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Crise de credibilidade

Esperança para o capitalismo brasileiro é a eleição de Lula

Há uma crise de credibilidade rondando as fronteiras financeiras tupiniquins, exacerbada pelo quadro sinistro de que somos considerados um país mais perigoso para investir do que a Nigéria. O terrorismo do governo alardeia que há perigo de uma crise sistêmica no caso da oposição ganhar as eleições e não cumprir os "compromissos" internacionais assumidos na era FHC. O dólar dispara para o alto como um foguete enquanto que a bolsa de valores vai afundando como um navio torpedeado.

Todo este terror tem uma clientela específica, um amigo a ser cultivado: o tão conhecido medo da classe média. Estas dezenas de milhões de eleitores ensanduichados entre os miseráveis e as classes dominantes, tremem de pavor ante o risco de "argentinização" do país.

Nunca ninguém desperdiçou dinheiro investindo em cultivar este medo, tão poderoso e avassalador. No entanto, o que passa despercebido é que existe um risco muito maior e que permanece oculto nas sombras. A Era FHC abriu as portas do país para uma reestruturação do sistema produtivo que atirou dezenas de milhões de pessoas à miséria.

A máquina de exclusão social gerada pelo desemprego estrutural, conjugou-se com a máquina de exclusão territorial que foi impelindo esta enorme parte da população para as bordas da cidade. Ali remanescem, estiolando-se em verdadeiros guetos, onde não há Estado, ou seja, inexistem serviços públicos, tais como, saúde, escola, polícia. Estas dezenas de milhões de excluídos já não acreditam em nada e nem em ninguém.

Desprezam os partidos e os políticos, odeiam o governo e os seus representantes palpáveis, bem como, expressam seu rancor através de uma atitude absolutamente cética e cheia de desprezo com relação às instituições democráticas. A violência torna-se um modo de comunicação e o crime explode numa escalada incontrolável de ressentimento dos pobres contra os ricos.

O medo instilado pelas diárias notícias da queda do "rating" brasileiro nas agendas internacionais, faz com que se ofusque qualquer preocupação com as tempestades de ira que vão sendo gestadas neste lado escuro do país. A continuidade desta política de expulsão dos brasileiros em direção às sombras da exclusão é que caracteriza o maior perigo de que se forme uma massa crítica de insurgência, capaz de gerar uma maré de ódio que empurre o país para os abismos do caos social absoluto.

O incrível paradoxo da História é que como estas marés soturnas e poderosas vão se formando no lado escuro da sociedade, sem que, do lado de cá, no mundo alegre e colorido dos shoppings centers, venha a surgir a percepção do vagalhão que está se acumulando. A única esperança para o capitalismo brasileiro enfrentar esta turbulência ameaçadora, sem que tenha de recorrer à ruptura das instituições democráticas, por incrível que pareça, está na possibilidade de eleição de Luiz Inácio Lula da Silva.

Não que haja algo de mágico em tal candidato que lhe permita, em curto espaço de tempo, "revogar" a miséria através de um benévolo ucasse obreirista. Ao contrário, a verdade é que nem sequer haverá de conseguir maioria no Congresso Nacional para produzir uma legislação que atenda a todos os pontos de seu programa eleitoral.

No entanto, um governo de oposição verdadeira à Era FHC, implicará numa atitude básica de investir todos seus meios na tentativa de reverter o quadro de exclusão e reorientar o sistema produtivo na direção da priorização da geração de empregos. A candidatura Lula, portanto, é a grande esperança do Capital e, sua vitória vai trazer dias de alegria que cedo, haverão de transformar-se em funda frustração entre os miseráveis.

A parte magra do eleitorado espera por soluções mágicas e por melhorias imediatas, impossíveis de serem produzidas neste cenário tortuoso. Encontrará um político hábil e experiente que irá esticar a corda o máximo possível para costurar algum avanço para o povo, sem a ruptura do quadro institucional. Esperam por dias mágicos e felizes e encontrarão anos de evolução gradativa. Estão marcando encontro com a felicidade e vão dar de cara com minguadas políticas públicas compensatórias e a criação de muitos e muitos postos de trabalho tão deteriorados como os hoje existentes.

No entanto, ainda que, gravados com todas estas tristezas, haverão de recuperar as esperanças de que é possível travar conflitos para melhorar o sistema. A alternativa, por outro lado, com a eventual vitória do príncipe herdeiro do Reino do Real, ou, de um de seus clones vestidos de oposição, será a continuação desta política destrutiva e o aprofundamento do ódio e da desesperança.

Tal continuação tende a produzir um outro tipo de conflito, bem mais perigoso, porque voltado para a destruição do sistema. Mais cedo ou mais tarde, na persistência desta política, o lado escuro da sociedade vai tornar-se visível através de uma tempestade de rancor. Aí então, será difícil enfrentar o maremoto sem recorrer à ruptura da democracia e, nem mesmo este último recurso, será garantido, em face do tamanho do vagalhão que está crescendo por baixo desta superfície de aparente calmaria.

Nesta contradição é que se vive o mais estranho paradoxo de nossa história política: a aparente grande ameaça ao Capital, na verdade, é a sua única esperança de atravessar impavidamente os mares encapelados dos próximos tempos de tempestade. Este cataclisma tão anunciado pela tensão que encrispa as grandes cidades, aparentemente, parece invisível a aqueles que só conseguem enxergar o panorama da classe média proletarizada e enfurecida.

Num quadro como este, o biliardário senador Alencar parece um profeta visionário que enxerga horizontes bem mais adiante dos olhares míopes de seus pares e bem se apercebe de qual é a verdadeira luz no fim do túnel. Talvez, ao contrário, tenha resolvido atirar em algo que viu e terminado por acertar num pássaro que não estava em sua mira. No entanto, como é comum e tradicional entre os profetas, corre o risco de ficar como a voz que clama no deserto e é possível que venha a afundar no mesmo naufrágio de seus iguais, mas, ao menos, terá feito a melhor tentativa.

Revista Consultor Jurídico, 2 de julho de 2002, 13h42

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