NotÃcias
16 janeiro 2009
Defesa investigada
Protógenes Queiroz espionou advogado de Daniel Dantas
Durante a Operação Satiagraha, o delegado da Polícia Federal, Protógenes Queiroz, investigou ilegalmente o advogado Nélio Machado, que defende o banqueiro Daniel Dantas. Dois pen drives do delegado contém fotos e vídeos do advogado.
A Constituição e o Estatuto da OAB proíbem a vigilância dos réus ou suspeitos. Segundo o repórter Fausto Macedo, de O Estado de S.Paulo, a Polícia Federal está convencida de que Protógenes espionou ilegalmente Machado durante largo período, antes mesmo da deflagração da operação, em julho.
Os pen drives foram apreendidos no inquérito que investiga o vazamento de informações da Satiagraha. O dispositivo ainda mostra que o delegado convocou jornalistas da TV Globo para filmar a reunião em que supostamente emissários de Dantas tentaram subornar um delegado da PF. São eles, o produtor Robinson Braios Cerântula e o cinegrafista Willian José dos Santos. Os jornalistas fazem parte da equipe do repórter César Tralli.
Além dos funcionários da Globo, Protógenes teria mobilizado para o trabalho policial a equipe do detetive particular Eloy de Lacerda e do empresário Luís Roberto Demarco, segundo divulgou o jornal Valor, atribuindo a informação ao Palácio do Planalto.
A PF também suspeita que Protógenes interceptou uma conversa entre Nélio Machado e uma desembargadora do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (SP e MS).
Os pen drives — um de 2 gigabytes, cor verde, outro de 8, cor preta — foram apreendidos na madrugada de 5 de novembro, por ordem judicial, no apartamento 2.508 do Hotel Shelton Inn, no centro de São Paulo, ocupado pelo delegado. O mandado de busca e apreensão foi expedido pelo Ali Mazloum, da 7ª Vara Criminal Federal de São Paulo, que preside o inquérito sobre o vazamento. Para a PF, Protógenes é quem vazou as informações.
O documento tem 28 páginas e expõe passo a passo a ação de Protógenes, que tudo armazenou em seu próprio pen drive. É o segundo relatório parcial da PF sobre o caso. O primeiro parecer apontou que, em discos rígidos dos computadores da Abin, base de operações do Rio, foi identificado "farto material pornográfico". O inquérito deverá ser concluído em março. Protógenes deverá ser indiciado por quebra de sigilo funcional.
A PF acredita que as fotos, filmagens e grampos de Machado foram feitas por agentes da Abin, recrutados por Protógenes para dar curso à sua investigação secreta. A PF localizou cinco arquivos exclusivos para Nélio Machado. Aos arapongas, estranhos aos quadros da PF, o delegado confiou trabalhos de escuta e análise de documentos. Pelo menos 84 agentes e oficiais de inteligência foram mobilizados na Satiagraha.
O novo relatório é subscrito por um delegado, um agente e um escrivão da Polícia Federal. Os registros de Protógenes foram desbloqueados por meio do Sistema de Acesso Remoto de Dados, técnica empregada pelos peritos federais.
"Ainda foram apontadas como de interesse várias fotografias, possivelmente realizadas por meio de celular, as quais documentaram uma reunião que tinha como participante o advogado Nélio Machado", assinala o relatório da PF.
Além da vigilância sobre o advogado, os pen drives guardam 450 arquivos de áudio referentes à Satiagraha, alguns com identificação dos interlocutores, outros não.
Profundamente perplexo
"Estou profundamente estarrecido, perplexo", declarou Nélio Machado. O advogado já desconfiava que arapongas da Satiagraha o espreitavam, mas ainda tinha alguma dúvida."Esse relatório, ao qual não tive acesso, confirma que os métodos empregados pelo delegado Protógenes Queiroz foram completamente à margem da lei, porque o exercício da advocacia tem previsão da Constituição e o advogado responde pela efetivação de direito constitucional, que é o da ampla defesa."
"Quando foi decretada a segunda prisão do meu cliente, desembarquei em São Paulo e percebi que alguém me filmava. Em outra ocasião, antes mesmo da Satiagraha mostrar a sua cara, estive em um restaurante japonês em Brasília e lá me fotografaram. Tentaram cravar a calúnia de que eu me reunira com assessores do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes." Para o criminalista, "os fatos mostram o nível da fabulação do investigador, criações mentais repulsivas, abjetas".
O criminalista Vicente Grecco Filho disse que não tem informações sobre o relatório de análise de mídias da PF que expõe arquivos secretos do delegado Protógenes Queiroz, seu cliente. "Ao que fui informado, os computadores e pen drives estão sob responsabilidade da perícia, vamos aguardar o resultado desse exame", disse. O advogado anotou que não tem conhecimento de que Protógenes monitorou seu colega de profissão, Nélio Machado.
Revista Consultor JurÃdico, 16 de janeiro de 2009
Arquivo
Leia também: Textos relacionados
- 12/01/2009 Para PF, Protógenes Queiroz vazou informações da Operação Satiagraha
- 05/01/2009 Sucessão de versões ao presidente selou destino de Lacerda
- 30/12/2008 Repórter filmou reunião de assessores de Dantas
- 29/12/2008 Opportunity diz que Dantas teve prejuÃzo com teles
- 29/12/2008 Paulo Lacerda é exonerado da Abin e vai para Portugal
- 29/12/2008 Erro de Protógenes não invalida provas contra Dantas
- 27/12/2008 Texto sobre imprensa contra Dantas é a notÃcia mais lida
- 23/12/2008 Protógenes não explica por que pediu prisão de jornalista
- 20/12/2008 Jornalistas entrevistam Protógenes na próxima segunda
- 19/12/2008 Protógenes se irrita e não fala de lista de jornalistas
- 19/12/2008 Fenaj quer que PF identifique jornalistas que ela acusa
- 17/12/2008 Protógenes diz que pedirá indenização à PolÃcia Federal
Comentários
Comentários de leitores: 5 comentários
Peroba neles
Isso é um absurdo ! Lamentável ! TerrÃvel... como diria certa propaganda de televisao, peroba neles !!!!
PS- pior ainda é ser pego com "pen drives " destrutiveis....parece que queria ser pego mesmo. E...o investigado já sabia de tudo.... que paÃs é esse com tal investigação ilegal em que se pega o investigador....
Otavio Augusto Rossi Vieira, 42
Advogado Criminal em Sao Paulo.
Em coro
Em coro
Ver todos comentários
A seção de comentários deste texto foi encerrada em 24/01/2009.