Embargos Culturais

Paulo Rónai, o homem que aprendeu o Brasil

Autor

  • Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

    é livre-docente pela USP doutor e mestre pela PUC- SP advogado consultor e parecerista em Brasília. Foi consultor-geral da União e procurador-geral adjunto da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

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13 de junho de 2021, 8h00

"Paulo Rónai, o homem que aprendeu o Brasil", de Ana Cecília Impellizieri Martins, ganha, de longe, no quesito melhor biografia de 2020 (1). A felicidade na escolha do biografado contribui para essa constatação, o que se confirma com a qualidade da narrativa, com as fontes, e com a paixão da biógrafa pelo sujeito-objeto da pesquisa. A autora quebra qualquer preconceito da historiografia positivista, para a qual a qualidade da narrativa predicaria na neutralidade do narrador. A autora não é neutra. Descreve o biografado com ênfase e afeto. É essa, creio, a qualidade que faz dessa biografia uma grande biografia.

Spacca
Paulo Rónai nasceu em Budapeste (1907) e faleceu no Rio de Janeiro (1992). Filólogo, tradutor, ensaísta, crítico, latinista, professor, autor de imensa obra, Rónai é nome importantíssimo em nossa história cultural. Judeu, sofreu perseguição na Hungria, aliada ao governo nazista, ao qual se deve a perda — entre tantos outros — da primeira esposa, Magda, com quem se casou por procuração, e que não conseguiu vir para o Brasil, onde o marido a esperava.

Na Hungria, Rónai teve que trabalhar em campo de prisioneiros. Não esmoreceu, e segundo a biógrafa fez "da leitura um antídoto contra o horror de seu aprisionamento". Quanto à primeira esposa, explica a biógrafa, Rónai jamais saberia o que exatamente ocorrera: "assassinada como muitos judeus húngaros às margens do Danúbio? Jogada no rio gelado para compor a monstruosa estatística de desaparecidos?" Mais um drama entre milhões de dramas ocorridos.

Rónai entusiasmou-se pelo português. Nossa língua lhe parecia um latim falado por crianças ou por velhos desdentados, dada a multiplicação de vogais. Um amigo teria lhe dito que o português era "uma língua alegre e doce como um idioma de passarinhos". Rónai traduziu para o húngaro alguns poetas brasileiros. Conheceu o poeta e diplomata Ribeiro Couto, a quem se deve empenho excepcional na obtenção de um visto e de um bolsa de estudos. Deveu muito também ao diplomata Otávio Fialho. Rónai chegou no Brasil em 1941. O ponto central dessa fascinante biografia consiste no empenho da autora em explicar como o húngaro Pál Rónai tornou-se o brasileiro Paulo Rónai. E conseguiu.

O livro de Ana Cecília revela ao leitor, na reconstrução da trajetória de Rónai, a superação por meio do estudo e do trabalho. O biografado obcecou-se com o Brasil, aprendendo nossa língua, ainda na Hungria. Autodidata, metódico, focado, Rónai (conta-nos Ana Cecília) recebeu uma carta de felicitações de Getúlio Vargas. Bem entendido, num tempo no qual o Itamaraty era duríssimo com pretensões judaicas (a tal da Circular Secreta nº 1127, de 7 de junho de 1937). O papel de Oswaldo Aranha nesse contexto ainda acende polêmicas. A restrição da imigração, por intermédio do Decreto nº 3175, de 7 de abril de 1941, baixado por Vargas, era um grande obstáculo. A passagem de Stefan Zweig entre nós, e alguma conivência com a propaganda getulista, leva ao limite essa dramática questão. Zweig suicidou-se em Petrópolis. Ana Cecília de algum modo compara Zweig com Rónai, e poderíamos acrescentar Otto Maria Carpeaux, austríaco que dividia ampla gama de interesses com a literatura brasileira.

Tem-se nessa biografia uma série de alusões relativas às amizades que Rónai cultivou: Ribeiro Couto, Aurélio Buarque de Holanda (com quem organizou e publicou a monumental antologia do conto mundial, "Mar de Histórias"), Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa. Segundo Drummond (conta-nos a biógrafa) Rónai era um homem de três pátrias: a Hungria, o Brasil e o sitio "Pois É", em Nova Friburgo, cuja casa foi projetada por Nara Rónai, esposa e companheira de vida de Rónai. Uma mulher encantadora, culta, arquiteta, esportista, exímia nadadora.

A autora teve acesso aos diários do biografado. Colheu com paciência as anotações do filólogo, a partir das quais identificou as tensões e grandes problemas que Rónai enfrentou. O processo de aprendizagem do português é descrito, e nesse ponto pode-se acrescentar a leitura do próprio Rónai, “Como aprendi o português”. Rónai viveu em Budapeste, uma cidade marcada por uma cultura erudita e pela presença de uma geração que incluía o filósofo Gyorgy Lukács, o compositor Béla Bartók e o pintor Károly Ferenczy. A capital da Hungria fora também capital de uma monarquia dual (Áustria-Hungria). Nas ruas dessa belíssima cidade conviviam o alemão e o magiar, a par do francês, uma língua franca, um idioma internacional de cultura.

A biógrafa nos conta o interesse de Rónai com Balzac, sobre quem escreveu uma rica biografia. No Brasil, Rónai é um dos responsáveis pela coordenação da tradução e da edição dos vários volumes da "Comédia Humana". Rónai foi convidado por San Tiago Dantas para proferir conferências sobre Balzac na Faculdade Nacional de Filosofia. O pai de Rónai era um livreiro, daqueles que entende do ofício, e a paixão pelos livros certamente radicava nessa referência de família. Miksa, o pai de Rónai, conseguiu abrir a própria livraria com o dote de casamento, aportado por sua esposa, Gisela Lovi. Também nos conta a biógrafa que a livraria do pai de Rónai era um ponto de encontro de advogados. Miksa também vendia livros jurídicos.

Na biografia de Paulo Rónai o pano de fundo da era getulista permite que a autora explore algumas ambiguidades. O governo que "torturava, reprimia e prendia" (Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, e eu acrescento Hermes Lima e Aparício Torelly) era o mesmo governo que promovia e conciliava (e nesse aspecto a presença de Gustavo Capanema no Ministério da Educação, com Carlos Drummond como chefe de gabinete, é disso exemplo).

Há no livro de Ana Cecília passagens dramáticas da vida de Rónai. O biografado auxiliava um tradutor juramentado que traduzia várias línguas, mas que não sabia húngaro. Chamado para a urgente tradução de um documento, Rónai traduziu a notícia que dava conta da morte do próprio pai. Trata-se da tradução mais dolorosa que fez na vida. Há também referências pitorescas. Rónai fora ao Itamaraty onde conheceria Guimarães Rosa. Foi recebido e secamente tratado. Fica sabendo, em seguida, que o Guimarães com quem falou não era o escritor mineiro que procurava, de quem se tornaria grande amigo.

A autora não caiu na cilada do romance histórico, que não é nem romance e nem história. De igual modo, não é refém do impressionismo. Montou um painel com informações relevantes que sintetizam a vida de um grande brasileiro, ainda que nascido na Hungria e que tenha aprendido o português com mais de 30 anos de idade. Como se lê nesse livro encantador, não escolhemos nossos pais e nossas famílias. Mas podemos escolher nossos amigos e nossa pátria, que é justamente onde nos sentimos livres e de bem com nossas vidas. Porque, para onde vamos, nos carregamos.

(1) Dedico esse pequeno ensaio a Paulo Roberto de Almeida, diplomata e escritor, “scholar”, na acepção mais absoluta do termo, lúcido, erudito, instruído e intelectual corajoso.

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