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Juliana David: O que falta aprender sobre atentados escolares

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Após falar do perfil dos atiradores escolares no meu texto "A desculpa psiquiátrica nos tiroteios escolares: 20 anos depois de Columbine", publicado aqui na ConJur, pensei que seria importante, para além do perfil dos agressores, realizar um levantamento, também, dos alvos comuns desse fenômeno criminoso.

Fernando Frazão/Agência Brasil
Escola Estadual Thomazia Montoro, em SP
Fernando Frazão/Agência Brasil

Infelizmente, antes que eu o pudesse fazer, munida somente da teoria e da história desses ataques, fomos confrontados por mais duas tragédia dessas, por dois dias seguidos, para deixar abundantemente claro para nós quem é o tipo de "alvo" preferido dessa violência literal e simbólica dos massacres escolares, sejam eles consumados ou tentados.

Primeiro caso: atentado na Vila Sônia, São Paulo
Um adolescente do 8º ano do ensino fundamental atacou, na manhã do última dia 27, professores e alunos da Escola Estadual Thomazia Montorona, na Vila Sônia, zona oeste de São Paulo. Quatro docentes — todas mulheres, professoras — e dois alunos foram esfaqueados. A professora Elisabeth Tenreiro, 71, foi socorrida em estado grave e levada até o Hospital Universitário da USP, mas não resistiu, conforme informado pela Secretaria Estadual de Educação de São Paulo.[1] Em tese, a teoria que vem sendo apurada pela polícia é a de que o ataque poderia ter sido motivado por uma briga, ocorrida dias antes, com outro aluno, no qual o responsável pelo ataque o teria chamado de "macaco"[2].

Após o adolescente ser conduzido pelos policiais até o 34º DP (Distrito Policial), onde o caso foi registrado, o celular do jovem foi periciado. No aparelho, a polícia encontrou publicações em seu perfil fechado no Twitter, que mencionavam o ataque. Na conta, o responsável pelos ataques utilizava o apelido "Taucci", e presume-se que seria em homenagem a um dos atiradores do massacre escolar de Suzano, ocorrido em 2019.[3]

Sobre todos estes fatos, tenho algumas tristes considerações a fazer.

A primeira dela é sobre a similaridade que guarda com outros crimes da mesma espécie. Muito embora as conexões do caso de Vila Sônia pareçam mais evidentes com massacre escolar ocorrido em Suzano, na região metropolitana de São Paulo, esse ataque (Vila Sônia), em particular, me lembrou o caso de Realengo, que foi um massacre ocorrido em 2011, quando um ex-aluno da Escola Municipal Tasso da Silveira invadiu a escola armado com dois revólveres, matando 12 vítimas, e ferindo outras 22 pessoas[4]. Uma análise do perfil das vítimas do massacre de Realengo revela que todas eram jovens estudantes do ensino médio, com idades entre 13 e 15 anos, e somente duas não eram do gênero feminino.

"Realengo", em 2011, revelou uma triste realidade sobre a cultura de ódio contra as mulheres, que se manifestava, no passado, em fóruns online conhecidos como "chans". Ela, hoje, toma a forma de servers na plataforma Discord, e se materializa em uma subcomunidade do Twitter, que utiliza diversas tags — dentre elas, a mais popular, #tcctwt (ou True Crime Twitter), onde atiradores escolares tanto brasileiros quanto americanos possuem certa espécie de "fanbase", diversos fàs que editam fotos e vídeos em homenagem a seus "ídolos"[5][6].

Em 2012, descobriu-se que o atirador de Realengo fora influenciado por uma seita masculinista, que deu origem a um fórum online chamado “Dogolochan”. As fate would have, foi deste mesmo fórum que os atiradores do Massacre de Suzano, anos mais tarde, tirariam dicas para outro crime. Nesse chan, o atirador de Realengo era considerado como "herói".

Ao explorar essas comunidades, você se deparará com situações que vão desde revisionismo da história de massacres antigos, como os de Columbine, para pintar os atiradores como vítimas, até à idolatria doentia de figuras declaradamente extremistas que praticaram massacres do tipo, com troca de dicas e ideias sobre como praticar o próximo atentado.

A cultura de ódio contra as mulheres e negros, em boa parte desses ataques, é uma questão preocupante, que muitas vezes é ignorada ou minimizada. Esses fóruns são frequentados por jovens, principalmente homens, que propagam mensagens de misoginia e ódio contra as minorias, muitas vezes incentivando o assédio, e até a violência contra essas pessoas.

Da mesma forma que mulheres foram o alvo preferencial no massacre de Realengo, vemos tristemente a história se repetir. Na Vila Sônia, o perfil de gênero das vítimas, que eram efetivamente alvos do adolescente, seguiram a mesma tendência: quase todas mulheres.

Segundo caso: tentativa de atentado na Gávea, no Rio
No dia seguinte aos fatos ocorridos em São Paulo, houve mais uma tentativa de ataque a uma escola. Desta vez, na Gávea, na zona sul do Rio de Janeiro. Em 28 de março, um adolescente de 15 anos foi detido em uma escola, após tentar esfaquear duas colegas. Segundo relatos, o aluno foi transferido recentemente para aquela unidade escolar, após ter proferido ofensas racistas a um professor na escola em que estudava anteriormente.[7]

As similaridades são assombrosas, pois, em ambos os casos, os agressores se utilizaram do mesmo meio para a prática dos crimes, foram possivelmente motivados por brigas anteriores devido às suas práticas racistas, e tiveram como principais alvos pessoas do gênero feminino. Neste momento, com a organização dessas células extremistas, não é possível dizer se foram ataques combinados, coordenados, ou completamente separados, com uma dinâmica de copycat.

Uma coisa, porém, é inegável quanto ao histórico destes crimes: via de regra, os agressores participam avidamente de comunidades extremistas online, e de lá obtém apoio, dicas, e até auxílio, por vezes, para a prática destes atentados.

A nouveau onda fascista e a modernização do ódio
Conforme apurado em um estudo, elaborado pela antropóloga Adriana Dias, vimos um aumento sem precedentes na quantidade de núcleos nazistas e extremistas. Segundo apontado pela pesquisadora, células de grupos neonazistas cresceram cerca de 270% no Brasil, entre janeiro de 2019 a maio de 2021. Foi noticiado que tais células nazistas "se espalharam por todas as regiões do país, impulsionadas pelos discursos de ódio e extremistas contra as minorias representativas, amparados pela falta de punição".[8]

Na era digital, nos deparamos com o ódio 4.0. Aquele que está difundido nas redes, nas plataformas digitais, nas redes sociais e se disfarça de ambiente acolhedor para jovens incompreendidos, tudo no intuito de recrutar a próxima geração de extremistas. Em sua dimensão mais violenta, estes grupos fomentam e auxiliam ataques como os de Vila Sônia, Suzano, etc. Porém, não raros são os casos em que ativistas progressistas são perseguidos por estes grupos, recebendo dúzias de ataques digitais e ameaças.

A professora Lola Aronovich, por exemplo, enfrenta problemas com estes grupos há pelo menos 15 anos, e não falhou em reconhecer a conexão entre o massacre de Realengo e a cultura masculinista. Segundo ela[9]:

Logo [após os ataques sofridos] em abril daquele ano, aconteceu o massacre de Realengo, em que um homem invadiu uma escola no Rio e matou 12 alunos, dez meninas e dois meninos. Já entendia o que estava acontecendo, porque o massacre seguia o padrão dos que aconteceram nos Estados Unidos e no Canadá. Acompanhei a reação dos fóruns: eles ficaram em pânico. Muitos saíram do ar, porque sabiam muito bem que o Wellington [Menezes de Oliveira, autor do massacre] era um masculinista.

Um dos principais blogs de "humor" masculinista, assinado por Silvio Koerich, que era uma identidade falsa, também sumiu. Quando reapareceu meses depois, voltou mais radical e extremista, então sem humor. Pregava estupro corretivo para lésbicas e legalização da pedofilia e do estupro, além de recompensa para quem me matasse e matasse o Jean Willys, que era o único deputado abertamente gay na época.

O primeiro boletim de ocorrência que fiz foi em janeiro de 2012 depois de várias ameaças de morte desse blog. Passamos a denunciar direto para a polícia, o que foi uma grande dificuldade. Ninguém tinha a menor ideia do que eu estava falando. Não sabiam o que era um blog. Não sabiam o que era um chan, que são os fóruns virtuais. Não tinha legislação especializada para isso naquele tempo.

Além do caso da Lola, no Brasil, não faltam outros exemplos. Gostaria de trazer atenção, entretanto, a um caso específico, em que um ativista LGBTQIA+ e uma advogada relataram ameaças de um grupo nazista organizado no Discord, que contava com cerca de 120 membros[10].

Ressalto este caso, primeiro por ser extremamente recente (relatado em outubro de 2022) e, em segundo lugar, diferentemente do que vinha acontecendo há anos com outros ativistas, que eram atacados, em sua maioria, por grupos organizados em fóruns onlines (os chans), vemos, aqui, modernização na organização destas células extremistas, devido ao uso do Discord.

Mas, afinal, o que é o Discord?

O Discord é um aplicativo de chat de texto e voz, criado em 2015, pela desenvolvedora de jogos Hammer and Chisel, a qual foi renomeada, mais tarde, para Discord Inc. O software surgiu, inicialmente, como um meio de chat de voz, em tempo real, para a comunidade gamer online[11].

Como um aplicativo multiplataformas, que pode ser usado no Windows, Linux, MacOS, iOS, Android, etc., a plataforma rapidamente se popularizou entre a comunidade gamer, que, até então, dependia de outros aplicativos como Skype e Viber para manter as chamadas calls durante suas partidas, em que jogavam juntos à distância jogos como League of Legends, Fortnite, Dota 2, Counter Strike, etc.

O Discord permite a criação de pocket universes virtuais (ambientes de comunidade auto-contidos), por meio da utilização de servidores (ou servers, no original) dentro da plataforma. Dentro de cada server, podem existir diversos canais de chat em texto ou em voz, mais ou menos, a grosso modo, parecido com a nova mecânica de comunidades instituída pelo WhatsApp. Neste ambiente virtual, podem ser utilizadas, inclusive, ferramentas de automação chamadas bots, as quais são capazes desde tocar música até a tomar medidas de moderação (sinalizar conteúdo que não é permitido nos chats para os administradores).

Chamo esses servidores de pocket universes porque, com um clique, o administrador é capaz de simplesmente deletar tudo (todos os chats, todo o conteúdo contido no server) sem deixar um fiapo de evidência para trás, a menos que sejam periciados os servidores físicos, que ficam localizados no Brasil, em diversos países da Europa, em Hong Kong, em regiões dos EUA, Japão, Rússia, Singapura, e muitos, muitos outros lugares. A informação digital sofre uma pulverização extrema, e as autoridades são confrontadas com a tarefa de buscar uma agulha minúscula em um palheiro de proporções globais.

Como já exposto acima, o Discord nasceu no seio da cultura gamer online. Por esta razão, obviamente, o público alvo da plataforma, e aqueles que mais fazem uso dela, são os integrantes dessa comunidade. E essa comunidade gamer que une todas as idades, por sinal, está longe de ser livre de controvérsias.

O GamerGate (cujo nome foi inspirado no escândalo de Watergate, da gestão Nixon) foi um movimento prevalente nos anos de 2014 e 2015, onde um grupo organizado da comunidade gamer assediava, perseguia e ameaçava mulheres que manifestavam descontentamento com o machismo dentro da comunidade, e esse movimento levou à demissão ou ao ostracismo de diversas mulheres que trabalhavam no meio gamer[12]. Estudiosos, inclusive, atribuem o crescimento da alt-right nos meios gamers a esse fenômeno do GamerGate, que ocorreu em meados da década passada[13].

Segundo Jacob Davey, pesquisador sobre o tema, ao tratar da escalada extremista, especificamente, no Discord, em estudo realizado junto ao ISD (Institute for Strategic Dialogue)[14]:

Descobrimos que o Discord age principalmente como um centro de socialização e construção de comunidade de extrema-direita. Nossa análise sugere que o Discord fornece um espaço seguro para os usuários compartilharem material ideológico e explorarem movimentos extremistas.

De particular preocupação é a idade jovem dos membros desses servidores, que em média, quando determinável, tinham 15 anos. Isso sugere que o Discord pode atuar como um ponto de entrada para crianças entrarem em contato com a ideologia extremista.

Encontramos evidências limitadas de que jogos desempenharam um papel em estratégias sérias para radicalizar e recrutar novos indivíduos na plataforma. Em vez disso, os jogos foram principalmente referenciados em termos culturais, sendo usados pelos membros desses servidores para encontrar pontos em comum.

O assédio online gamificado por meio de "ataques" foi uma atividade popular em todos os canais analisados. Isso sugere que esse cyberbullying semiorganizado pode ser um vetor que leva jovens a entrarem em contato com comunidades extremistas.

Identificamos discussões nesses canais que expressavam apoio às organizações terroristas proscritas Atomwaffen Division e Sonnenkrieg Division. Isso incluiu o compartilhamento de conteúdo produzido por essas organizações, bem como a identificação de um usuário que expressou interesse em se juntar à Atomwaffen.

A Campanha Nacional pelo Direito à Educação (CNDE) atribuiu o atentado de Vila Sônia ao "aumento de ideias e comportamentos fascistas, de extrema direita" e à "cultura de ódio"[15]. Conforme os levantamentos feitos até aqui, o diagnóstico parece correto. A nota ainda sugere que apenas medidas de "segurança" não seriam suficientes para tratar o problema, sendo necessário o estabelecimento de diálogos sobre extremismo e conscientização nas escolas, o que, sem dúvida, creio que ninguém discorde.

O atentado da Vila Sônia gerou bastante atenção, e o Ministro dos Direitos Humanos e Cidadania, Silvio Almeida, sugeriu que seriam necessárias, ainda, medidas regulatórias e repressivas para solução do problema[16].

Quanto a isso, não discordo. Todavia, é preciso que nossos órgãos investigativos estejam devidamente treinados e capacitados para lidar com o problema, na complexidade em que ele se apresenta. Estes núcleos extremistas, atualmente, organizam-se virtualmente de modo que torna a localização e investigação dos usuários extremamente difícil, e a recuperação de dados submetidos à "queima de arquivo" mais complicada ainda.

Segundo a pesquisadora Telma Vinha[17], esse não será o último atentado dessa espécie no Brasil, e sem sombra de dúvida a pesquisadora está certa nessa conclusão. Essas comunidades, nesta pararrealidade, seguem existindo mais fortes do que nunca, e para além do trabalho repressivo clássico, é preciso que tenhamos uma atuação especializada em cibercrimes e organizações extremistas. questionamento que fica é: como esses fóruns online e esses grupos de ódio ainda conseguem operar para disseminar mensagens de misoginia e incentivar a violência contra as mulheres, negros, e pessoas LGBTQIA+?

O que precisa ser feito para que haja uma mobilização para combater essa cultura de ódio, garantindo assim que casos como o de Realengo, de Suzano, e, agora, o da Vila Sônia, não mais se repitam?

 


[2] Ataque a escola em SP: Na semana anterior, agressor chamou colega de "macaco" – https://cultura.uol.com.br/noticias/57332_ataque-a-escola-em-sp-na-semana-anterior-agressor-chamou-colega-de-macaco.html

[3] Secretário da Segurança de SP diz que 'toda pessoa que curtiu ou comentou' publicação de agressor no Twitter sobre atentado será investigada – https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2023/03/27/secretario-da-seguranca-de-sp-diz-que-toda-pessoa-que-curtiu-ou-comentou-publicacao-de-agressor-sobre-atentado-sera-investigada.ghtml

[6] 'Columbiners' and 'TCC': A look at the Columbine-obsessed subculture that exists online – https://www.ktvu.com/news/columbiners-and-tcc-a-look-at-the-columbine-obsessed-subculture-that-exists-online.amp

[7] Aluno é detido após tentar esfaquear colegas em escola no Rio de Janeiro – https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/aluno-e-detido-apos-tentar-esfaquear-colegas-em-escola-no-rio-de-janeiro/

[11] Ex-‘Fates Forever’ Developers Making ‘Discord’, a Voice Comm App For Multiplayer Mobile Games – https://toucharcade.com/2015/09/14/ex-fates-forever-developers-making-discord-a-voice-comm-app-for-multiplayer-mobile-games/

[12] Funcionária da Nintendo é demitida após ataques do GamerGate – https://br.ign.com/nintendo/20458/news/funcionaria-da-nintendo-e-demitida-apos-ataques-do-gamergate

[13] DAVEY, Jacob. Gamers who hate: an introduction to ISD's gaming and extremism series. https://www.isdglobal.org/wp-content/uploads/2021/09/20210910-gaming-reportintro.pdf

[16] Idem.

[17] Ataque em escola de SP: ‘Vai acontecer de novo, só não se sabe onde’, diz especialista – https://www.estadao.com.br/amp/educacao/vai-acontecer-de-novo-so-nao-se-sabe-onde-diz-especialista-em-violencia-nas-escolas/