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Foro íntimo

Juízes pedem suspensão da Resolução 82 do CNJ

Juízes recorreram ao Supremo Tribunal Federal para tentar suspender a Resolução 82 do Conselho Nacional de Justiça, que manda os juízes justificarem à Corregedoria do tribunal ou ao próprio CNJ os motivos para declarar suspeição por foro íntimo. O ministro Carlos Britto é o relator do pedido de Mandado de Segurança.

A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), a Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra) e a Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) pedem a suspensão liminar da resolução. No mérito, a sua anulação, alegando que ela “viola direitos líquidos e certos dos magistrados”.

A regra foi aprovada diante de um suposto uso indevido da alegação de impedimento. Por não precisar revelar o motivo, o juiz pode, em tese, deixar de julgar uma causa por qualquer motivo. Até mesmo para que um colega interessado possa cuidar dela.

Antes de pedir o MS, as entidades tentaram suspender a resolução com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 4.260). Mas a relatora, ministra Ellen Gracie, decidiu não analisar o pedido de liminar e enviar a ação para ser julgada pelo Plenário da corte. Como a suspensão imediata da norma ficou prejudicada, decidiram pedir o Mandado de Segurança, com o argumento de “grave constrangimento ilegal”.

Em agosto, o ministro Joaquim Barbosa aceitou o pedido de liminar apresentado individualmente pelo desembargador João de Assis Mariosi, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Enquanto a corte não analisar o mérito deste pedido, o desembargador não terá de se explicar nos casos de suspeição por foro íntimo. Para o ministro, a resolução fere a independência do juiz.

No Mandado de Segurança que acaba de ser pedido ao STF, os juízes afirmam que o Conselho Nacional de Justiça não tem competência para tratar desta matéria. Portanto, a norma é inconstitucional, dizem. A União, de acordo com a magistratura, é a única que pode legislar sobre direito processual por meio de lei ordinária (Constituição Federal, artigo 22, inciso I), ou de matéria a ser disposta no Estatuto da Magistratura, por meio de lei complementar da iniciativa do STF (CF, artigo 93, caput).

As entidades alegam também que a resolução ofende várias das garantias constitucionais dos juízes, “uma vez que impõe aos magistrados de primeira e segunda instâncias espécie de ‘confessionário’ dos motivos de foro íntimo que os levam, eventualmente, a declarar suspeição para julgar determinados feitos”.

Entre tais garantias estão, segundo os juízes, as da imparcialidade; da independência do juiz e do devido processo legal, tanto sob a ótica do magistrado, que deseja bem fazer o seu ofício, como sob a ótica do jurisdicionado, que tem o direito de não ter sua causa julgada por juiz que se considere suspeito para fazê-lo. Também foram citados o direito à privacidade e intimidade do juiz e a isonomia de tratamento entre os magistrados porque a resolução retrataria discriminação injustificada entre juízes de primeiro e segundo graus em comparação com os magistrados dos tribunais superiores, os quais não estão submetidos às mesmas obrigações.

Violação do CPC
As associações sustentam que só o cotejo do artigo 135 do Código de Processo Civil com a Resolução 82 “já seria suficiente para o fim de se concluir que as normas veiculadas neste último estão inovando no mundo jurídico e não simplesmente disciplinando a aplicação da norma processual no âmbito da competência correcional”. O mencionado artigo 135, em seu parágrafo único, reserva ao juiz a possibilidade de declarar-se suspeito por motivo de foro íntimo, dispensando-o de explicar os motivos.

Lembram que o Código de Processo Civil de 1939 continha a regra inscrita na Resolução 82, mas ela foi extirpada no CPC de 1973, deliberadamente, graças a uma emenda do então deputado Dias Menezes. Citam, nesse contexto, jurisprudência do STF (HC 82.798), que estendeu a regra da não obrigatoriedade de declinar os motivos da suspeição também ao processo penal, por analogia.

Ao alegar violação do direito à intimidade, prevista no artigo 5º, inciso X, da Constituição, e do princípio da isonomia, os juízes afirmam que “não se pode exigir a explicação do motivo íntimo da declaração de suspeição apenas de parte dos magistrados”. Isto porque “ou a exigência vale para todos, ou é nula”. Ainda segundo eles, a resolução viola, também, os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade porque, se for válida para os magistrados de primeiro e segundo graus, será inválida por não alcançar os demais magistrados (dos tribunais superiores e até do STF). Com informações da Assessoria de Imprensa do STF.

MS 28.215

Revista Consultor Jurídico, 3 de setembro de 2009, 11h13

Comentários de leitores

5 comentários

estrapolando as suas funções

Republicano (Professor)

O CNJ está estrapolando as suas funções, até medidas próprias da jurisdição (como liminares) estão concedendo.

O processo não é confessionário

Cananéles (Bacharel)

O foro íntimo do magistrado, se interferir no andamento processual, em razão do interesse social e das regras processuais do Direito brasileiro, deve ser explicitado. O juiz brasileiro está obrigado ao direito brasileiro, não às regras oncogênicas da Santa Sé. Óbvio que o magistrado não está obrigado a entrar em minudências sobre este ou aquele "affair" romântico com a secretária casada, que exatamente agora pleiteia uma pensão alimentícia na Vara do magistrado (sem nenhum trocadilho, claro) nem, tampouco, está obrigado a esmiuçar a amizade íntima com este ou aquele Deputado corrupto, que exatamente agora, na Vara do magistrado, pleiteia uma indenização por danos morais contra um jornaleco que fotografou o Deputado corrupto jantando com... o magistrado amigo! Mas é dever constitucional (art. 93, incisos IX e X) do magistrado fundamentar TODAS as suas decisões, já destacando que não interessa a ninguém os detalhes mais "quentes" e lúbricos de um juiz acometido daquela espécie de priapismo crônico causado pela vertigem ciálica (um neologismo, vá lá) do poder.

O processo não é confessionário

Cananéles (Bacharel)

O foro íntimo do magistrado, se interferir no andamento processual, em razão do interesse social e das regras processuais do Direito brasileiro, deve ser explicitado. O juiz brasileiro está obrigado ao direito brasileiro, não às regras oncogêncicas da Santa Sé. Óbvio que o magistrado não está obrigado a entrar em minudências sobre este ou aquele "affair" romântico com a secretária casada, que exatamente agora pleiteia uma pensão alimentícia na Vara do magistrado (sem nenhum trocadilho, claro) nem, tampouco, está obrigado a esmiuçar a amizade íntima com este ou aquele Deputado corrupto, que exatamente agora, na Vara do magistrado, pleiteia uma indenização por danos morais contra um jornaleco que fotografou o Deputado corrupto jantando com... o magistrado amigo! Mas é dever constitucional (art. 93, incisos IX e X) do magistrado fundamentar TODAS as suas decisões, já destacando que não interessa a ninguém os detalhes mais "quentes" e lúbricos de um juiz acometido daquela espécie de priapismo crônico causado pela vertigem ciálica (um neologismo, vá lá) do poder.

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