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Espionagem empresarial

Brasileiros foram pagos para favorecer Telecom Itália

Por 

Depoimento Ghioni - ReproduçãoO processo que corre em Milão sobre as atividades de espionagem da Telecom Italia continua revelando as ramificações brasileiras da trama. A operadora de telefonia italiana é acusada de ter aplicado 120 milhões de euros em atividades ilegais para dominar o mercado nos diferentes países onde atua. Acredita-se que mais de 10% desse total tiveram como destino o Brasil e como finalidade o pagamento de serviços prestados por autoridades, policiais e particulares, além de financiar uma campanha na imprensa favorável aos interesses da empresa e contrária a seus adversários empresariais. 

Uma das principais fontes de informação sobre a participação brasileira no imbroglio italiano é Fábio Ghioni, que chefiou o esquema de espionagem pela Internet da Telecom Italia. Em audiência referente ao Processo Penal 9633/08, Ghioni  prestou depoimento à juiza Mariolina Panasiti, do Tribunal de Milão, em 26 de fevereiro e outro em 26 de março último, a cuja transcrição a Consultor Jurídico teve acesso (veja foto acima e clique aqui para ler trecho do depoimento, em italiano). Nesse último depoimento, Ghioni descreve a atuação no caso do empresário Luís Roberto Demarco de Almeida, ex-sócio do banqueiro Daniel Dantas.

O nome de Demarco brota das perguntas feitas por um promotor público italiano, quando Fabio Ghioni depôs perante a juíza de instrução Mariolina Panasiti, no último dia 26 de março. Ghioni, é especialista em estratégias e tecnologias não convencionais de segurança e tido como o responsável pelo esquema de interceptações de informação da Telecom Italia, que alcançou autoridades e o principal jornal italiano.  

Conhecido como “Sombra Divina”, Ghioni chefiou lo grupo de hackers da Telecom Italia, que ficou conhecido como Tiger Team. É acusado de ter manipulado dados furtados da Kroll Associates, a maior empresa de investigações privadas do mundo, para “vitaminar” informações contra o empresário Daniel Dantas, do Banco Opportunity. Dantas é acusado de contratar a Kroll para espionar as atividades de dirigentes da Telecom Italia, que travava com o Opportunity uma feroz disputa para assumir o controle da Brasil Telecom, empresa em que os dois grupos empresariais eram sócios. O terceiro concorrente eram os fundos de pensão, que se aliaram aos italianos no início e depois os abandonaram. O troféu da disputa seria a Brasil Telecom, que não ficou com nenhum desses contendores.

Em depoimento anterior, prestado no curso do Procedimento Penal 9.633/08, do Tribunal de Milão, Ghioni afirmou que entre as pessoas subornadas pelo esquema de espionagem montado pela Telecom Italia estão policiais federais e políticos brasileiros. Segundo ele, policiais federais receberam propina da empresa para prestar serviços de segurança particular, no Brasil, a espiões italianos, e também para inserir, numa operação da PF, dados para favorecer interesses da Telecom Italia. A investigação cobre um período anterior ao da célebre Satiagraha.

Ghioni explicou como funcionava a empresa italiana sob o comando de Marco Tronchetti Provera, maior acionista individual da Pirelli, controladora da Telecom Italia entre 2001 e 2006. Ele acusa Provera de ter tido total controle das atividades ilícitas de espionagem, sobretudo no Brasil, e de ter gastado milhões de euros nessas práticas heterodoxas, obviamente sem avisar aos acionistas. É nesse ninho que Demarco e seus parceiros, investiga-se, teriam se instalado para ganhar dinheiro.

“Ele não tinha forças econômicas para levar adiante a sua campanha; portanto, a Telecom Italia o apoiava, tanto economicamente, através de não sei exatamente quais meios, porém, imagino, faturas emitidas por ele”, sustentou Ghioni referindo-se a Demarco, no último dia 26 de março. O empresário teria arrecadado dinheiro italiano para repassar, no Brasil, a pessoas dispostas a bombardear Daniel Dantas.

No final do ano passado, a juíza Adriana Freis Leben de Zanetti, da 5ª Vara Federal Criminal de São Paulo, que conduz o processo por espionagem do Opportunity contra a Telecom Italia, decidiu suspender a ação no Brasil até receber da Justiça italiana informações sobre as investigações que lá estão sendo feitas, em cujo bojo Ghioni é réu e testemunha.

Fazem ponta no espetáculo personagens como Marco Bernardini e Angelo Jannone. Bernardini, um ex-agente do serviço secreto italiano, que se tornou detetive particular e prestador de serviços da Telecom Italia. Ele é uma das principais testemunhas no processo contra a empresa. Bernardini tem sustentado aos procuradores de Milão que a operadora “pagava a políticos e também à polícia brasileira”. Angelo Jannone foi chefe de Segurança da Telecom Italia para a América Latina. Ex-carabinieri, teria trazido ao Brasil o CD “vitaminado” com as informações da Kroll, para entregá-lo à Polícia Federal. O seu conteúdo foi validado pela PF como legítimo, mesmo sabendo-se da sua origem.

Ghioni, Giuliano Tavaroli, e Angelo Jannone, ex-executivos da Telecom Italia, foram denunciados pelo Ministério Público de Milão, com outros 31 envolvidos no caso, por violar sistemas de informática e fazer escutas ilegais contra pessoas na Itália e no exterior em nome da Telecom Italia.

As operações
Tiger Team era um grupo especial do setor de segurança da Telecom Itália. Seu papel era o de pavimentar a expansão da ex-estatal italiana no mundo. As interceptações eletrônicas no Brasil duraram de 2003 a 2005, no contexto da disputa pelo controle acionário da Brasil Telecom entre a Telecom Itália e o Banco Opportunity. As notícias da Itália dão conta de que o grupo conseguiu grampear a imprensa italiana, entrou nos computadores da CIA e da Kroll, de onde sacou a investigação contra ele, acrescentou o material que lhe interessava e entregou à imprensa brasileira como uma prova da desonestidade de Daniel Dantas.

A equipe contava com figuras de proa da espionagem italiana. Angelo Jannone foi tenente-coronel do corpo de carabinieri. Ele trabalhou ao lado do juiz Giovanni Falcone na luta contra a máfia siciliana. E fez-se chefe do setor antifraudes da Telecom Italia para a América Latina. Morou no Brasil em 2004. Marco Bernardini era dono de uma empresa de investigações. Foi contratado na época pelo grupo italiano, mas ao se tornar réu aderiu a um programa de delação premiada e se tornou a principal testemunha do Ministério Público italiano no inquérito sobre a rede de espionagem clandestina e subornos da Telecom Italia no mundo.

Fabio Ghioni era o “hacker de primeira linha” dessa trinca. Nascido em Milão, em 26 de novembro de 1964, prestou declarações pela primeira vez no Palácio da Justiça, em Milão, no dia 15 de novembro de 2007, às 9h35, na presença do procurador da República Nicola Piacente e do sub-oficial carabinieri Vincenzo Morgera.

No Brasil
A Telecom Italia é dona da operadora de telefonia celular TIM. Foi também acionista da Brasil Telecom, em sociedade com o Citibank, os fundos de pensão de estatais (Previ, Petros e Funcef) e o Grupo Opportunity do banqueiro Daniel Dantas. Em 2005, os fundos de pensão, em acordo com o Citibank, conseguiram destituir o Opportunity da administração da Brasil Telecom. Foi então selecionada a consultoria Angra Partners para gerir a BrT.

Em 2004, a PF iniciou a Operação Chacal, que investigou suposta atividade ilegal da Kroll no Brasil, por encomenda de Daniel Dantas. Além do trabalho oficial da PF, a Kroll foi alvo também de uma série de ações de espionagem promovidas pela Telecom Italia. Numa delas, em um hotel no Rio, invadiram o computador de um deles e roubaram vários arquivos, que depois foram selecionados e gravados em um CD que foi editado pela equipe de Ghioni na Itália e depois entregue à PF no Brasil.

Em 6 de novembro de 2007, Giuseppe Ângelo Jannone, o homem que denunciou a Kroll de fazer espionagem no Brasil, foi preso na Itália por fazer espionagem. Junto com Jannone, foram presos Alfredo Melloni e Ernesto Preatoni, dois técnicos de informática que trabalhavam no setor de segurança da matriz da Telecom Itália. Era outro núcleo duro do Tiger Team.

Ofensas pessoais
Veja as referências a Demarco no depoimento de Ghioni. A sigla PM, que consta no inquérito, se refere ao Pubblico Ministero (Ministério Público).

PM — Veja, o senhor no interrogatório de 26 de fevereiro informou: “Após a investigação contra Tavaroli, de maio de 2005, Jannone, em julho do mesmo ano, me disse que suspeitava que Demarco estivesse fornecendo à sociedade brasileira Angra Partners algumas informações reservadas sobre a Telecom”. O senhor indicou esta razão.
Acusado Ghioni — Sim, esta é a razão que eu... digamos que foi dita também a mim... Demarco era uma pessoa que sempre foi hostil a Daniel Dantas, já que havia recebido algumas ofensas pessoais. Na gestão Pré-Tronchetti, e na gestão Tronchetti, praticamente, aproximou-se da Telecom Italia, para ter dinheiro, para poder prosseguir a sua campanha contra Daniel Dantas. Quando isso aconteceu, Angelo Jannone suspeitava que Demarco não agisse completamente de boa-fé e que mantivesse esse tipo de contato com a Angra Partners e que a Angra Partners fosse, em suma, não tão neutra, digamos, como deveria ter sido.

PM — Pode nos dar alguma informação sobre a pessoa de Demarco, ou seja, quem é e como se chama... Antes de colaborar com Telecom no episódio de Daniel Dantas, o que ele fazia?
Ghioni — Bem, vou sempre pela memória, Demarco havia sido sócio de Daniel Dantas, pelo que me lembro. Depois, Daniel Dantas o excluiu da sociedade o que, de acordo com ele, fez com que perdesse muito dinheiro. Nesta altura, Demarco moveu uma ação causa internacional, na Suprema Corte do Reino Unido – concentrada nas Ilhas Cayman, me parece – em relação ao dinheiro que Daniel Dantas havia bloqueado lá, em seu nome. Para poder levar adiante esta causa, ele precisava de dinheiro. E também para poder levar adiante uma campanha midiática negativa, contra Daniel Dantas... Durante a gestão Colaninno – vou sempre pela memória, porque eu não estava durante a gestão Colaninno, portanto, pelo que eu pude saber – ele já iniciara a aproximação com a Telecom Italia. E se aproximou, também, de uma empresa de telecomunicações canadense que sofrera o mesmo tratamento por parte do Opportunity e de Daniel Dantas, da qual agora não lembro o nome [Nota da Redação: Trata-se da TIW, sócia do Opportunity nas operadoras de telefonia Telemig Celular e Tele Norte Celular, à época da privatização no setor de telecomunicações no Brasil]; Depois disso, quando a gestão passou para Tronchetti, dirigiu-se à Telecom Italia, fazendo...digamos, usando a lógica do inimigo comum: “unamos as forças”. Ele não tinha forças econômicas para levar adiante a sua campanha. Portanto a Telecom Italia passou a apoiá-lo economicamente, através de não sei exatamente quais meios, porém imagino, faturas emitidas por ele. Tudo aquilo que ele fazia, para poder se contrapor e dar informações em relação àquilo que faziam Daniel Dantas e a Kroll, ele obviamente dividia isso com a Telecom Italia. Pelo menos, este era o pensamento, na época.

PM — O senhor disse: “Através de faturas eram destinadas estas contribuições que a Telecom dava a Demarco. Isso quer dize que , haviam sido estabelecidas relações de consultoria entre a empresa e Demarco?
Ghioni — Sobre isto não tenho certeza, porém os contatos inicialmente eram mantidas por Marco Bonera – portanto, era ele o ponto de referência econômico, em relação a Dantas e sucessivamente...

PM — De Daniel Dantas?
Ghioni — Desculpe, de Demarco... e, depois disso, quando Marco Bonera foi substituído por Angelo Jannone.

PM — Por que o senhor disse, em 26 de fevereiro: “Inicialmente, Jannone ordenou a tarefa de fazer uma invasão informática no computador de Demarco... Agora lhe pergunto diretamente isto: houve uma tentativa de invasão justamente contra Luis Demarco?
Ghioni — Contra Luis Demarco, sim, sim, porém, quer dizer... não efetuada por mim no entanto.

PM — Solicitada a Bernardini por quem?
Ghioni — Por Angelo Jannone... Naquela época – vou sempre pela memória – aquilo que se necessitava na Angra Partners, era justamente poder verificar as trocas de informações que existiam entre algumas pessoas da Angra Partners, que faziam parte do conselho de administração, e o exterior, para verificar justamente se não havia algumas comunicações com personagens que eram hostis à Telecom Italia, e, me parece, também com Demarco não? – se Demarco estava em comunicação com eles. 

 é repórter especial da revista Consultor Jurídico

Revista Consultor Jurídico, 13 de maio de 2010, 20h00

Comentários de leitores

2 comentários

COm todo o respeito devido: "CHUUUUPEM, PETRALHAS"!!!

Richard Smith (Consultor)

PUTZ! Quer dizer então que não era "páia" o que saiu durante meses na coluna do DIOGO MAINARDI na VEJA?!!!
E os PeTralhas que, como sempre, servem de caixa de ressonância aos interesses do PIG - Partido da Imprensa Governista, aonde estão? Cadê o "Fessô", o seu heterônimo falecido "Comentarista" e outros "bichos" agora?
Ah, caladinhos como sempre...procurando alguma "verdade" de ocasião nos blogs do Brizola, do Kennedy Alencar, do pha, da "Cartilha Capital" do gigante mino carta, no nassif e em outros tocadores de tuba de joelhos escalavrados do jornalismo "de serviços" contra o Serra!
Tudo como sempre, na mais incrível "normalidade"!

JORNALISMO VERDADE

Luiz Carlos de Oliveira Cesar Zubcov (Advogado Autônomo)

Esses fatos certamente derrubarão as máscaras de muitos cidadãos angelicais e de muitas autoridades acima de qualquer suspeita.
Doutor Cláudio Júlio Tognolli, avance em suas investigações, saia dos autos e busque nomes porque tem aí uma grande oportunidade de mostrar toda a sua coragem diante dos poderosos.
Enquanto as instituições são de utilidade pública, os homens são os salvadores sociais.
Boa sorte!

Comentários encerrados em 21/05/2010.
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