"Round 6", arremesso
de anões e a dignidade
da pessoa humana
Na série ficcional sul-coreana
"Round 6", cidadãos superendividados assinam um contrato por meio
do qual abrem mão de sua integridade física. 
Tudo isso para disputarem uma gincana bilionária: um único vencedor, entre 500 participantes
e 499 vidas que ficam pelo caminho, ganha o prêmio de 45 bilhões
de wones.
E um punhado de bilionários, os chamados VIPs, paga rios de dinheiro para ter o privilégio de sadicamente testemunhar os banhos de sangue. 
O universo distópico da série levaria à conclusão de que a Justiça jamais seria convocada para regular esse tipo de situação.
Mas a natureza do
 “topa tudo por dinheiro” existe na vida real.
A Justiça da França, por exemplo, teve que decidir se a prefeitura de Morsang-sur-Orge, cidade a 23 quilômetros ao sul de Paris, poderia ter proibido um evento
de “arremesso de anão”.
O “espetáculo” estava previsto para ocorrer em uma discoteca da cidade, no dia 25 de outubro de 1991. Mas um ato administrativo do prefeito proibiu o evento.
A discoteca e o próprio anão recorreram; o tribunal administrativo de Versalhes anulou a proibição e condenou a prefeitura a indenizar a empresa e o homem que seria arremessado pelos baladeiros.
A prefeitura levou então o caso ao Conselho de Estado, a última instância da jurisdição administrativa da França. Houve intenso debate na época.
De um lado, argumentos liberais defendiam que as pessoas são livres para fazer suas escolhas. Inclusive Manuel Wackenheim, o anão do caso, que topou receber dinheiro para ser o protagonista do evento.
De outro, sustentava-se que essa liberdade de escolha nem sempre existe, pois as pessoas podem não ter outra opção — a não ser se submeter a situações moralmente condenáveis.
No meio desse cabo de guerra, o Conselho de Estado chegou a uma decisão, em outubrode 1995.
O julgamento feito pelo Tribunal de Versalhes foi anulado: a prefeitura poderia ter proibido o lançamento de anão. E a empresa responsável pelo evento foi condenada a pagar 10 mil francos
 à cidade.
Isso porque o lançamento de anão atenta contra a dignidade da pessoa humana, que é um dos componentes da ordem pública. E cabe às autoridades, como os prefeitos, zelar por essa ordem. 
Além disso, a liberdade de trabalhar e de empreender não é obstáculo para que se proíba uma atividade lícita, desde que essa proibição esteja relacionada à preservação da ordem pública.
Mesmo considerando que seriam tomadas medidas para assegurar a proteção física de Manuel Wackenheim. O problema não era exatamente esse.
Mas a questão permanece: a suposta liberdade de contratar é ilimitada ou a desigualdade também deve ser considerada? E deve a Justiça interferir no combinado entre as partes?