa essas atrocidades, para quem não entende de geopolítica ou história, pode ser bem atraente, especialmente — e isso é um fator importante — se você compara com sua experiência de vida.

Silio Boccanera — Repressão, perseguição policial...
Ghaffar Hussain —
Isso. Se você vive num contexto de discriminação social, como o que acontece na Grã-Bretanha, e vê a encenação deles, você pensa: “Eu fui perseguido por pessoas racistas da Polícia, das autoridades, e, agora, os muçulmanos do Iraque passam pelo mesmo por parte dos soldados americanos.” Você conecta esse sofrimento local com o sofrimento internacional e junta os dois, formando uma grande narrativa. Então você conecta pessoas que lutam em várias partes do mundo e que acham que a luta dos outros é a sua luta. O que o povo do Iraque passa, eu passo na Grã-Bretanha. É minha luta. Somos nós, é nossa luta. Então, você tem isso, mas também tem questões de identidade. Essas organizações lhe dão um novo senso de identidade, uma identidade diferente da que você tinha antes. E todos esses grupos radicais têm essa identidade supranacional. Che Guevara falava disso, quando foi ao Chile, à Colômbia. Ele falava do “povo sul-americano”, um povo único, que os Estados-nações dividiram. Da mesma forma, os muçulmanos dizem: “Esses Estados-nações, como Egito, Síria, nos dividiram, mas somos todos muçulmanos, somos um só povo.”

Silio Boccanera — Eles criam uma só identidade, fazendo você se sentir parte do grupo.
Ghaffar Hussain —
Exatamente. Isso é feito com os muçulmanos do Ocidente. Dizem: “Você não é britânico, nem paquistanês, nem indiano, você é muçulmano! E seus irmãos estão no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, na Síria.” Se você se liga a esse grupo de pessoas, sincroniza seu interesse com o deles. O grande erro, obviamente, é que essas pessoas não estão sincronizadas. Na maior parte do tempo, elas lutam entre si. O que você também encontra nessa narrativa... É por isso que acho que não é só uma rebelião moral. Se fosse, não seria algo tão seletivo.

Silio Boccanera — Isso causa outro problema, porque a existência desses radicais na sociedade ocidental tende a levar as autoridades a tentar encontrá-los, e isso leva a estereótipos, ao excesso de repressão, e isso só alimenta ressentimento, radicalizando ainda mais. É assim que funciona?
Ghaffar Hussain —
Eu acho que, após o 11 de Setembro, houve uma pressa para fazer alguma coisa. A Polícia, as autoridades e o governo precisavam ser visto como durões: “Estamos fazendo algo, agindo, melhorando as coisas, dando segurança.” Mas eles não sabiam o que fazer, não sabiam o que seria eficaz. Então, na verdade, eles foram aprendendo na prática. E, enquanto aprendiam, erraram bastante, como em buscas, detenções de 90 dias, por exemplo, pessoas podiam ser paradas e revistadas, controladas, várias medidas vistas como violações dos direitos humanos e que foram aplicadas a toda uma comunidade. Isso foi visto em áreas de segurança, controladas. Eles foram desajeitados. Eu não acho que a intenção tenha sido incitar aquele ódio, mas foi o que aconteceu em muitos casos. Acho que, desde então, eles estão sendo mais sensíveis, mais racionais, mais calmos. Os estereótipos, por exemplo, nunca dariam certo. Como são os extremistas?

Silio Boccanera — O que torna um indivíduo vulnerável ao recrutamento?
Ghaffar Hussain —
Essa é a pergunta de US$ 1 bilhão, que acadêmicos e pesquisadores tentam entender há 10 anos, sem nenhum sucesso.

Silio Boccanera — Não há um padrão?
Ghaffar Hussain —
Não há. Eu posso especular com base no que eu já vi. Não é nada científico, nada que possa ser comprovado. Acho que há algo que provavelmente nunca saberemos. Mas nós vemos alguns padrões em pessoas recrutadas. Raramente é surpresa ver quem é recrutado, mas ao mesmo tempo, não podemos dizer: “É este tipo de pessoa.” Digamos, por exemplo, que alguém tenha uma relação ruim com o pai, que não tenha preferência política, religiosa, entre para gangues, seja preso e seja recrutado para a jihad. Você olha e diz: “Não é surpresa, o que aconteceu.” Mas, ao mesmo tempo, mil pessoas com vida parecida não são recrutadas. Por que ele, e não as outras mil? Há algo mais.

Silio Boccanera — Os muçulmanos, radicais ou não, muitas vezes falam de sociedades que se sentem humilhadas pela maneira como são tratadas por países ocidentais, que ocupam suas terras, a maneira como os palestinos são tratados por Israel... Que efeito tem todo esse sentimento de humilhação?
Ghaffar Hussain —
Isso nos traz de volta a outro problema real, que é: isso tudo não estaria acontecendo se o mundo árabe muçulmano não estivesse como está e não tivesse a história recente que tem.

Silio Boccanera — Do ponto de vista político?
Ghaffar Hussain —
Isso.Que se relaciona com o econômico, o social e tudo mais.

Silio Boccanera — Mas não religioso.
Ghaffar Hussain —
É, não. A intelectualidade do Islã está em decadência há tempos. O estado das ciências, das artes, da medicina, da tecnologia, é baixíssimo na maioria dos países árabes. São sociedades intelectualmente muito estagnadas.

Silio Boccanera — Mas porque as sociedades estão estagnadas, socialmente falando, e também política e economicamente falando. Isso não está relacionado necessariamente com a religião.
Ghaffar Hussain —
Acho que está tudo interligado e um alimenta o outro. Acho que a religião também... A pesquisa e conhecimento teológicos também estão em decadência no Islã. As pessoas falaram de uma reforma, um renascimento, e algo precisa ser feito, mas isso afeta as situações social, política, econômica. Todas essas coisas reunidas criam sociedades pobres facilmente colonizadas pelas potencias europeias. E isso resultou em países governados por ditaduras, que tornam a vida das pessoas pior, e há essas situações muito precárias, que tornam fácil para potências como os EUA e a Rússia chegarem e dar as cartas, tentando moldar aquela parte do mundo segundo seus interesses. Até 1989, o Oriente Médio era o campo de batalha da Guerra Fria. Por isso, os EUA apoiam Israel e a Arábia Saudita, porque eram países pró-Estados Unidos, não antissoviéticos, mas que não caíam na esfera de influência soviética, como países como a Síria e o Egito. Então, é preciso olhar a história política recente, e isso pode produzir uma situação na qual alguém que não conheça a história veja aquilo e se sinta profundamente humilhado: “Puxa, por que as pessoas não conseguem progredir?”

Silio Boccanera — E o próximo passo é culpar o Ocidente.
Ghaffar Hussain —
É.

Silio Boccanera — Ou os cristãos, os descrentes.
Ghaffar Hussain —
Exato. Em vez de olhar para si. E foi isso que mudou com as rebeliões árabes. As rebeliões são importantes porque, pela primeira vez, as pessoas se perguntaram: “O que há de errado conosco? O que há de errado com a nossa sociedade? O que estamos fazendo de errado?” em vez de dizer que é tudo culpa de Israel ou dos EUA. Se sua sociedade é fraca, as pessoas vão se aproveitar disso.

Silio Boccanera — Você mencionou a necessidade de reformar e modernizar o conceito de Islã, que mantêm as coisas estagnadas. De onde virá essa reforma? Virá dos muçulmanos do Ocidente ou dos países majoritariamente muçulmanos?
Ghaffar Hussain —
É uma boa pergunta, pois muitas pessoas disseram que virá dos muçulmanos do Ocidente, pois vivem em sociedades onde são encorajados a serem críticos e a reavaliar as ideias, a ser mais objetivos, mais críticos. Eu acho que isso já está acontecendo. Alguns trabalhos mais revolucionários e mais interessantes vêm de muçulmanos do Ocidente. Mas, dito isso, essa tendência existe no Marrocos, no Egito, na Turquia. Em alguns desses países reformistas moderados tentam quebrar a tradição e desenvolver algo mais atual ou... eu não diria moderno, mas tentam entender o que é relevante para o século 21.

Silio Boccanera — A experiência do Ocidente com o terrorismo, com ações radicais, tem alguns exemplos. Talvez o mais representativo seja o IRA, que tornou a vida insuportável na Grã-Bretanha por 30 anos. De repente, eles começaram as negociações, e cá estamos, com 10 anos de paz. É possível haver uma negociação com esses grupos radicais?
Ghaffar Hussain —
Eu acho que, com qualquer organização radical, é preciso perguntar o que eles querem. E, às vezes, o querem, nós talvez possamos dar, mas também talvez não. Por exemplo, vejamos o Talibã, no Afeganistão. Se perguntássemos o que eles querem, eles diriam que querem governar o Afeganistão e implementar a lei medieval da xariá e controlar a sociedade mesmo contra sua vontade. Não é possível deixar eles fazerem isso. Não há nada a negociar com alguém assim. Com Bin Laden, não havia o que negociar. Se ele dissesse: “Quero as tropas ocidentais fora dos países muçulmanos. Se fizerem isso, eu paro, eu fico satisfeito”, poderia haver negociação, pois seria um objetivo realista e compreensível.

Silio Boccanera — Uma troca.
Ghaffar Hussain —
Uma troca. Dá para negociar. Então, depende do que eles querem. O IRA era realista, eles queriam uma situação política específica na Irlanda do Norte, então houve negociação. Já com esses grupos transnacionais sedentos de poder, que querem criar um grande império e dominar o mundo, não há o que negociar. Infelizmente, é preciso lidar com eles, em alguns casos, militarmente, em muitos, através do ativismo político e social.

Silio Boccanera — Dez anos após o 11 de Setembro, em relação àquele medo, ao choque que se espalhou pelo mundo, você acha que nós estamos em uma situação melhor?
Ghaffar Hussain —
Eu diria que o mundo parecia um lugar melhor antes do 11 de Setembro. Mas, ao mesmo tempo, o mundo hoje é um lugar melhor do que em 2002. Então, eu acho que, desde o 11 de Setembro, as coisas estão melhores do que durante e após os eventos. Eu não diria que o mundo todo se tornou um lugar melhor. Analisando os últimos 20 anos, ele se tornou mais perigoso, mais instável, as pessoas têm mais medo do que nunca. Mas, em termos de ameaças do gênero da Al-Qaeda, eu acho que todos nós aprendemos muito sobre o outro e sobre nós nesses 10 anos. E eu espero que, como resultado disso, os povos se entendam melhor. Eu acho que a globalização e o advento das mídias sociais diminuíram o tamanho do mundo, criando uma aldeia global. O termo “aldeia global” é isso. Eu acho que isso só pode ser algo bom. Quanto mais interagimos com pessoas ao redor do mundo, mais conhecemos outras culturas, outros estilos de vida e outras maneiras de pensar, mais abertos ficamos. É o que viajar faz: abre os horizontes. E isso só pode ser algo bom, com resultados positivos.

Silio Boccanera — Ghaffar, muito obrigado.
Ghaffar Hussain —
Muito obrigado.

Silio Boccanera — Foi muito interessante.

Extra
Silio Boccanera — Nós pensamos no que acontece no Paquistão, no Afeganistão, em alguns países em conflito. Mas muitas ações acontecem no Ocidente. Na Europa, onde vemos essas ações, nos Estados Unidos... Nós tendemos a achar que em sociedades mais abertas, onde as pessoas têm acesso à educação, a várias visões, isso não aconteceria, mas acontece. Por que, na sua opinião?
Ghaffar Hussain —
Porque há menos raízes no Ocidente. Se você for a países como Egito, Síria, Paquistão, as pessoas sabem quem são, têm uma identidade nacional, se sentem enraizadas, conectadas à sua sociedade, mais ligadas à família, pois têm a mesma cultura. Os muçulmanos no Ocidente já são de segunda geração, filhos de pessoas do meio rural do Paquistão, Bangladesh ou Iraque, e se afastam dos pais, que vêm de outro meio cultural. Eles não têm raízes, pois não têm essa sensação de pertencer a um lugar, provavelmente são discriminados pelo Estado em algum momento, e, por seu afastamento dos problemas dos países muçulmanos, Eles têm uma visão romantizada e idealizada dessas sociedades. Por isso, é mais fácil...

Silio Boccanera — O Egito é o Paraíso até você ir lá. Ou a Arábia Saudita...
Ghaffar Hussain —
Exatamente.

Silio Boccanera — Se você é criado na Grã-Bretanha ou na França...
Ghaffar Hussain —
É, porque você tem uma visão romantizada. As organizações da jihad são vistas como maravilhosas. Se você mora nesses países, percebe que não é assim. É por isso que é fácil recrutar ocidentais. Mas não é só. Grupos como a Al-Qaeda querem recrutar ocidentais, se esforçam para isso, porque eles podem atacar alvos mais difíceis. Um rapaz que nasceu e cresceu no Afeganistão não ataca nos EUA.

Silio Boccanera — Há pessoas que, embora favoráveis a repressões radicais aos terroristas, dizem que operações como a que matou Bin Laden são preferíveis a grandes guerras, como a do Iraque e do Afeganistão, envolvendo também o Paquistão.
Ghaffar Hussain —
No Iraque, é diferente, pois nunca houve ameaça da jihad no Iraque. A guerra foi mais para derrubar Saddam Hussein. Na época, foram dadas várias desculpas, mas o objetivo era derrubar um ditador e levar a democracia a uma região que precisava dela e abrir o Iraque ao mundo e integrá-lo à ordem econômica mundial. E há várias teorias conspiratórias a respeito disso. No Afeganistão, a guerra era contra essas organizações. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que essas duas guerras ensinaram aos políticos ocidentais que mudanças de regime em escala global e que o conceito de se construir uma nação são caros e demorados, são impopulares e não funcionam, não são eficazes. No Afeganistão, o argumento era tomar bases militares, campos de treinamento e destruir figuras importantes. Não acho que fosse necessário invadir o Afeganistão daquela maneira. Para mim, não era necessário. Deveríamos é ter dado apoio a elementos locais, como as tribos do norte e os pachtuns das áreas tribais de Kandahar, para que derrubassem o Talibã. Pois não esqueçamos que o Talibã é um movimento muito impopular, mesmo fora das áreas pachtuns, entre os afegãos não pachtuns. E, mesmo entre os pachtuns, muitos não gostam do Talibã. Então, deveríamos ter dado apoio, armas, treinamento e recurso a eles, como estamos fazendo na Líbia, para derrubar o regime Talibã, atacando alguns campos de treinamento. Devíamos ter lidado com isso de outra maneira.

Silio Boccanera — Como se combate a militância? Você é a favor... Parece haver uma divisão: alguns dizem que se devem usar as forças armadas; outros dizem que devem ser tratados como criminosos, usando a Polícia. No caso dos EUA, o FBI, a CIA. No caso da Grã-Bretanha, o MI5, o MI6, não necessariamente com uma grande ofensiva militar.
Ghaffar Hussain —
Depende da situação e do contexto. Acho que, quando se trata de pequenas células de indivíduos, é melhor tratá-los como criminosos. Com certeza, com uma operação policial, não militar. Mas, em países como o Iêmen, o Afeganistão, o Paquistão e a Somália, onde há uma insurgência da jihad em escala ampla, com milhares de combatentes, armas, pessoas que usam táticas militares, não se trata mais de uma operação policial, mas militar. No Paquistão, as forças armadas não tiveram escolha além de combater esses elementos. Não havia como deixar com a Polícia. Depende da situação.

Silio Boccanera — O que os torna radicais? É algo político e religioso ou só um lado?
Ghaffar Hussain —
Há quem diga que é uma questão teopolítica, que une teologia e política. Para mim, é principalmente política. Eles têm a adoração religiosa, se vestem e falam como religiosos, mas outras gangues criminosas também se vestem e falam como religiosos. Qualquer um pode fazer isso, pode usar a adoração religiosa para fazer seus atos parecem respeitosos e éticos. Mas, para mim, é algo político. Essas pessoas são motivadas por fatos políticos, e o mundo é moldado por fatos políticos.

Silio Boccanera — E o argumento religioso que diz que, se você ler o Corão, verá que já referências à violência, à adoção de medidas radicais, em especial contra infiéis? Há quem diga que é uma leitura errada do Corão.
Ghaffar Hussain —
Há versos no Corão que podem ser interpretados, se lidos de certo modo e em certo contexto, como algo que apoia o que essas organizações fazem. Mas, se você falar com teólogos respeitados e especialistas nisso e pedir que eles contextualizem esses versos, quase sempre, eles explicarão que esses versos não justificam as ações da Al-Qaeda, que são ataques terroristas contra civis em cidades ocidentais e em países muçulmanos. O Islã não é uma religião pacífica como o Cristianismo, no entanto, não há nele justificativa para o terrorismo, para impor suas ideias a outros povos. O que ele justifica é a defesa. Se for atacado, você pode se defender com armas e contra-atacar. Isso é justificável no Corão. Mas você precisa ser muito criativo para pegar isso e dizer: “Isso justifica explodir um trem em Londres.” Como se faz isso? Não pode. Então, as pessoas leem esses versos de várias maneiras. Eu diria que estão fora de contexto e que a grande maioria dos teólogos, hoje e no passado, nunca os interpretaram assim. Interpretá-los assim, como faz a jihad, contraria as tradições, contraria o que é a visão da maioria. É uma interpretação extremada.

Revista Consultor Jurídico, 26 de agosto de 2011, 13h20

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