Opinião

O racismo linguístico: uma conversa desconfortável

Autor

  • Carlos Eduardo Oliveira Dias

    é juiz do Trabalho mestre e doutor em Direito e membro da Associação dos Juízes para a Democracia (AJD) da Associação Brasileira de Juristas para a Democracia (ABJD) e da Associación Americana de Juristas (AAJ).

5 de dezembro de 2023, 21h38

No meu aniversário deste ano, como quase sempre acontece, ganhei alguns livros de presente. As pessoas do meu entorno, naturalmente, sabem o quanto aprecio uma boa leitura e costumam aumentar significativamente o meu déficit literário, constituído pela minha incapacidade de ler tudo aquilo que desejo. E olhe que sou um leitor voraz, que consome mais de dois livros por mês. Mas mesmo assim não consigo exaurir minha estante de Lasl (livros a serem lidos).

Divulgação
Comentarista Emmanoel Acho

Um livro, no entanto, chamou a minha atenção. Minha filha me presenteou com uma obra que eu desconhecia completamente, escrita por um ex-jogador de futebol americano e comentarista esportivo, Emmanoel Acho. Conversas Desconfortáveis com um Homem Negro, publicado no Brasil pela Leya em 2021, é resultado de uma websérie produzida para o canal do autor no YouTube, que teve mais de 17 milhões de visualizações. Transformado em livro e publicado em novembro de 2020, nos Estados Unidos, chegou à lista dos mais vendidos em apenas duas semanas e foi escolhido como um dos melhores do ano. Tornou-se um best-seller instantâneo do The New York Times.

A leitura foi uma grata surpresa para mim, que desconhecia completamente o autor e seu canal de sucesso. Além de muito bem escrito, ele traz à discussão assuntos que, para pessoas não-negras, não parecem tão relevantes. O título, em si, é uma importante provocação: não há como ficar confortável quando nós, brancos, somos confrontados com situações concretas vivenciadas pelas pessoas negras. Devo confessar que a leitura me despertou coisas que eu não conseguia, até então, enxergar. Mesmo sendo alguém que sempre esteve próximo às lutas populares e aos movimentos de defesa dos direitos humanos, incluído naturalmente o combate veemente ao racismo, minha condição sócio-econômico-cultural me poupou do enfrentamento real de situações clássicas de preconceito. Sendo homem branco, de classe média, de boa condição econômica e com uma profissão respeitável, sempre estive um pouco distanciado de práticas preconceituosas contra mim. Talvez a minha única rejeição estrutural decorra das concepções político-ideológicas que defendo, e que são as mesmas desde sempre, mas isso é algo que só tenho a me orgulhar.

Voltando ao livro, uma das coisas que ele nos desperta é o uso da linguagem como produtora e reprodutora de racismo. É  que chamamos de racismo linguístico, representado pelo uso da linguagem para perenizar a violência contra as populações historicamente submetidas a toda sorte de crueldade, em função da sua condição histórica, cultural e social. Isso se dá tanto por meio do apagamento ou do não aprofundamento sobre as origens de determinadas palavras, ignorando-se as contribuições e construções linguísticas que, no caso brasileiro, têm a ver com a herança indígena e africana, como também por meio da discriminação direta praticada por meio de palavras e expressões da língua.

Dessa maneira, o racismo linguístico pode se dar pelo apagamento de expressões positivas que têm a ver com essas culturas, ignorando-se a sua imensa contribuição na formação das nossas expressões. Exalta-se, de modo efusivo, a herança colonialista, que nos trouxe uma língua e hábitos europeus, como se fossem as únicas e melhores referências que temos. Mas ignora-se que a maior parte da cultura brasileira — em todas as suas dimensões, ou seja, artística, culinária, intelectual e, claro, de linguagem — tem uma enorme participação das populações que aqui já estavam e daquelas que foram forçosamente trazidas, em uma condição sub-humana.

Ao lado disso, temos aquelas expressões que estão há muito tempo na nossa língua e que são usadas sem que as pessoas percebam que elas carregam um tom depreciativo sobre os povos marginalizados. A expressão mais clássica em nosso meio é o verbo “denegrir”, usada até em meios acadêmicos, e que tem a ver com tornar algo pior, prejudicar algo ou alguém. A origem da palavra está relacionada com a expressão “tornar negro”, “enegrecer” alguma coisa, naturalmente traduzida de forma negativa, com cunho tipicamente racista. Então a ideia de que tornar algo negro tem a ver com prejudicar ou estragar essa coisa é consequência e manifestação desse racismo linguístico.

Outra expressão comumente utilizada e pouco associada às suas origens é “criado-mudo”. Há evidências de que esse termo, aparentemente inocente, faria referência “aos criados, geralmente pessoas escravizadas, que deveriam segurar objetos para seus senhores e eram proibidos de falar”. Essa definição está em um material muito interessante, produzido pela Defensoria Pública da Bahia, que nos apresenta um Dicionário de expressões (anti) racistas, com indicação de como eliminar as microagressões do cotidiano.

Algumas pessoas podem achar que esse tipo de classificação é exagerada, e que na maior parte das vezes, o uso dessas expressões não traz consigo a intenção de agredir ou ofender e, muito menos, de exalar seu preconceito. No entanto, devemos compreender que o elemento subjetivo, nesse caso, não muda a natureza do ato. Talvez para pessoas como eu (homem-branco-hetero), haja dificuldade de entender que expressões como “cor do pecado”, “mulata”, “lista negra”, “fazer nas coxas” e outras congêneres soam ofensivas não pelo sentido específico adotado no momento do seu uso, mas pela carga histórica que carregam, fazendo com que permaneça viva a memória e a ideia do preconceito e da discriminação racial oriundas, sobretudo, do nosso passado escravagista. “Termos e expressões herdadas do período escravagista presentificam o violento passado racista quando ditas, mesmo que muitas vezes como reprodução viciada e sem relação à origem específica do termo[1].

Mais do que isso, a insistência no uso dessas expressões se presta a perenizar a segregação. Afinal, a linguagem é uma categoria de opressão, pois serve para impor relações de subordinação entre grupos sociais, oriundos do gênero, da raça, da etnia, da religião, da sexualidade, da idade, dentre outros elementos. Quando insistimos em usar expressões estruturalmente ofensivas, estamos renovando a violência simbólica praticada pelos nossos ancestrais.

Retomo, com isso, a relevância do que aprendi no livro de Acho. Ele navega por várias questões formuladas por pessoas brancas sobre racismo e preconceito, partindo de um princípio básico: a única pergunta ruim é a pergunta não feita. Por isso, quando nos defrontamos com essa questão do racismo linguístico, a melhor pergunta que devemos fazer é: como se sentem as pessoas negras diante dessa expressão? Não há dúvidas de que a maioria esmagadora irá manifestar o seu desconforto, principalmente aqueles que sabem e conhecem a origem das palavras e das expressões.

É fundamental, nesse contexto, que saibamos que essas expressões são completamente dispensáveis, podendo ser claramente substituídas por outras, sem essa carga nefasta, e que expressam, às vezes até com maior precisão, a mensagem que se procura transmitir. Haverá quem invoque, no entanto, que esse tipo de orientação representaria uma “violação à liberdade de expressão”. Esse é um argumento que vem sendo recorrentemente utilizado para pregar a intolerância e para destilar o ódio. Mas que faz isso, ignora que essa dimensão da liberdade, estatuída pelos liberais do século 18, jamais foi um salvo-conduto para justificar o esmagamento de outros direitos fundamentais. Há muito se compreende que a liberdade de expressão não permite que sejam praticados atos de intolerância ou violência simbólica, ainda mais contra as populações historicamente fragilizadas pelo preconceito.

A convivência democrática demanda, cada vez mais, o respeito à diversidade, e disso faz parte a compreensão do significado de todas as formas de violência praticadas contra as minorias. Para isso, é fundamental que possamos abrir nossos olhos, mentes e ouvidos para as experiências das pessoas que fazem parte desses segmentos, como é o caso de Emmanoel Acho. Conversas desconfortáveis com um homem negro é um convite a todos interessados em conhecer mais aquilo a que as pessoas negras estão submetidas diariamente, como a discriminação, desigualdade e violência, nas formas mais latentes quanto nas mais veladas e estruturais.

É uma leitura mais do que recomendada às pessoas não-negras. Afinal, como já se disse mais de uma vez, não basta não ser racista. É preciso ser anti-racista.


[1] Romão, Juliana. O que e como se diz: delírio lacrativo e usos da linguagem. Revista Cult, março de 2021

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    é juiz do Trabalho, mestre e doutor em Direito e membro da Associação dos Juízes para a Democracia (AJD), da Associação Brasileira de Juristas para a Democracia (ABJD) e da Associación Americana de Juristas (AAJ).

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