Consultor Jurídico

opinião

Eles não usam black tie: Um fato histórico para a advocacia brasileira

Por  e 

Em fevereiro de 1958, estreava em um combalido Teatro de Arena a peça "Eles Não Usam Black Tie", escrita por Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006).

Cena do longa "Eles não usam black tie", de 1981, com Gianfrancesco Guarnieri, Fernanda Montenegro e Carlos Alberto Riccelli, sob a direção de Leon Hirszman
Reprodução 

Um dos marcos da dramaturgia nacional, a peça tem como personagem principal Tião, um jovem que resolve trair uma greve de operários conduzida por seu próprio pai, Otávio, um velho sindicalista. Dentre os motivos do jovem destaca-se o medo, racionalizado na concepção de que a luta dos trabalhadores seria uma utopia sem chance de reconhecimento.

No dia 14 de maio de 2021, mais de 60 anos após a consagração de Guarnieri, advogados de todo o Brasil acordaram com um grito lançado em diversos grupos de Whatsapp.

Na noite do dia anterior, no 103º DP de São Paulo, localizado em Itaquera, símbolo da periferia paulistana, um advogado foi preso em flagrante ao atuar na defesa de uma mulher que se encontrava detida, basicamente por tê-la aconselhado a não fornecer a senha de seu telefone celular.

A seguir uma rotina já sedimentada na consciência coletiva da advocacia, o excesso praticado poderia ser apenas mais um evento limitado à internet. Advogadas e advogados com acesso à notícia expressariam por escrito sua indignação, lançariam emojis de indignação e, na manhã seguinte, seguiriam no cumprimento de seus prazos, restando o fato perdido em algum buraco escuro do jardim das excentricidades.

Mas a coisa tomou outro rumo.

Dos fatos brotou uma ação coletiva, imediata e não combinada. Em um movimento de levante, dezenas de advogados e advogadas despertaram, no meio da noite, para a necessidade de defesa da classe.

Surpreende (para não dizer que assusta) a imagem de advogados desconhecidos aglomerados na delegacia em defesa do outro. Advogados anônimos e que possuíam em comum, além da profissão, apenas um histórico particular de desfeitas e humilhações, saíram de suas casas e foram até uma delegacia de difícil acesso para muitos.

O que ocorreu foi uma lição. Assim como Guarnieri revolucionou ao trazer para o teatro a voz do homem comum, o evento pode ser interpretado como um grito àqueles que ocupam posições de destaque e de privilégio na advocacia, àqueles que do alto de bons escritórios, acostumados com a regularidade do tratamento que em regra recebem de autoridades, involuntariamente se alienam das afrontas que outros advogados sofrem em regiões periféricas do Brasil.

O menoscabo que é exceção na vida profissional de advogados acostumados ao uso do black tie, muitas vezes é regra na vida profissional de advogados em posições mais modestas, o chão de fábrica que faz a roda girar.

A "alta advocacia" precisa enxergar no colega de combate que está mais distante e que geralmente possui menos poder de influência, um igual. Lutar por seus direitos.

Se a lição for bem digerida, este ato de sublevação pode ter um significado muito maior do que o caso em si. Pode representar o início do fim de uma era de medo, um sentimento decorrente da crença no respeito e na valorização da classe, como simples utopia.

Foi bonito constatar a união, algo que de certa forma lembra dos conselhos da personagem Maria, noiva de Tião na peça de Gianfrancesco: "Sozinho tu não resolve nada!".




Topo da página

 é diretor de comunicação do Instituto DNA (Diálogos da Nova Advocacia).

 é advogado e sócio do escritório Lima Goulart & Lagonegro — Advocacia Criminal.

Revista Consultor Jurídico, 15 de maio de 2021, 11h14

Comentários de leitores

3 comentários

Papai Noel, lembre-se de quem não usa "blac tie"

E. Coelho (Jornalista)

Papai Noel, bom dia!

Segue a lista que um advogado fez, a qual eu achei interessante.

1. Gostaria de pedir que todos os julgadores lessem os autos antes de decidir.
.
2. Gostaria de pedir que todos os julgadores tivessem o bom senso de ler os Embargos de Declaração e dessem as respostas fundamentadas de acordo com o artigo 489, § 1.o., do CPC.
.
3. Gostaria de pedir que os julgadores recebessem os advogados para entrega de memoriais e lhes dessem pelo menos alguns minutos de atenção, mesmo por videoconferência.
.
4. Gostaria de pedir que todos os julgadores não se retratassem "apenas em razão de embargos auriculares". Porém, caso haja necessidade de retratação que expliquem os motivos e a nova decisão seja fundamentada [artigo 489, § 1.o., do CPC].
.
5. Gostaria de pedir que os julgadores não acreditassem somente nos advogados que usam "black tie" em detrimento dos demais. Papai Noel você sabe o que estou falando...
.
6. Gostaria de pedir que as grandes empresas, especialmente aquelas que receberam prêmio de empresa Ética, tivessem boa-fé, ética, respeito pela legislação, etc. E não tivessem tanta sorte de obter decisões que contrariam a lei e a jurisprudência.
.
7. Gostaria de pedir que os meus processos não demorassem tanto para serem julgados.
.
8. Gostaria de pedir que os advogados tivessem respeito pelos seus adversários, que trabalhem com honestidade, com ética, com respeito à legislação.
.
9. Gostaria de pedir que leve de presente vários tapetes para muitos advogados, porque eles gostam de puxar os tapetes dos outros.
.
10. Papai Noel gostaria de pedir que os advogados pudessem trabalhar duro, porém tendo paz e a certeza de serem respeitados.

Aplausos aos colegas Douglas e Weslley !!!

Rejane G. Amarante (Advogado Autônomo - Criminal)

Belo texto para manter a chama acesa.
A "Luta Pelo Direito", como ensinou Jhering, nunca termina.
Só discordo de um ponto, na advocacia, uma advogado só faz verão, sim ! Há exemplos históricos notáveis !
Que dirá mais de um milhão de advogados, só computando os inscritos na OAB.
Vamos à luta. O Estado de Direito está sendo duramente atacado há anos. E tudo isso ocorre dentro de uma alegada "democracia". Uma "democracia" para quem está nas ditas "instituições democráticas" ou tem bons "vínculos de amizade" com agentes públicos.
Nós, escravos da democracia, que só temos direitos "no papel", devemos fazer valer a efetividade de nossa tão alvejada Constituição por mais de uma centena de emendas constitucionais promulgadas à revelia do interesse social e nacional e sem legitimidade formalizada por referendo. Que democracia é essa que não consulta o Povo nem obtém a sua autorização para mudar a Constituição ?
O que deveria ser a lei fundamental para todos tornou-se objeto de barganha alterado arbitrariamente conforme os interesses dos partidos políticos, especialmente os mais antigos - PMDB/MDB, PT, PSDB.
Numa democracia, o poder é exercido pelos partidos políticos que deveriam representar o Povo, os eleitores que votam confiando no "programa" apresentado que, logo após as eleições, é simplesmente descartado e prevalecem os interesses dos partidos e dos políticos. Todo o tipo de "interesse", desde os eleitoreiros até os mais impublicáveis.
Toda caminhada começa com um primeiro passo. Avante !

Obrigado

Eder Canavan (Advogado Autônomo - Criminal)

OBRIGADO A TODOS ADVOGADOS PRESENTES. E TODOS DEVIDAMENTE POR MIM CONSTITUÍDOS ALI NA DELEGACIA ME DEFENDENDO. OBRIGADO  Douglas Lima Goulart e Weslley Gabriel Passos minha Ferreira ao portal Conjur, por este texto, maravilhoso que retrata com absoluta fidelidade o que aconteceu dentro daquela delegacia, o que houve de pior e o que houve de melhor. Parabéns.

Comentários encerrados em 23/05/2021.
A seção de comentários de cada texto é encerrada 7 dias após a data da sua publicação.