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Embargos Culturais

'O mapa e o território', de Michel Houellebecq

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O escritor argentino Jorge Luís Borges fechou o "História Universal da Infâmia" ironizando o rigor da ciência a propósito de um império imaginário onde a arte da cartografia atingiu tal perfeição "que o mapa duma só Província ocupava toda uma Cidade, e o Mapa do Império, toda uma Província". Insatisfeitos, os cartógrafos fixaram um "mapa do Império que tinha o tamanho do Império". O absurdo que explicita essa impossibilidade, porque na vida real mapas são representações de apreensão do real, pode ser uma das chaves interpretativas de "O mapa e o território", de Michel Houellebecq, polêmico escritor francês. Há quem o deteste. Há quem o admire intensamente. É o meu caso.

A trama narrativa se desdobra em torno de um artista plástico, no contexto de sua conflituosa relação com o pai (quem de nós não vive esse drama?), com uma fascinante russa por quem se apaixonou e, principalmente, com o próprio autor. Aqueles que achamos que Houellebecq seja um narcisista colhemos nesse desconcertante livro várias passagens descritivas da personalidade complicada do autor.

Tem-se a impressão, em algumas páginas memoráveis, que Houellebecq parece endereçar uma entrevista. É um terceiro narrador que se descreve exatamente do modo como gostaria de ser visto. Na tradição literária ocidental lembro-me de algo parecido no Quixote de Cervantes. O novelista espanhol comentou a própria obra, ao longo das aventuras do cavaleiro da triste figura, a valer-me de um lugar comum batidíssimo.

Não se sabe com certeza se a figura principal da narrativa em "O mapa e o território" é o artista imaginário (à cuja existência nunca aderira totalmente) ou o escritor real (sempre imóvel na corda bamba sem saber para que lado cair). Há muitas referências a pintores e escritores franceses contemporâneos, o que exige do leitor um pouco de paciência para compreensão de elementos textuais que posicionam o autor no cenário literário contemporâneo.

Há muitos temas que oxigenam a narrativa. O mundo altamente competitivo da arte. A ascensão de celebridades. Os estereótipos franceses (os guias Michelin fazem parte desse conjunto conceitual). A perspectiva xenófoba para com imigrantes. O papel do turismo de boutique na economia francesa, especialmente quanto à presença de milionários russos, indianos e chineses no hexágono sagrado. A França turística vista por um francês. É o caso de quem quer uma refeição franco-francesa, e não franco-marroquina, e tampouco franco-vietnamita. A tipologia de arquétipos profissionais. A sinuosidade de uma mulher russa (o que também é um estereótipo). A hostilidade do francês interiorano para com qualquer forma de não local; mesmo o parisiense, no interior, segundo Houellebecq, é tão estrangeiro quanto um alemão do norte ou um senegalês. O turismo sexual. O tema dos seios siliconados. Mendigos que se aglomeram debaixo de prédios residenciais. Memórias perdidas de infância. A culinária francesa. A nostalgia para com uma França industrializada, ao invés de uma saudade para com uma França campesina.

O que arrebata em "O mapa e o território" são as digressões. Houellebecq aproveita janelas na narrativa para dissertar inteligentemente sobre miríade de assuntos. Critica Pablo Picasso e retoma a defesa de uma arte de mera reprodução, que perdeu a importância com a multiplicação das máquinas de fotografia, e agora com câmaras de celular. Disserta sobre o divórcio. Argumenta que casais com filhos maduros ou sem filhos podem transformar a separação em guerra de morte, ao contrário de casais com filhos pequenos. A guarda compartilhada tem como pressuposto algum indício de civilidade. Discorre sobre cães, fazendo-se de um modo lírico e inusitado: o cão é a eternização da infância. O cachorro é o filho que não cresce. Ótimo. O trabalho é mínimo, ainda que o apego possa ser máximo, justamente pela falta de filhos, que demandam apego ilimitado.

Principalmente, penso, "O mapa e o território" é também uma reflexão sobre o envelhecimento e sobre a morte. Houellebecq inventariou um mantra, relativo ao que denomina de uma reflexão oriental sobre o cadáver. Junto a corpos empilhados deve-se repetir quarenta e oito vezes: "Esse é meu destino, é o destino da humanidade toda, dele não posso escapar". Reivindica, assim, uma dignidade para o corpo do morto.

Porque seres humanos somos uma consciência única e individual, albergadas por um corpo físico, deve-se atribuir a esse corpo o mesmo valor que se atribui a sua manifestação mais sutil. É o que alguns chamam de alma. O autor-narrador, em testamento, exigia que seu corpo fosse enterrado, e não cremado. Pretendia que os vermes libertassem o seu esqueleto, como decorrência natural de uma existência física, que deu suporte a uma experiência moral. Ao silêncio de um enterro opunha os barulhos que marcam uma cerimônia de cremação. A morte, que se desdobra do envelhecimento, é forma de obsolescência humana, que nos torna produtos culturais ou bens industrias. Há uma finitude na existência. Sabemos, mas fingimos que não.

Em "O mapa e o território" tem-se também uma armadilha que pode confundir o leitor. Cuidado. Houellebecq acena com as linhas gerais de um romance policial, indicando todos os ingredientes dessa tradição novelesca, que é também francesa (exemplifico com o personagem Arsene Lupin e as estórias ambientadas na Belle Epoque). Há detetives, que parecem reais, limitados às circunstâncias de um crime cuja razão era clara para todos, exceto para os investigadores. Houellebecq vê uma impossibilidade fática na ação policial francesa.

Há uma reflexão em torno da eutanásia, e dos limites para que coloquemos fim em nossas vidas. O personagem central amargura a perda do pai e da mãe, em circunstâncias próximas, ainda que em tempos distintos, o que sugere culpa e sentimento de imprestabilidade para com as incertezas da vida. Um encontro anual entre pai e filho, sempre no Natal, revela a fixação com formas e rotinas, em detrimento de uma afetividade real, que muitas vezes não conseguimos demonstrar.

Em "O mapa e o território", penso, Houellebecq, entre outros temas, nos revela nossa incapacidade de dividirmos a existência em espaços de afeto. O personagem no qual se esconde o narrador real obtém prazer ao cortar lenha no inverno. O personagem no qual o narrador real se projeta (é o pintor) experimenta a riqueza transitando por uma estrada macadamizada que mandou construir em sua propriedade, que fora onde viveu na infância.

Preocupado em pagar imposto sobre grandes fortunas, e não imposto de renda, acovardou-se no reconhecimento da falta de sentido de uma existência desprovida de amor. Houellebecq não perdoa. É duro, realista, não faz concessões, como a vida, que retrata, em sua furiosa escrita.




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 é livre-docente pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e doutor pela PUC-SP.

Revista Consultor Jurídico, 21 de fevereiro de 2021, 8h01

Comentários de leitores

1 comentário

M.H.

O ESCUDEIRO JURÍDICO (Cartorário)

"Michel Houellebecq, nascido Michel Thomas (Ilha da Reunião, 26 de fevereiro de 1958), é um escritor francês. Ficiconista, poeta, ensaísta, realizador, argumentista, Houellebecq é um dos mais traduzidos autores franceses contemporâneos, e também um dos mais controversos. Michel Houellebecq é o enfant terrible da literatura francesa atual. Odiado e amado, os seus livros abordam sempre temas na moda e são altamente polémicos, porque ele tem sempre um ponto de vista iconoclasta sobre os problemas" (Fonte Wikipédia).

A literatura dele tem avanços e recuos.
Não a aprecio.

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