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Eleições na OAB paulista

Clito Fornaciari diz porque não disputará eleições na OAB-SP

Há algumas semanas, quando a revista Consultor Jurídico anunciou a intenção de realizar uma pesquisa voltada para as eleições da OAB paulista, recebemos do advogado Clito Fornaciari Júnior a informação de que ele não concorrerá ao comando da seccional.

Clito fora mencionado como provável candidato em notícia aqui veiculada e seu nome fora incluído no questionário da pesquisa - que acabou sendo cancelada por erros técnicos apurados no transcurso do processo.

Com algum atraso, esta revista publica a carta recebida de Clito, que antes fora enviada também a diversos advogados. Nela, o ex-presidente da Associação dos Advogados de São Paulo expõe as razões pelas quais ele não irá participar da disputa.

CLITO FORNACIARI JÚNIOR

São Paulo, 28 de fevereiro de 2000.

Colega:

Venho comunicar que não disputarei qualquer cargo nas próximas eleições da OAB.

É inegável o triste momento que vive a Advocacia. Aviltada e ausente dos grandes assuntos da Nação, assiste a tudo, rende-se a outros interesses, curva-se diante dos Poderes e dos poderosos.

Transforma-se, assim, o advogado em um dependente de assistência, acreditando que o melhor para si é um remédio mais barato, ou um tratamento dentário a preço de custo.

Desaparece, nesse contexto, o advogado autêntico: de um lado, as grandes firmas de prestações de serviços, inclusive jurídicos, oferecem tudo, até contatos e lobby para qualquer atividade; de outro lado, uma massa cada vez maior aceita a assistência judiciária e vê nela o único meio de sobreviver: sem escritório, sem telefone, sem secretária, sem livro, contenta-se em fazer suas petições nas salas dos fóruns e atender o cliente nos corredores, tendo como meta um acordo, qualquer que seja ele, desde que agrade ao juiz.

Não há mais espaço para aquele advogado que escolhia o cliente e a causa, porque neles acreditava, trabalhando no escritório, acompanhando o processo, fazendo audiências, sustentando nos tribunais em busca da Justiça. Nessa atuação sentia a importância de suas prerrogativas. Exatamente o advogado que desaparece, rendido no apartheid fomentado por outros interesses superiores, é aquele que sabe que nada supera a dignidade profissional e assim por ela luta.

Essa situação nos havia incitado a participar de uma nova campanha para a OAB: nossa bandeira de luta seria esse advogado que desaparece. Defendendo a dignidade profissional, pretendíamos trazer aqueles que acabam de se conformar com a assistência judiciária para um patamar de maior realização profissional e pessoal que pudesse transformá-los em alguém preocupado em ter prerrogativas. De outro lado, pretendíamos oferecer oposição à atuação diferenciada das grandes firmas, à volta dos ex-desembargadores, ex-delegados e outros à Advocacia e a todas as mazelas que essa prática enseja.

Levar essa mensagem, porém, tornou-se um devaneio. Nas últimas eleições, desavergonhadamente, revelou-se a desfaçatez do abuso do poder econômico. Não se sabe a que custo futuro, injetaram dinheiro pesado nas eleições. Os gastos faraônicos, a propaganda profissional, a intromissão do futebol, da política, a formação de grupos apenas por conveniência eleitoral assustaram a todos e hoje não só a dignidade do advogado não foi resgatada, mas também o silêncio é tudo nos grandes temas institucionais e nos problemas gravíssimos que já arranham instituições antes sagradas.

Verdadeiramente impossível fazer chegar uma mensagem de dignidade, marcada por uma preocupação ética aos colegas. As eleições que se avizinham serão para os economicamente afortunados. Fala-se em gastos de cerca de 2 milhões de reais e preparam-se grupos sem compromisso com os interesses maiores da Advocacia e do advogado - quem mais poderia ser ? - para travar esse combate. Cifras desse importe desgastam a classe, porque o momento que vive a profissão nada tem com isso: criam-se suspeitas sobre a origem do dinheiro, sobre quais os interesses de quem o deu e a que custo institucional será compensado.

Há que se render a essa triste realidade: impossível vencê-la, mas legitimá-la com uma participação desigual nossa consciência desaprovou, como também não aprovou aceitar o combate com as mesmas armas, se alcançáveis, pois não são limpas e também a nós o mesmo preço seria cobrado. Deixamos, pois, a batalha, embora, no fundo, não perdemos a fé: quem sabe um dia a clareza se faça presente.

Fale com o advogado Clito Fornaciari Júnior

Revista Consultor Jurídico, 4 de maio de 2000, 0h00

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