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Caminho de volta

Alca: o crepúsculo de FHC e a iminência do caos no país.

No tempo em que se dizia que os carros brasileiros eram “carroças”, afirmava-se que vivíamos encerrados numa cápsula de protecionismo que, sob o pretexto de proteger nosso delicado parque industrial, impedia-nos de obter o crescimento que traria riqueza para todos, libertando os miseráveis de sua incomensurável pobreza. Naqueles anos pré-fernando, apesar dos pesares, o protecionismo fazia com que entre exportações e importações, estivéssemos sempre em superávit, vendendo mais do que comprávamos:

Ano - 1981

Resultado em milhões de dólares

12.025.000

Ano - 1982

Resultado em milhões de dólares

7.801.000

Ano - 1983

Resultado em milhões de dólares

64.704.000

Ano - 1984

Resultado em milhões de dólares

130.895.000

Ano - 1985

Resultado em milhões de dólares

124.855.000

Ano - 1986

Resultado em milhões de dólares

83.043.000

Ano - 1987

Resultado em milhões de dólares

111.731.000

Ano - 1988

Resultado em milhões de dólares

191.841.000

Ano - 1989

Resultado em milhões de dólares

161.192.000

Ano - 1990

Resultado em milhões de dólares

107.524.000

Ano - 1991

Resultado em milhões de dólares

105.800.000

Ano - 1992

Resultado em milhões de dólares

152.389.000

Ano - 1993

Resultado em milhões de dólares

132.988.000

Depois, veio Fernando e seu Plano, daí resultando uma enorme decadência em nossos resultados:

Ano - 1995

Resultado em milhões de dólares

-34.660.000

Ano - 1996

Resultado em milhões de dólares

-55.990.000

Ano - 1997

Resultado em milhões de dólares

-67.530.000

Ano - 1998

Resultado em milhões de dólares

-65.750.000

Ano - 1999

Resultado em milhões de dólares

-11.990.000

Ano - 2000

Resultado em milhões de dólares

-6.980.000

A dívida externa saltou de US$ 148,3 bilhões em 1994 quando o Plano Real fez sua estréia para 226 bilhões de dólares em 2001. Tais números, contudo, excluem as dívidas intercompanhias, e os débitos por aplicações, sendo que o total é estimado por alguns economistas em 400 bilhões dólares (1), dívida pública que estava em 24 bilhões de reais no Ano I (1994) da Era Fernando, pulou para estratosféricos setecentos e cinqüenta bilhões de reais em junho de 2002.(2)

Todos estes oito anos de “milagre” terminam se afundando em desgraça, com o candidato oficial rastejando no final dos índices de pesquisa eleitoral, revelando-se uma imensa sensação de fracasso e desencanto. A opinião pública vai percebendo que alguma coisa esteve errada durante todo este tempo e nós não percebemos.

Para os que não falam economês e tentam desesperadamente entender o que aconteceu e descobrir de onde viemos e para onde vamos, é terrível o exercício de tentar desvendar a realidade por detrás deste caos de informação e contra-informação. Podemos começar, portanto, tentando descobrir como é que FHC “descobriu a América” e colocou a economia do país neste rumo que, no começo parecia tão risonho e que se afigura tão sinistro no final da estrada.

A verdade é que o “mago” percebeu no início de 1994 as perspectivas que se abriam em torno de uma das faces da globalização, uma das partes das chamadas “reaganomics”. A internacionalização do capital financeiro, quebrando as barreiras ao ingresso de capitais especulativos, disponibilizava dinheiro abundante no mercado internacional, durante aquela etapa de transição. Promoveu discretamente a abertura para estes capitais de modo que, em julho, na etapa crucial do Plano Real, o país dispunha de 40,3 bilhões de dólares de reservas cambiais, 70% acumuladas durante seu curto reinado de ministro da fazenda.

Com este lastro, lançou a política de “populismo cambial” que o tornou invencível eleitoralmente: a paridade entre o real e o dólar, garantida por este lastro enorme. O país abria-se para o processo de globalização reduzindo as barreiras tarifárias e derrubando as barreiras para o ingresso do capital especulativo em nossas bolsas de valores, atraído pelas mais altas taxas de juros do mundo (bancadas indiretamente pela dívida pública). O resultado é mais ou menos evidente. Enquanto as importações cresciam porque o real podia comprar mais no exterior, as exportações desciam porque se tornava necessário mais real para comprar a mesma quantidade de mercadoria. A balança de ingressos representativa do que efetivamente se comprava e se vendia, despencou de forma abrupta durante todos estes anos.(3)

Como pagar as contas e financiar o crescimento se a balança comercial capotou desta maneira tão gritante? Financiando tudo com o capital estrangeiro, o que nos conduz a um outro nível de estratégia do “mago dos oito anos”: financiar o crescimento com o déficit de conta-corrente. Vale dizer, obter investimento para aumentar o crescimento através da obtenção de dinheiro externo, endividando o país brutalmente. Tanto em termos de dívida pública como em termos de dívida privada.

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Revista Consultor Jurídico, 27 de agosto de 2002, 12h40

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