Opinião

​​​​​​​Gastrodiplomacia: o que o Brasil (além da Amazônia) pode aprender com o Peru

Autor

  • Giovanna Wanderley

    é advogada especialista em Direito Marítimo e da Propriedade Intelectual Cientista Social Docente da Faculdade Católica do Rio Grande do Norte vice-presidente da Comissão de Direito Marítimo Portuário e Aduaneiro da OAB/RN pesquisadora no Núcleo de Estudos Avançados em Direito Internacional e Desenvolvimento Sustentável da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) do Centro de Estudos Estratégicos e Planejamento Espacial Marinho da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e do Museu Virtual Marítimo do Extremo Oriental das Américas.

7 de agosto de 2023, 12h19

O termo gastrodiplomacia foi citado pela primeira vez em 2002, em uma edição impressa do The Economist que abordava a estratégia bem sucedida da Tailândia em usar a sua gastronomia para difundir a cultura local e fortalecer a identidade nacional. A partir de então, vários outros países passaram a utilizar a gastrodiplomacia como soft power na construção do seu branding internacional. O Peru foi um deles.

Ao pensar no Peru, automaticamente, a maioria das pessoas lembram da sua culinária, ao lado de Machu Picchu, sem sequer imaginar que o país experimenta instabilidade política que motiva manifestações populares, como a recente "Tomada de Lima" (O Globo, 2023), responsáveis por fechar rodovias, suspender o acesso aos logradouros públicos e atrações turísticas. 

Fernando Frazão/Agência Brasil
O ceviche, peixe marinado, é um exemplo
Fernando Frazão/Agência Brasil

Na história peruana conhecida por estrangeiros, certamente há passagens da ancestralidade inca, exuberância dos andes e seus camelídeos, mas dificilmente haverá registros do "Sendero Luminoso", grupo paramilitar semelhante às Forças Armadas da Colômbia (Farc), descontentes com a representação política do país. Curiosamente, as ações do Sendero foram narradas no livro Lituma dos Andes de Mário Vargas Llosa, escritor ganhador do Nobel da Literatura em 2010, conhecido por outras obras.

Diante de passagens históricas como as citadas acima, o Peru (re)construiu a sua imagem a partir da gastronomia e suas ligações com a cultura e natureza, por meio da Marca Peru (2023). A Future Brand, empresa que criou a marca e, por conseguinte, o branding a ela associado, descreve em seu portfólio que o Peru "é um país único que tem uma abundância de atrações, benefícios e oportunidades que são escassos em qualquer outro lugar do mundo".

Além de movimentar a economia, uma vez que a licença para uso é paga, a Marca Peru aumentou o alcance interno e internacional dos produtos típicos, receitas, restaurantes, rotas turísticas, feiras, ações de fomento, oportunidades de investimento externo e premiações, a exemplo do World’s 50 Best, promovido pelo Guia Michelin e que elegeu o restaurante peruano "Central" como o melhor do mundo. O Central é comandado pelo chef Virgilio Martínez, embaixador da Marca Peru e idealizador do Projeto Mater Iniciativa (2023), para valorização dos elementos nativos dos ecossistemas andinos na gastronomia.

A ideia de singularidade e o forte apelo cultural e identitário da gastronomia após a Marca Peru, trouxe novos contornos à gastrodiplomacia peruana e fez (res)surgir uma nova nuance também para o "mercado da saudade", cujo público original era o peruano residente fora do  país, alcançando os estrangeiros que queriam experimentar os sabores andinos, muitos deles sem sequer ter pisado na terra dos incas. A fascinação pela cultura e o anseio pela experiência sensorial trazida pela comida peruana, vem mostrando a capacidade da gastrodiplomacia mostrar ao mundo uma nova visão de um país.

Semelhante fascínio pela gastronomia, cultura e exuberância natural é identificado no Brasil, mas de maneira rarefeita e em sua maioria atrelada à Amazônia. Elementos como o açaí, castanha do Pará, fava Tonka, oriundos da floresta, são conhecidos em todo o mundo, não só na gastronomia, mas sobretudo na indústria cosmética e a fragilidade de planos de preservação ambiental já foi, inclusive, motivo de tensões diplomáticas na negociação de acordos internacionais, como o que se tentou estabelecer entre o Brasil e a União Europeia.

Nessa esteira, a Tailândia e o Peru foram inspirações para o Projeto Amazônia 2030, idealizado por Roberto Smeraldi e Saulo Jennings (2023) para o desenvolvimento de um plano brasileiro de soft power, centrado na gastrodiplomacia da Amazônia e concebido para construir uma "marca global com características positivas" para o país.

Com a devida vênia, a genialidade do projeto de valorização da cultura amazônida, poderia ser encampada como um projeto maior e apto a englobar o Brasil, além da Amazônia, assim como fez o Peru, que também possui uma "Amazônia", na busca de unir as regiões enquanto integrantes de uma mesma nação.

A gastronomia brasileira, retratada por seus ingredientes nacionais, estão por todos os lugares do país ansiando por valorização interna, suporte para alcance internacional e não aumento da segregação regional existente. O patrimônio culinário nacional tem poucos registros nos tombamentos como bens imateriais no Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan).

O mesmo ocorre com as denominações de origem e indicações de procedência registradas no Instituto de Propriedade Industrial (Inpi). Os existentes, ainda não representam a diversidade brasileira, sobretudo em sua gastronomia.

Os pratos nacionais ainda se apresentam com inspirações estrangeiras para melhor aceitação. Enquanto no Peru é possível comer ceviche em estabelecimentos do tipo fast food, no Brasil, as franquias da mesma natureza cada vez mais se interiorizam. A título de ilustração, uma das redes de fast food mais famosas do Peru, a Bembos, é nacional, possui menu genuinamente peruano, harmonizado com Inka Kola.

No Brasil, produtos genuinamente nacionais são pouco valorizados internamente, sendo escassos (até) no "mercado da saudade" dos brasileiros no exterior. O samba, caipirinha, feijoada e futebol ainda preponderam no atual branding internacional. Por fim, o sal marinho potiguar de mesa é excelente e atende a cerca de 95% do consumo brasileiro. Poucas pessoas sabem dessa informação, mas provavelmente conhecem a flor de sal, originária da ilha francesa de Guérande ou o Sal de Maras, no Peru.

 

Referências
MATER INICIATIVA. (2023). Nosotros. Acessível em: https://materiniciativa.com/nosotros/.

O GLOBO. (2023). 'Tomada de Lima': Manifestantes voltam às ruas no Peru em dia de protestos contra o governo de Dina Boluarte. Acessível em: https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2023/07/19/tomada-de-lima-manifestantes-voltam-as-ruas-no-peru-em-dia-de-protestos-contra-o-governo-de-dina-boluarte.ghtml.

PERU. MINISTERIO DE COMERCIO EXTERIOR E TURISMO. Marca Perú. (2023). Acessível em: https://peru.info/es-pe/marca-peru

FUTURE BRAND. (2023). Marca Peru. Acessível em: https://www.futurebrand.com/our-work/peru.

SMERALDS, Ronald. JENNINGS, Saulo. Amazônia 2030. Soft Power, Gastronomia E Amazônia. Acessível em: https://amazonia2030.org.br/wp-content/uploads/2023/05/Soft-power-gastronomia-e-Amazonia.pdf.

THE ECONOMIST. (2002). Food as ambassador: Thailand's gastro-diplomacy. Acessível em: https://www.economist.com/asia/2002/02/21/thailands-gastro-diplomacy.

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    é advogada especialista em Direito Marítimo e da Propriedade Intelectual, Cientista Social, Docente da Faculdade Católica do Rio Grande do Norte, vice-presidente da Comissão de Direito Marítimo, Portuário e Aduaneiro da OAB/RN, pesquisadora no Núcleo de Estudos Avançados em Direito Internacional e Desenvolvimento Sustentável da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), do Centro de Estudos Estratégicos e Planejamento Espacial Marinho da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e do Museu Virtual Marítimo do Extremo Oriental das Américas.

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