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Inconformado com a Internet

Inconformado com a Internet

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Jamais poderia imaginar que um simples artigo enaltecendo a Internet fosse provocar tantos comentários desfavoráveis à rede mundial de computadores. Um deles, dos mais irados, veio do Luiz Lara Resende, diretor da Rede Globo de Televisão. Inconformado com o sucesso da Web, Lara deitou e rolou em críticas. Diz ser favorável ao fim da rede. Afirma que, com poucas exceções, a tecnologia trabalha para bestializar cada vez mais o ser humano que, segundo ele, quase nunca falha: humilha, mata, fere, esfola, assalta, rouba, gasta bilhões em guerras estúpidas e deixa milhões morrerem de fome.

Embora se utilize da rede, Lara se recusa a ser considerado um internauta e não consegue imaginar o prazer daqueles que ficam na frente de um computador, inclusive pela madrugada, navegando pelo mundo. Diz que prefere viajar mesmo é de avião, de carro, de ônibus, de carroça, a pé, conhecer com seus próprios olhos. Sentir as cores e os odores. Ao condenar a Internet, enaltece as árvores, os pássaros, as nuvens, os rios, as montanhas, o mar, as flores, os animais, a chuva, o chope amigo da mesa de um bar. E afirma saber onde tudo se perdeu; no maldito dinheiro. Por isso é a favor da volta do escambo. Citando Rubem Braga, diz que o homem devia viver de caça, pesca e colheita de frutos naturais. E faz um alerta aos internautas: cuidado, ligado sempre à Internet você pode perder o falar. Abra uma janela para o mundo e feche o monitor de vídeo - sentencia ele em sua mensagem a este escriba contando ainda o exemplo ocorrido há alguns meses, quando assistiu a uma palestra de um "cobra". A passagem é interessante e aqui abro aspas para o Lara:

"O palestrante, um idiota (sim trata-se de um idiota, quem sabe, um monstro), um ser humano desprovido de emoção (meu Deus, como viver sem emoção, na frieza da Internet?), creio que um andróide (sim, agora tenho certeza, trata-se de um andróide, de um software, um hardware, construído pelos magnatas da tecnologia) arrotando certezas ele disse, bem alto para que todos ouvissem: o livro vai acabar. Será substituído por uma maquininha que, através do manuseio de um botão, você vai passando as páginas. Imagine, levar uma bosta dessa para a praia, para a beira da piscina, para o banco da praça, para o banheiro... Não ter contato com o papel, não se poder fazer anotações ao pé e ao lado das páginas. Não haverá mais biblioteca e sim maquinoteca. Tudo eletrônico, ascético, gelado, sem emoção, sem lirismo. Eu perguntei-lhe quando isso ia acontecer. Ele quis saber por que. E eu disse-lhe: quero morrer antes, não quero viver num mundo de seres-máquina".

Como se observa, o Lara Resende estava possesso contra a rede mundial de computadores. Quem sabe contra o mundo atual. Daqui, o que posso dizer ao Lara e à outros escribas inconformados com a Internet e o progresso da era em que vivemos, é que eu também prefiro o passado: o ar do campo, andar de charrete, pescar, nadar em águas limpas, um feijão na panela de barro e no forno a lenha, morar em casa, sem grades e com segurança, jogar uma pelada na rua, cuidar da horta, viajar no trem maria-fumaça, apanhar um fruto no pé, conhecer e ser conhecido por todas as pessoas do bairro, ver o avô e o pai almoçarem em casa e ainda tirarem uma soneca antes de voltarem ao batente, enfim, tudo aquilo que pude desfrutar na infância.

Mas que, infelizmente, não tem mais espaço nas grandes cidades do agitado e violento mundo contemporâneo. Onde, apesar de tudo, a felicidade também existe. O habitante das grandes metrópoles, meu caro Lara, é como o passarinho nascido na gaiola. Ele também é feliz. E a Internet para muitos não deixa de ser uma alavanca, um caminho virtual para se alcançar sonhos impossíveis e um real para amenizar tristezas e sofrimentos.

 é jornalista e diretor da NewsPres.

Revista Consultor Jurídico, 8 de junho de 1999, 0h00

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