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Conheça o discurso de renúncia do senador José Arruda

O senador José Arruda (Sem partido-DF) renunciou nesta quinta-feira (24/5). Durante o discurso feito no Senado afirmou que é vítima de linchamento covarde em um jogo de cartas marcadas. Repetiu por algumas vezes que "não matou, não roubou e nem desviou dinheiro público". O ato do senador foi gerado pela violação do painel do Senado.

Veja o discurso do senador, na íntegra.

Senhor presidente, senhores membros da Mesa do Senado, senhoras e senhores.

Não roubei. Não matei. Não desviei dinheiro público. Mas cometi um grande erro. Talvez o maior da minha vida. No primeiro momento, confesso que não percebi sua extensão. Tentei negá-lo, e esse foi o outro grave erro. Estou pagando caro por isso. Um preço muito alto. Mas talvez o preço maior ainda não tenha sido totalmente saldado.

Em meio a esse pesadelo em que se transformou minha vida, uma das coisas que mais dói e a certeza da frustração dos mais de 300 mil habitantes de Brasília que depositaram seu voto e a sua confiança em mim. E também a convicção de que centenas de milhares de outras pessoas acreditavam num projeto político para Brasília que, por causa desse erro, terá que ser construído.

Trabalhei sempre - pelo PSDB, pelo governo e pelo país - sem esperar retorno. Os compromissos que assumi, aceitando uma das mais ingratas das funções políticas, a de líder do governo, eu os mantenho, porque os assumi comigo mesmo, porque nascem do caráter e não exigem reciprocidade de comportamento.

Trabalhei muito nesses seis anos e meio. Agi com generosidade com os meus mais cruéis adversários. Perdoei. Ajudei Brasília acima das diferenças político - partidárias, não importando quem fosse o governador. Exerci o mandato com dedicação exclusiva, dignidade e muito trabalho. Mas, agora, não posso continuar. Tenho três boas razões para isso.

A primeira, é que houve um pré - julgamento e eu estou liminarmente condenado. Há uma pena descabida, máxima, cruel, inapelável. O processo de linchamento é explícito e covarde em um jogo de cartas marcadas. Os lances desse jogo viciado por interesses pessoais, pleno de hipocrisias e mentiras, foram mostrados ontem para todo o país em tempo real.

A violência desse pré - julgamento, da interpretação regimental a serviço da sentença previamente concebida, não é um ato apenas contra mim, mas contra as instituições democráticas desse país, até porque banaliza um dos dispositivos mais fortes da carta constitucional, ao usá-lo para uma vendeta política. E o tempo mostrará o erro que foi cometido ontem nessa casa.

Ato que atropela a razão, atropela as leis e o sentimento de justiça e descamba para a execução sumária, como se fosse o Conselho de Ética um tribunal de exceção. Ato que busca concentrar toda a justa indignação popular numa tal lista de votação, na esperança vã de que aos verdadeiros problemas do país, o desrespeito à atividade pública, o denuncismo irresponsável, a corrupção e os desvios de recursos públicos, repetidos impunes, sejam relegados ao segundo plano.

Ato de expiação de toda culpa acumulada, uma catarse que deixou a razão de lado, um festim que substituiu o denuncismo e troca desrespeitosa de acusações e insultos que conspurcam a consciência nacional. E estou pagando por isso: estava no lugar errado, na hora errada. Mas volto a dizer: não roubei, não matei, não desviei dinheiro público.

Ontem eu afirmei que não queria fugir ao julgamento. Mas desde que o processo fosse justo, que não ignorasse as regras da justiça, que não se deixasse reduzir pelos holofotes, que não se deixasse contaminar por influências externas ou interesses espúrios.

A sentença, no entanto, já está prolatada. Resta apenas crias o cenário, o enredo, que lhe sirvam de pano de fundo. Poderia contestar a farsa, na esperança do milagre da sensatez? Ou ficar na expectativa de um acordo de cúpula, na Mesa, que poderia preservar meu mandato à custa de conchavos políticos?

Não, Senhores Senadores, dessa forma esse mandato, de que tanto me orgulho, não me interessa. Não cometerei a infâmia de recorrer a expedientes escusos, ainda que convencido da injusta aplicação da pena capital, para continuar no Senado. Além daquele erro a que me referi há pouco, nos seis anos e meio de convivência com os senhores nesta Casa, e nos mais de vinte anos de serviço público, ninguém poderá apontar em minha biografia um único desvio de conduta. Não aceito que tentem me igualar a homens que abastardam a Política e envergonham o País.

Também não desejo submeter os nobres Senadores a um constrangimento. Prefiro desobrigá-los de um julgamento penoso que, ou será injusto comigo - se decidirem pela pena máxima para uma falha regimental -, ou será injusto com cada um dos colegas, pelo julgamento impiedoso de parte ponderável da mídia.

Até porque, devo dizer, terei sempre presentes os ensinamentos da convivência com todos os meus colegas e a lição de vida da solidariedade corajosa, da amizade de muitos dos Senhores Senadores na hora mais difícil da minha vida.

Serei eternamente grato, como não esquecerei jamais nenhum dos gestos e mensagens de apoio e compreensão que tenho recebido. Em particular de Itajubá, cidade mineira onde nasci, e de Brasília, cidade que me elegeu. Disse que tenho três razões para não continuar.

A segunda - e a mais importante - é que Brasília e sua população não merecem ficar com um Senador a menos. O processo que se avizinha seria longo, penoso.

E, nesse período, o Distrito Federal ficaria desfalcado de um Senador, já que eu não teria condições de exercer a plenitude do meu mandato. Para evitar que isso aconteça, vai assumir o meu primeiro suplente, o Dr. Lindberg Aziz Cury, que reúne história de vida e competência para ocupar essa cadeira e defender o Distrito Federal no Senado. A última razão é de foro íntimo.

O balanço de meus acertos e erros, nestas circunstâncias, deve ser e será feito pela população de Brasília. Por respeito a Brasília, por respeito à sua população, por respeito á representação popular, deixo esta casa para ser julgado por quem, até por preceito constitucional, tem vontade soberana. Renuncio, portanto, ao meu mandato, Senhores Senadores. Tenho fé em Deus. Não é o fim. É um novo começo. Até um dia.

Revista Consultor Jurídico, 24 de maio de 2001, 0h00

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