Consultor Jurídico

Notícias

Você leu 1 de 5 notícias liberadas no mês.
Faça seu CADASTRO GRATUITO e tenha acesso ilimitado.

Parentes distantes

Supremo aprova súmula que proíbe nepotismo nos três poderes

A contratação de parentes de até terceiro grau em cargos de confiança está proibida nos três poderes, nas esferas federal, estadual e municipal. É o que determina a 13ª Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal, aprovada por unanimidade nesta quinta-feira (21/8).

Além do nepotismo direto, a súmula também veda o nepotismo cruzado, que ocorre quando dois agentes públicos empregam os familiares um do outro, como troca de favor. Ficam de fora do alcance da súmula os cargos de caráter político, como os de ministro de Estado e de secretário estadual ou municipal.

Com a publicação da súmula, será possível contestar, no próprio Supremo, por meio de Reclamação, a contratação de parentes para cargos da administração pública direta e indireta.

A extensão da proibição do nepotismo no Judiciário para o Executivo e o Legislativo foi decidida em julgamento de ação relatada, na quarta-feira (20/8), pelo ministro Ricardo Lewandowski, que examinou os casos de um secretário municipal de Saúde, Elias de Souza, e de um motorista em Água Nova (RN), Francisco de Souza, que eram parentes de um vereador e do vice-prefeito.

Em Recurso Extraordinário, o Ministério Público do Rio Grande do Norte contestou a decisão do Tribunal de Justiça potiguar, que entendeu que a proibição do nepotismo só valia para o Judiciário. O recurso foi julgado procedente.

“O nepotismo contraria o direito subjetivo dos cidadãos ao trato honesto dos bens que a todos pertencem. O argumento falacioso de que a Carta Magna [Constituição Federal] não vetou expressamente a ocupação de cargos de confiança por parentes não merece prosperar”, destacou Lewandowski.

Ao julgar o recurso, os ministros reafirmaram que o artigo 37 da Constituição Federal, que determina a observância dos princípios da moralidade e da impessoalidade na administração pública, são auto-aplicáveis. “Não é necessária lei formal para aplicação do princípio da moralidade”, disse o ministro Menezes Direito.

A ministra Cármen Lúcia reforçou que “a definição deste tribunal no sentido de que o artigo 37 tem aplicação imediata e não depende de legislação infraconstitucional. Vale para todo mundo”.

Na primeira parte da sessão de quarta, os ministros do Supremo decidiram, por unanimidade, que é constitucional a Resolução 7 do CNJ, que proibiu o nepotismo no Judiciário. Seguindo o voto de Carlos Britto, relator desta ação, os ministros reconheceram que o Conselho tem poder para disciplinar o tema no Judiciário.

Na discussão sobre a edição da Súmula Vinculante, os ministros Carlos Britto, Menezes Direito, Cármen Lúcia, Eros Grau, Celso de Mello e Marco Aurélio sugeriram que as duas situações julgadas nesta quarta — que tratam dos cargos de secretário e de motorista — fossem tratadas de formas distintas já que a função de secretário municipal é política.

“Haveria a exceção de cargos políticos, nas funções de secretários municipais, de Estado ou ministros do Executivo. Em princípio, o tribunal disse que essa é uma função política que não estaria submetida ao critério”, sustentou o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes. Por isso, eles ficaram de fora do alcance da súmula.

Ao fazer a ressalva sobre cargos políticos, Gilmar lembrou a parceria entre John F. Kennedy, presidente dos Estados Unidos na década de 60, e seu irmão, Bob Kennedy. “Irmãos podem estabelecer um plano eventual de cooperação, sem que haja qualquer conotação de nepotismo”, exemplificou.

“É possível que em alguns casos concretos, mesmo em cargos políticos, fique evidenciada uma troca de favores ou um nepotismo cruzado, e nesses casos eu entendo que seria possível a atuação do Ministério Público para corrigir essa situação”, ressalvou o ministro Lewandowski, relator do caso potiguar.

Leia o enunciado da Súmula Vinculante

A nomeação de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, da autoridade nomeante ou de servidor da mesma pessoa jurídica, investido em cargo de direção, chefia ou assessoramento, para o exercício de cargo em comissão ou de confiança, ou, ainda, de função gratificada na Administração Pública direta e indireta, em qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios, compreendido o ajuste mediante designações recíprocas, viola a Constituição.

Homenagem à Constituição

“Quem saiu na frente foi o Congresso Nacional, foram os constituintes. Em 1988 o Congresso Nacional é que tomou a dianteira e editou a Constituição. Parabéns ao Congresso Nacional e aos parlamentares constituintes”, afirmou Lewandowski, ao ser questionado em coletiva se o Supremo estaria legislando. “O Supremo não inovou absolutamente nada, simplesmente reafirmou aquilo que se contém na Constituição Federal”.

Gilmar Mendes concordou com o colega. “Há uma miríade de casos que devemos contemplar. O importante é que a linha geral está fixada". Dúvidas que chegarem ao STF, por meio de Reclamação, serão decididas pelo plenário, explicou o presidente do Supremo. Gilmar Mendes acredita que a súmula será cumprida de forma ordeira. Como existe segurança jurídica, todos devem cumprir a decisão “sem pestanejar”, afirma.

Revista Consultor Jurídico, 21 de agosto de 2008, 17h14

Comentários de leitores

14 comentários

Estas decisões, são as chamadas decisões do ar ...

Fabricio M Souza (Advogado Sócio de Escritório - Empresarial)

Estas decisões, são as chamadas decisões do ar condicionado! Isto é, não resistem a um calor de verão do lado de fora! Mesma decisão, tomou há pouco tempo o STJ quando o ministro com salário base de mais de quarenta mil reais por mês (carro importado, casa no lago sul e outros trololos), resolveu que as pensões alimentícias deve serem pagas até o alimentado venha a ter os cabelos grisalhos!!! É muita cara de pau! E, o pior, é que não conhece o país que em que vivem! Acham, que estão na Suiça e que a renda per capita do brasileiro é em euros!

Pode até ser, como aponta o colega Marcelo, que...

George Rumiatto Santos (Procurador Federal)

Pode até ser, como aponta o colega Marcelo, que esses atos do Supremo sejam preponderantemente legiferantes. Todavia, não concordo com a conclusão de que isso não vai parar em bom lugar. O STF tem desempenhado um papel muito importante no que diz respeito à manutenção e segurança de garantias e direitos de índole constitucional, destacando-se, é verdade, em meio ao vácuo do Legislativo, que pouco faz. Apenas para acompanhar minha opinião, note que as decisões do Excelso Pretório não são uma ratificação da opinião pública. No caso das algemas, por exemplo, o povo não recebia de braços abertos a exigência de não se algemar os acusados (quem acatou a idéia foi a comunidade jurídica em geral, mormente os advogados, a meu ver com razão). O STF, a meu ver, exerce seu papel, num momento em que não é válido se ater rigidamente ao modelo preconizado por Montesquieu, dada a exigência real de uma postura ativa do Judiciário nesse sentido (de garantir os direitos e liberdades estampados na Lei Maior).

Com a devida vênia, apenas poucos estão apreend...

MARCELO-ADV-SE (Advogado Associado a Escritório)

Com a devida vênia, apenas poucos estão apreendendo o perigo dessa atitude do Supremo. Como a bola da vez é a prática do nepotismo, o gesto do Tribunal tem sido ovacionado efusivamente, atendendo aos anseios da opinião pública, que nem sempre analisa as questões com a devida profundidade e critério. O que releva frisar é que, indiscutivelmente, e a pretexto de estar interpretando a Constituição Federal, o STF legislou, invadiu seara pertencente ao Legislativo. As súmulas vinculantes têm sido utilizadas como instrumento legiferante, intrometendo-se o Judiciário nos assuntos de outro Poder. Isso é muito arriscado, do ponto de vista do equilíbrio das instituições e da manutenção do Estado Democrático de Direito. Vejam-se os episódios das algemas, do nepotismo, assim como a pretensão (felizmente arredada) de se criarem as chamadas "listas sujas". Modus in rebus. Não sabemos onde isso vai parar. Em bom lugar é que não é.

Ver todos comentários

Comentários encerrados em 29/08/2008.
A seção de comentários de cada texto é encerrada 7 dias após a data da sua publicação.