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Castelo de areia

Irmão avisou que Palocci iria "inventar" delação sobre Seripieri, diz revista

Um áudio gravado pelo fundador e ex-presidente da operadora de planos de saúde Qualicorp, José Seripieri Junior, tem potencial para implodir o acordo de delação, já capenga, de Antonio Palocci. A gravação faz parte do acordo que o próprio Seripieri fechou com a Procuradoria-Geral da República.

FiespJosé Seripieri entregou à PGR gravação de conversa em que irmão de Palocci antecipa delação e oferece contato de advogado

O procurador-geral da República, Augusto Aras, deve pedir o arquivamento da delação do ex-ministro.

A conversa, divulgada pela revista Veja, ocorreu entre o empresário e Pedro Palocci, irmão do Antonio, e foi gravada sem o conhecimento do segundo.

No áudio, Pedro antecipa detalhes da delação premiada do irmão a Seripieri, ouve que a acusação é mentirosa e, em resposta, oferece o contato do advogado "que pegou todas as informações". Segundo a revista, há suspeita de que houve uma tentativa de chantagem.

Na conversa, Pedro diz que o fundador da Qualicorp vai ser citado pelo irmão em sua delação, de forma a conseguir encaixá-la nas hipóteses já formuladas de antemão pelos investigadores. Segundo a revista, o irmão de Palocci teria dito que era preciso "inventar" relatos ou "confirmar na outra ponta" uma história dada como pronta pelas autoridades.

Ele fala que Antonio Palocci vai implicar Seripieri no caso da indicação de Maurício Ceschin, ex-CEO da Qualicorp, para a presidência da ANS. A narrativa, que acabou virando o anexo 37 da delação, era de que Seripieri usou sua influência junto ao governo Lula para indicar Ceschin à ANS, onde ele poderia aprovar duas portarias que beneficiariam a empresa. O problema é que Ceschin só tomou posse na agência quatro meses depois da aprovação das normas, em novembro de 2009.

Na conversa gravada, Seripieri responde que "nada disso procede", ou seja, que a acusação que será usada contra ele é uma mentira. Também diz que só conheceu Lula em 2011. O irmão de Palocci, então, oferece o contato de um advogado, "que pegou todas essas informações", e ainda sugere: "aí a gente mostra tudo que tem lá".

De acordo com a Veja, a gravação do encontro foi feita em 2017, quando Antonio Palocci tentava avançar em um acordo de delação na "lava jato". Seripieri diz que estranhou a aproximação do irmão do ministro e, por orientação de seu advogado, gravou a conversa.

Em depoimento prestado à PGR no fim de 2020, segundo a reportagem, o empresário diz que ignorou a proposta e classificou o diálogo como "muito estranho", deixando entre os procuradores a impressão de que houve uma tentativa de chantagem.

Leia a transcrição parcial divulgada pela Veja:

Pedro Palocci
Delação, então, funciona assim: você entrega o nome (...), preserva alguma coisa (...) O resto é o que eles querem. E eles espremeram muito em relação a alguns empresários. Incluindo você. (...) Queriam falar sobre você, sobre as coisas que imaginam que ele tenha feito para você!

José Seripieri Junior
Meu Deus.

Pedro Palocci
E aí, falou que dentro das coisas que eles pediram (ininteligível) porque tem todo um dossiê montado e feito... relacionado à proteção do Maurício na ANS (ininteligível), inclusive coisas com o Lula, né? (...) coisa nesse nível.

José Seripieri Junior
Isso não existe. Nada disso procede! Isso é uma loucura.

Pedro Palocci
Te sugeriria o seguinte, se você quiser, tem o advogado que pegou todas essas informações (...). Eu acabei esquecendo de trazer o cartão dele, então, se você quiser entrar em contato, só pra ele passar o número, porque eu (...) fiz questão de não saber, porque quanto menos você saber melhor, né? (...) Aí a gente mostra tudo que tem lá".

Outro lado
Procurada pela revista para comentar o encontro entre o empresário e o irmão de Palocci, a defesa do ex-ministro informou que desconhecia a iniciativa de Pedro. 

Segundo os advogados do ex-ministro, foi Seripieri quem em 2017 teria procurado a esposa de Palocci, Margareth, em três ocasiões.

Ainda de acordo com a defesa, o empresário teria sido "informado por ela que os processos do marido estavam sob exclusivo cuidado de seus advogados, que cuidavam da sua defesa técnica, não tendo sido ela mais procurada".

"Embora não exista irregularidade em tais fatos, eles foram devidamente narrados por Antonio Palocci em seu acordo de colaboração homologado pelo STF", diz a nota dos advogados.

Pedro Palocci, que é presidente do Hospital São Lucas de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, não se manifestou.




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Revista Consultor Jurídico, 14 de maio de 2021, 12h36

Comentários de leitores

3 comentários

Demissão é a solução

Bruno Castellar (Advogado Autônomo - Administrativa)

No dia que for possível demitir, Magistrados e Membros do Ministério Público, de todas as esferas e instâncias , aí sim esses servidores darão valor aos seus empregos com seus gordos salários. Nesse dia, esses servidores estarão mais preocupados em aplicar a lei, a aparecer na TV como algum paladino da Justiça.

Marginais autorizados!

Joro (Advogado Autônomo)

Estado delinquente?

Tudo bandido

olhovivo (Outros)

..."confirmar na outra ponta" uma história dada como pronta pelas autoridades. É assim que funciona" (SIC)
É a velha e conhecida delação à la carte. Se, no caso, isso for verdade, é tudo bandido, tanto investigados como investigadores, violadores da lei, celerados, nojentos...

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